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O amor é uma luz a invadir as fendas dos nossos lugares mais cavernosos

| 26/02/2025

 

Será ridículo escrever sobre o amor nestes tempos de tanta cólera?
Afinal, só quem nunca escreveu cartas de amor é que é ridículo.
Em mês de São Valentim, recordo a minha descoberta dessa ridicularidade.

Apaixonei-me a sério, pela primeira vez, no verão dos meus quinze anos. Foi na ilha onde passava as férias de família. A casa de férias do Miguel era em frente à minha.

Eu passava horas à janela a vê-lo no quintal ou por detrás da janela do seu quarto. Ora sentado no chão a tocar guitarra, ora deitado na espreguiçadeira a ler.

Verdade seja dita, nunca tive esperança, faltava-me graciosidade, faltava-me rabo, faltava-me volume nas maminhas adolescentes, faltava-me tudo e, para além disso, eu era dois anos mais nova do que ele.

Jamais me olharia com olhos de vontade, era certo, mas isso nunca o impediu de ser educado, simpático e generoso. Era-o sempre. Umas vezes fazia o frete de ficar à conversa comigo depois do jantar, entre os quintais; outras, íamos juntos até à praia, quando coincidia de sairmos de casa à mesma hora.

O Miguel não sabia rir, nunca o vi rir, única vez que fosse, nada; usava blusas dos Nirvana e dos Guns’N’roses, levava sempre a guitarra ao ombro direito e um livro na mão esquerda. Era a época em que a primeira barba lhe despontava desordenada pela magreza do rosto afora, e os cabelos lhe caíam com o desleixo dos sinceros tristes. Porque será que os olhos tristes carregam tanta beleza, se a tristeza é coisa feia de nos roubar até a vida?

O Miguel levava a desilusão dentro da cabeça, o peso de todos os infortúnios dentro do coração, e ainda assim era a pessoa mais bonita que alguma vez me tinha aparecido à frente. Se um dia eu pudesse amá-lo, Pensava, ele havia de continuar submerso nesse mistério lírico, de onde eu tentaria resgatar um sorriso todas as manhãs, em vão; e nesse vão, a minha alma haveria de renovar-se para o entusiasmo de o amar, vez após vez – em crescente exponencial, sempremente, até eu mesma perder os meus sorrisos e nos fundirmos numa tristeza só. Eu queria viver com o Miguel dentro de um poema que renegasse a validade mundo.

De dentro do meu quarto, eu ouvia-o tocar o My Girl, do lado de fora, e sentava-me encostada à parede, de respiração suspensa e olhos fechados, como tinha visto fazer nos filmes. Não tão tarde da noite ele silenciava as melodias para não incomodar os outros, e eu ficava-lhe com o eco dentro de mim toda para o resto da noite, My Girl, My Girl, don’t lie to meeee … De manhã não vacilava de não estar pronta logo antes de ser hora, e ficava na espreita disfarçada de ver quando ele saia para a praia, para me fingir de estar a sair à mesma hora.

” (…) ele havia de continuar submerso nesse mistério lírico, de onde eu tentaria resgatar um sorriso todas as manhãs, em vão (…)” .Foto © Ana Sofia Brito

Quase sempre, dentro da minha ideia, eu sentia vergonha desses arranjos desajeitados. Quisera eu era ser audaz de me declarar, virar transparente, mas a minha paixão impôs meta sem esperança de ser alcançada, essa coragem eu não tinha, mais facilmente deixava de sentir as pernas quando os olhos dele nos meus olhos esbarravam; corria logo de volta, para me abrigar escondida dentro do susto.

Nesse verão dos meus quinze anos, o que o Miguel fez, para meu desacreditado espanto, foi deixar um livro para mim antes de abalar da ilha. Deixou na venda da dona Emília, no cais. Foi ela que me entregou a surpresa – no dia seguinte, quando eu partia das férias para regressar a casa também – e disse que tinha sido o Miguel a deixar, que era um livro. Não desagrafei o saco até aterrar na solidão segura do meu quarto, pelo caminho até lá eu só podia sentir as veias num latejo flamejante de fogos nunca antes sentidos.

Quando abri o saco, lá estava o Pela Estrada Fora, do Kerouac. Por entre as páginas, um marcador de texto cartonado escrito à mão dizia, de um lado: “Vou pensar em ti todos os dias e esperar ansioso pelo próximo verão”, e do outro: “És o raio de luz que trespassa pelas fendas da minha caverna.”

Passei esse ano, ora lendo o Kerouac em loop, ora ouvindo o unplugged in NY nesse mesmo loop, ora medindo ansiosamente o volume do meu peito e rabo com uma fita métrica de costura, ora passeando a imaginação, de cor e salteado, pelo dia em que chegasse à ilha nas próximas férias.

Depois de atracar no cais, eu iria ter a casa do Miguel, ele abriria a porta sem espantos nem sorrisos e dávamos as mãos, para então caminharmos até bem longe na praia, lá tão longe, onde o navio vive naufragado à beira mar; deitar-nos-iamos ao abrigo da sua sombra, encostadinhos a estibordo. Eu pedir-lhe-ia que me desvirginasse com mão direita de tocador de guitarra e muitas palavras sussurradas, tantas quantas houvesse dentro dos livros que ele lia noite após noite. Insinuar-lhe-ia os quentes e frios do meu corpo com a dança contraída das sobrancelhas, às quais ele estaria imensamente atento, para aprender comigo a decifrar o caminho das prioridades de uma quase mulher. Não demorariamos porque a primeira vez é sempre urgente. Depois, regressaríamos devagarinho, em descida de balão de ar quente, até à areia molhada, onde as roupas abandonadas nos esperariam os troncos. E, então, eu vê-lo-ia sorrir pela primeira vez, e sonhar – sem esperança de realização – que fosse a primeira de muitas eternas vezes.

Todas as noites daquele inverno eu desenhei, no pensamento pormenorizado, a história do primeiro encontro após a descoberta do que os nossos jovens corações escondiam.

No dia 1 de agosto do ano 2000 eu sabia o que era o impulso da felicidade sem abalos. Assim que desembarquei na ilha, enquanto atravessava o cais à pressa na intenção da casa do Miguel, ouvi a dona Emília noticiar, sem reservas de crueldade, à minha mãe, que este ano a rua estaria mais vazia, os vizinhos da frente não viriam. Ela disse, O Miguel morreu, coitado, tão jovem, parece que se espetou de mota, a meio da madrugada, contra um camião do lixo, às tantas estava drogado, pobres pais, ai esta geração, esta geração.

Galopei as pedras do molhe em direção à esteira amadeirada que ia dar à minha casa de férias, ausente de sentidos, quase cega, surda e intáctil. Entrei, bati a porta do quarto e fechei a persiana até ao último buraquinho, para que nenhum raio de luz ousasse invadir as fendas da minha viuvez.

Eu podia aqui tentar relatar um tim tim por tim tim do sentimento que me abalroou naquela tarde quente e dias seguintes mas, o peso do tempo, que se acumulou em abundância desde então, borrando os pormenores da realidade sofrida, não me deixaria ser fiel às feridas causadas pela violência do sucedido.

Escrever aqui os desesperos que senti, seria, hoje, ridículo.

Vinte e sete anos se passaram e eu nunca cheguei a perceber bem se o Miguel foi, ou – afinal – não, o meu primeiro namorado. Mas de uma coisa que ele me ensinou eu nunca mais duvidei, é que o amor é uma luz a invadir as fendas dos nossos lugares mais cavernosos.

Afinal, só quem nunca escreveu cartas de amor é que é, verdadeiramente, ridículo.

 

Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em Breve, Meu Amor”,“O Homem do Trator” e “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024. Lançou em 31 de janeiro o livro de poesia “Tempo”.

 

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