
“O bispo nunca pode pensar em si mesmo sem o outro”, assinalou Francisco, sentado numa das várias mesas circulares, todas dispostas ao mesmo nível, no auditório Paulo VI. Foto © Vatican Media
De um modo mais formal e bastante menos enérgico do que na abertura da JMJ 2023 em Lisboa – mas nem por isso menos convicto – o Papa abriu a segunda sessão da assembleia geral do Sínodo sobre a Sinodalidade, em Roma, repetindo a palavra “todos, todos, todos”. Na tarde desta quarta-feira, 2 de outubro, Francisco quis frisar que “a presença na assembleia do Sínodo dos Bispos de membros que não são bispos não diminui a dimensão episcopal” da mesma. Pelo contrário.
“A composição desta XVI Assembleia é mais do que um facto contingente. Ela exprime um modo de exercer o ministério episcopal coerente com a Tradição viva da Igreja e com o ensinamento do Concílio Vaticano II: o bispo, como qualquer outro cristão, nunca pode pensar em si mesmo sem o outro”, assinalou Francisco, sentado numa das várias mesas circulares, todas dispostas ao mesmo nível, no auditório Paulo VI.
E explicou que a decisão de convocar, como “membros de pleno direito”, um número significativo de leigos e consagrados (incluindo mulheres), diáconos e padres, foi tomada “em coerência com a compreensão do exercício do ministério episcopal” expressa pelo Concílio Vaticano II.
“O bispo, princípio e fundamento visível da unidade da Igreja particular, não pode viver o seu serviço senão no povo de Deus”, defendeu. E a “autoridade episcopal” deve ser exercida de forma “relacional e, portanto, sinodal”.
Assim, este “caminhar juntos” é para o Papa “um processo no qual a Igreja, dócil à ação do Espírito Santo, sensível em acolher os sinais dos tempos, se renova continuamente e aperfeiçoa a sua sacramentalidade, para ser testemunho credível da missão a que foi chamada”.
O facto de todos – bispos e não só – estarem reunidos neste Sínodo é, assim, “um sinal da disponibilidade da Igreja para ouvir a voz do Espírito Santo”, assegurou o Papa.
Até porque “a Igreja não pode caminhar e renovar-se sem o Espírito Santo e as suas surpresas, sem se deixar mudar”, assinalou também Francisco, lembrando que a primeira tarefa dos participantes “é aprender a discernir a sua voz, porque ele fala a todos”.
Desafio à humildade e a rezar pela paz

Francisco pediu a Deus que ajude os participantes do Sínodo a “viver os dias que estão por vir num espírito de escuta, cuidado mútuo e humildade”. Foto © Vatican Media
O apelo à escuta do Espírito Santo esteve também no centro da homilia do Papa, durante a missa de abertura da Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que decorreu poucas horas antes.
Na sua alocução, o Papa pediu a Deus que ajude os participantes a “viver os dias que estão por vir num espírito de escuta, cuidado mútuo e humildade”.
Mas há uma condição para que isso aconteça: libertar-se da arrogância, da presunção e da pretensão de exclusividade na escuta da voz de Deus. Ou seja, esclareceu o Papa, ter o cuidado de não transformar os próprios contributos em teimosias a defender ou agendas a impor. Caso contrário, o Sínodo transforma-se num “diálogo de surdos”, onde cada um tenta “levar a água ao seu moinho” sem ouvir os outros e, sobretudo, “sem ouvir a voz do Senhor”.
“A solução para os problemas a enfrentar não a temos nós, mas Ele”, sublinhou Francisco.
E, antes de terminar, convidou todos a voltarem o olhar para o mundo, “porque a comunidade cristã está sempre ao serviço da humanidade para proclamar a alegria do Evangelho a todos”. Algo que é particularmente necessário “nesta hora dramática de nossa história, enquanto os ventos da guerra e os fogos da violência continuam a devastar povos e nações inteiras”, assinalou o Papa.
Depois, fez dois convites concretos para ajudar a dissipar esses ventos e fogos.
“Para invocar da intercessão de Maria Santíssima o dom da paz, no próximo domingo [6 de outubro] irei à Basílica de Santa Maria Maior, onde rezarei o Santo Rosário e dirigirei à Virgem uma sincera súplica. Se possível, peço também a vocês, membros do Sínodo, que se unam a mim nessa ocasião”, disse o Papa dirigindo-se especialmente aos perto de 400 “sinodais” ali presentes
Em relação ao dia seguinte, 7 de outubro, Francisco estendeu aos fiéis do mundo inteiro o convite lançado na semana passada pelo patriarca latino de Jerusalém aos católicos da Terra Santa: fazer dessa data, em que se cumpre um ano após os ataques do Hamas em Israel, uma jornada de oração, jejum e penitência.
E terminou com este apelo: “Vamos caminhar juntos. Vamos ouvir o Senhor. E deixemo-nos guiar pela brisa do Espírito”.









