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O cardeal McCarrick em 2008, no Fórum de Davos. Foto: Copyright World Economic Forum (www.weforum.org)www.swiss-image.ch/Photo by Andy Mettler, CC BY-SA 2.0 , via Wikimedia Commons

McCarrick morre aos 94 anos

O antigo cardeal abusador e um ícone que chegou à Rússia ido de Fátima

| 06/04/2025

O antigo cardeal Theodore E. McCarrick, afastado do estado clerical em 2019 após a revelação de alegações credíveis de abuso sexual de menores e de má conduta contra adultos, morreu no Missouri, Estados Unidos. Tinha 94 anos. O advogado de McCarrick confirmou a sua morte a 4 de abril à agência católica americana OSV News. Fátima também se cruzou com os caminhos do antigo prelado.

Caído em desgraça, como destaca a America – The Jesuit Review, a partir de um texto da OSV News, Theodore McCarrick foi arcebispo de Washington de 2001 a 2006 e outrora uma figura poderosa da Igreja Católica nos EUA, conhecido por angariar fundos com sucesso para causas do Vaticano. McCarrick foi afastado do ministério por ordem do Vaticano em junho de 2018, devido a uma alegação credível de abuso sexual de um adolescente investigado pela Arquidiocese de Nova Iorque, mais tarde sustentada num relatório de 449 páginas do Vaticano, divulgado a novembro de 2020.

Em julho de 2018, o jornal The New York Times detalhou as alegações de que McCarrick abusou de dois seminaristas na década de 1980 que resultaram em acordos de abuso da Diocese de Metuchen, Nova Jersey, e uma outra, da primeira criança que McCarrick batizou, e que enumerou casos de abuso ao longo de 20 anos, começando quando o menino tinha 11 anos. Na altura em que foi afastado do ministério, o então cardeal McCarrick afirmou a sua inocência e disse que não se lembrava dos alegados abusos, relata a OSV News.

 

Suspensão do ministério público

Em julho de 2018, o Papa Francisco aceitou a demissão de McCarrick do Colégio dos Cardeais e suspendeu-o do ministério público. O Papa ordenou-lhe uma “vida de oração e penitência” até que as acusações contra ele fossem examinadas num julgamento canónico. Em outubro desse ano, o Vaticano disse que uma investigação preliminar sobre uma alegação contra o então arcebispo McCarrick já tinha ocorrido e que os resultados seriam combinados com um estudo mais aprofundado dos documentos.

O Papa Francisco confirmou a remoção de McCarrick do sacerdócio em fevereiro de 2019, depois de ter sido considerado culpado de “solicitação no sacramento da confissão e pecados contra o sexto mandamento com menores e com adultos, com a agravante do abuso de poder”.

Em novembro de 2020, o Vaticano publicou o relatório sobre McCarrick, que era muito aguardado. Revelou que o ex-prelado “foi capaz de subir na estrutura hierárquica católica com base em contactos pessoais, protestos da sua inocência e uma falta de funcionários da igreja para relatarem e investigarem as acusações”, de acordo com um relato do Catholic News Service sobre o seu conteúdo.

 

Mais acusações em 2021 e 2023

O então Presidente George W. Bush cumprimenta o cardeal Theodore McCarrick de Washington, DC, no Capitólio dos Estados Unidos antes de proferir o discurso sobre o Estado da União, em 2002. Foto © Series: Photographs Related to the George W. Bush Administration, 1/20/2001 - 1/20/2009. Collection: Records of the White House Photo Office (George W. Bush Administration), 1/20/2001 - 1/20/2009, Public domain, via Wikimedia Commons.

McCarrick sempre se movimentou nos meios eclesiásticos e políticos. Na imagem, o então Presidente George W. Bush cumprimenta o cardeal no Capitólio dos EUA antes de proferir o discurso sobre o Estado da União, em 2002. Foto © Collection: Records of the White House Photo Office (George W. Bush Administration), 1/20/2001 – 1/20/2009, Public domain, via Wikimedia Commons.

McCarrick enfrentou acusações relacionadas com abusos sexuais em Massachusetts e Wisconsin, apresentadas em julho de 2021 e abril de 2023, respetivamente. Em agosto de 2023, um juiz de Massachusetts rejeitou um dos casos, considerando o ex-cardeal incapaz de ser julgado após receber um relatório médico dos promotores que concordava com o relatório anterior da defesa de que McCarrick sofria de demência. No ano passado, um juiz do Wisconsin seguiu o exemplo e suspendeu o processo.

McCarrick foi ordenado padre em 1958 para a Arquidiocese de Nova Iorque pelo cardeal Francis J. Spellman. Tornou-se bispo auxiliar de Nova Iorque em 1977, sob a direção do cardeal Terence J. Cooke, a quem McCarrick tinha servido como secretário pessoal. Em 1982, McCarrick foi nomeado primeiro bispo da recém-criada Diocese de Metuchen, Nova Jersey, e em 1986 tornou-se arcebispo de Newark, Nova Jersey.

Em janeiro de 2001, McCarrick foi nomeado arcebispo de Washington e, no mês seguinte, foi nomeado pelo Papa João Paulo II como cardeal. Em 2006, completou 75 anos e, conforme exigido pelo direito canónico, demitiu-se do cargo de arcebispo de Washington, mas continuou a angariar fundos e a conviver com os agentes do poder eclesiástico e político.

Sucedeu-lhe em Washington o cardeal Donald W. Wuerl, que se demitiu do lugar em 2018, no meio do escândalo McCarrick e do escrutínio da sua própria forma de lidar com as alegações de abusos clericais, conforme descrito no relatório do grande júri da Pensilvânia.

Segundo a OSV News, na altura da sua morte, McCarrick estaria a viver no Centro de Renovação Vianney em Dittmer, Missouri, que a Arquidiocese de St. Louis descreve como “uma comunidade de fé residencial para padres e irmãos que desejam viver a sua vocação no seu núcleo de oração e fraternidade”.

“McCarrick afetou negativamente legado e João Paulo II”

No site do Centro São Nicolau — Centro de Estudos das Igrejas Orientais, Peter Anderson, um especialista em questões das igrejas ortodoxas, lamenta que Theodore McCarrick tenha afetado “negativamente o legado do Papa João Paulo II”, por ter sido nomeado arcebispo de Washington pelo Papa Wojtyła.

Peter Anderson recorda que “o relatório concluiu que o Papa João Paulo II tinha ‘tomado pessoalmente’ a decisão de nomear McCarrick como arcebispo de Washington, D.C., apesar de certas alegações de abuso sexual contra McCarrick”. Anderson lembra que, “a este respeito, o relatório explica que o Papa acreditou numa carta de McCarrick que negava quaisquer relações ou abusos sexuais”.

Para o especialista, a conclusão é óbvia: “O relatório do Vaticano manchou certamente a imagem do Papa João Paulo II, que tinha sido canonizado como santo em 2014. Após a divulgação do relatório, o National Catholic Reporter chegou a exortar os bispos dos Estados Unidos a ‘suprimir o culto a São João Paulo II’.”

Anderson estranha ainda o facto de o relatório de 449 páginas do Vaticano ter ignorado, “por alguma razão desconhecida”, “completamente um feito importante e positivo de McCarrick”.

Um ícone de Fátima para João Paulo II

Quando Putin visitou o Papa em 2003, o Papa fez com que o ícone fosse levado para a sala e colocado entre os dois homens durante o encontro. Foto © Kremlin.ru, CC BY 3.0 , via Wikimedia Commons

Quando Putin visitou o Papa em 2003, o Papa fez com que o ícone fosse levado para a sala e colocado entre os dois homens durante o encontro. Foto © Kremlin.ru, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons

O especialista relata então o tal feito, que se cruza com Fátima. “Em 1993, McCarrick, como arcebispo de Newark, ofereceu ao Papa João Paulo II um belo ícone da Mãe de Deus de Kazan como presente. Como visitante apostólico do Exército Azul, McCarrick tinha convencido o conselho de administração dessa organização católica a doar à Santa Sé o ícone da Mãe de Deus de Kazan, que a organização tinha guardado para veneração na sua capela bizantina em Fátima, Portugal.”

Segundo Peter Anderson, “alguns consideram que este ícone em particular era o original de Kazan que a Mãe de Deus tinha mandado a jovem Matrona, em 1579, encontrar enterrado no solo da cidade de Kazan, na Rússia”. E o relato prossegue: “McCarrick tratou dos preparativos para que o ícone fosse transferido de Fátima para a Santa Sé. O Papa João Paulo II decidiu guardar o ícone no seu apartamento pessoal e na sua capela. Depois de o ícone ter chegado ao Vaticano, o Vaticano providenciou para que um perito em ícones russos o examinasse, e este expressou a sua opinião de que se tratava, de facto, do ícone original.”

Para Anderson, o Papa “tinha na sua posse o original do ícone mais venerado da Rússia” e isso, repete duas vezes, devia-se “ao trabalho de McCarrick”. Este será, defende o especialista, “um dos fatores significativos que levaram o Papa a ver McCarrick com bons olhos quando o nomeou arcebispo de Washington D.C. em 2000 e a acreditar que McCarrick era uma pessoa honesta nas suas negações”.

Peter Anderson descreve a particular devoção que Wojtyla dedicava à imagem. “O Papa tinha a esperança de levar pessoalmente este ícone para a União Soviética [dissolvida em 1991] como um presente para a Igreja Ortodoxa Russa. O Papa João Paulo II tinha um grande amor por este ícone. Quando o Papa foi passar o verão a Castel Gandolfo, levou o ícone consigo. O cardeal Sodano observou que o Papa mantinha o ícone em frente à secretária onde trabalhava. Quando Putin visitou o Papa em 2003, o Papa fez com que o ícone fosse levado para a sala e colocado entre os dois homens durante o encontro.”

 

Ícone foi para a Rússia, mas não era original

O Papa teria, no entanto, uma desilusão. Em abril de 2003, relata ainda Anderson, “uma comissão conjunta do Vaticano e da Rússia examinou o ícone do Papa e determinou que não era, de facto, o ícone original de Kazan”. O autor argumenta que esta revelação não diminuiu o seu amor pelo ícone e que João Paulo II insistiu em oferecer a imagem à Rússia (que Anderson insiste em chamar União Soviética). O Patriarcado de Moscovo opôs-se firmemente a uma visita do Papa ao país e a opção foi fazer chegar a imagem a Moscovo pela mão de dois cardeais: Walter Kasper e… McCarrick.

Anderson argumenta que “esta dádiva” ao patriarca Alexis “deu muitos frutos”. “A dádiva melhorou imediatamente as relações muito tensas entre o Vaticano e a Igreja Ortodoxa Russa. Atualmente, foi construída uma grande e bela catedral no local exato de Kazan onde o ícone original foi desenterrado por Matrona em 1579. O ícone principal desta catedral é agora o ícone de Kazan oferecido pelo Papa João Paulo II ao patriarca Alexis. O ícone do Papa é, de facto, o substituto do ícone original de Kazan, que desapareceu em 1904 e, desde então, nunca mais foi encontrado”, conclui Peter Anderson.

 

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