Precisamos de nos ouvir (12) – Paulo Pereira de Carvalho: O ar comum

| 22 Fev 21

Turquia, chuva, António José Paulino

“Estar vivo, sabemo-lo bem demais agora, é coisa de sopro que num instante se dissipa.” Foto © António José Paulino.

 

Pudéssemos nós ainda acreditar no poder redentor das pandemias e faríamos a lista do que aprendemos com esta e do que é necessário fazer politicamente a partir de agora num contexto diferente do anterior… mas sabemos, de antemão, que o tão publicitado Novo Normal nada trará de novo e que, pela parte de quem detém o poder, nos espera a tentativa desesperada de repor o Antigo Normal, segundo fórmula conhecida: a necessidade de uma Nova Austeridade e, assim que possível, o regresso à produção em massa e ao consumismo “para alavancar a Economia” – como se esta fórmula não tivesse revelado já, social e ecologicamente, a sua iniquidade!

Pudéssemos nós ainda acreditar nos frutos da palavra de cada um no Espaço Público e trocá-la-íamos aí empenhadamente com os nossos concidadãos, para, em conjunto, encontrarmos soluções… mas sabemos perfeitamente que, no seio do mundo viral da informação e da desinformação que faz toda a palavra equivaler-se, essa pequena palavra só acrescentará ruído à já ensurdecedora algaraviada sem-tom-comum das redes sociais e da Comunicação Social.

E, contudo, nunca como agora se impôs não cedermos à tentação das narrativas da catástrofe ou ao realismo ingénuo e suicida que cauciona tais narrativas. Seria intolerável silenciarmos definitivamente a esperança e aceitarmos, mudos, o que aqueles que governam o mundo decidirão por nós. E talvez seja esta a mais importante lição que, a contrapelo, a actual pandemia nos oferece: a de que o fatalismo é apenas uma versão do mundo e que não temos de a reproduzir…

É uma lição que nos chega a contrapelo, disse. Não é oferecida gratuitamente aos nossos corpos e seres como dádiva, mas, por assim dizer, como coisa roubada. Obrigados ao confinamento, ao uso de máscara e a acatar as medidas dos vários estados de emergência, vemo-nos forçados a repensar a liberdade (que tínhamos por garantida). De um momento para o outro, perdemos familiares e amigos, sem poder despedirmo-nos deles; vemo-nos privados do abraço, do aperto de mão, da carícia, da simples presença, do franco cara-a-cara, do sorriso uns dos outros; os que fomos infectados apercebemo-nos de que perdemos o olfacto e o paladar…

Intuímos, então, num sobressalto íntimo, que a própria natureza das relações humanas foi colocada entre parêntesis, como que suspensa por tempo indeterminado. A percepção de que éramos inquestionavelmente livres parece ter-se esvaziado no momento em que já não a pudemos exercer directamente com outros.

Comprometidos o tacto, o olfacto e o paladar – precisamente os sentidos da proximidade e da intimidade – parece não nos restar outra coisa senão intensificarmos a entrega aos órgãos habilitados para distância, ampliando o já vastíssimo império da visão e da audição diante de ecrãs onde as nossas imagens sociais e as dos outros continuam a ser selecionadas, filtradas, optimizadas e distorcidas a nosso bel-prazer.

Bem vistas as coisas, esta intensificação trata de compensar o desespero, já que de súbito ficou evidente de modo excruciante o que já sabíamos mas sempre tentámos esconder por detrás das vitórias e conquistas exibidas: que somos solitários, radicalmente frágeis e necessitados da atenção alheia. Esta solidão é assustadora e mais assustadora se revela quando, do outro lado, vemos devolvido, como num espelho, o nosso pedido de socorro na voz dos outros.

Todos estamos sós, obviamente, e os negacionistas das manifestações anti-máscara e das festas clandestinas, contestando-o, são mesmo quem com mais alarde o confessa. No fundo, todos fugimos desse “estado insuportável” de que fala Paul Valéry, dessa “intimidade com a vida”, dessas “quatro vidas interiores” que pressentimos como coisa terrível que nos habita e que mais não é do que a precariedade da nossa respiração. Estar vivo, sabemo-lo bem demais agora, é coisa de sopro que num instante se dissipa.

Mas talvez esta circunstância seja a oportunidade de saúde que Hölderlin via no perigo. (Em vez de saúde ele utiliza ainda a palavra salvação, mas, hoje mais do que nunca, faz sentido recuperar a etimologia comum às duas palavras, pois a salvação que está ao nosso alcance passa necessariamente pela saúde – seja ela física, mental, relacional, espiritual… ou ecológica.) O mesmo ar comum que agora nos mete medo, enquanto meio de transmissão da doença, é o que desde sempre foi: o lugar onde a vida se respira. O mesmo sopro vital que animou os mortos une e mantém os vivos. Todos os vivos – humanos e não humanos.

Istambul, Pato, Água, Animal, Margarida Paulino

“O mesmo ar comum que agora nos mete medo, enquanto meio de transmissão da doença, é o que desde sempre foi: o lugar onde a vida se respira.” Foto © Margarida Paulino

 

Talvez o afastamento a que nos vimos forçados tenha semeado, nuns e noutros, o recolhimento e a coragem de enfrentar a possibilidade de alternativas. Talvez, aqui e ali, durante os “passeios higiénicos”, entre arbustos e entulho, tenha nascido um pensamento dos baldios e uma outra intimidade com as coisas naturais e os bichos acossados. Pode ser que um verso tenha salvado uma vida, que a natureza híbrida de um líquen, uma vez escutada, desminta os tiranetes que voltam a falar de pureza.

As solidões estão cheias destes imponderáveis – que, contudo, secretamente se realizam a cada instante. Milagrosamente, apesar da tragédia que atinge os alicerces da humanidade, vivemos também um tempo propício à confidência e à palavra poética. Sabemos agora que só já nos são possíveis micro-acções e palavras sussurradas, mas também que elas se podem concertar num movimento discreto, porém actuante e poderoso – político, num novo sentido –, como as ervas daninhas que regeneram as ruínas.

Um pacto com o que é mais íntimo parece aguardar-nos, um pacto com a Vida que atravessa e irmana fungos, árvores, animais e humanos, um pacto celebrado segundo uma ética da mútua fragilidade. Saberemos responder-lhe vendo, para além da História das nações, o panorama sem fronteiras das interdependências humanas e não humanas? Saberemos responder-lhe vendo, para além da falência da ideia do crescimento económico, a necessidade inadiável da reparação e do cuidado quotidianos? Saberemos responder-lhe vendo, para além dos desastres da competição empreendedorista, os frutos da simbiose e da solidariedade? Saberemos responder-lhe vendo, para além da exigência da liberdade de movimentos e de expressão, a liberdade de nos ligarmos e comprometermos? Saberemos responder-lhe vendo, para além da fatalidade do trabalho esgotante, a alegria inadiável do ócio e do reencontro? Teremos capacidade para uma metanoia com reflexos efectivos, ainda que secretos, no mundo?

Por estranho que pareça, tais respostas não são difíceis de dar. Bastará inspirar e expirar cientes de que nos une um ar comum…

 

Paulo Pereira de Carvalho é professor de Filosofia no ensino secundário

 

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