O arame farpado com lâminas que comoveu o Papa

| 9 Abr 19 | Cooperação e Solidariedade, Cristianismo, Direitos Humanos, Papa Francisco, Últimas

O apresentador e jornalista Jordi Évole, da televisão espanhola La Sexta, pega numa pequena caixa redonda transparente e retira de dentro um pedaço de arame farpado, com lâminas, igual ao da vala que isola o enclave espanhol de Melilla, em Marrocos. O Papa baixa os olhos e abana a cabeça: “Penso que se uma mãe, um filho, um irmão, necessitado de tudo, se arrisca a passar isso, vejo-o com muita dor. Porque cada pessoa que faz isso é minha mãe, meu filho e meu irmão.”

O Papa toma a peça cortante na mão e acrescenta: “E é tal a inconsciência que parece o mais natural. Acostumámo-nos a isto. O mundo esqueceu-se de chorar. Isto demonstra até onde é capaz de descer a humanidade numa pessoa.”

Numa entrevista dedicada sobretudo ao tema dos refugiados e das migrações, o entrevistador pergunta ao Papa o que sente quando vê que 35 mil pessoas perderam a vida a tentar atravessar o Mar Mediterrâneo: “O senhor é filho de imigrantes. Que lhe passa pela cabeça neste momento?” Francisco não hesita: “Pelacabeça não passa nada, mas pelo coração passa muita dor, não entendo a insensibilidade, não entendo a injustiça”.

Momentos antes, questionado sobre o que pensava da política de Donald Trump, que quer um muro erguido em toda a linha de fronteira com  o México, o Papa afirmara: “Quem levanta muro, torna-se prisioneiro do muro que levantou”. E acrescentava, citando A Ponte Sobre o Drina, do escritor bósnio jugoslavo Ivo Andric: “As pontes são uma invenção de Deus para que os homens possam comunicar, são as asas dos anjos.”

Francisco avisa, no entanto: “Não basta receber (o migrante)”, é necessário “acompanhar, promover e integrar”. Se se recebe o emigrante e ele é deixado na rua, “continua a ser um migrante explorado”.

Quanto ao facto de a Europa manter as portas fechadas o Papa lembrou a expressão que usou no discurso perante o Parlamento Europeu, em Estrasburgo: “A Europa tornou-se demasiado avó”, “não temos crianças, nem migrantes, a Europa vive uma crise demográfica!”

A entrevista, que passou na La Sexta na noite de 31 de Março, quando o Papa regressava de Marrocos, passou despercebida da generalidade dos meios de comunicação. Mas, sobre os mais recentes escândalos ligados à questão dos abusos sexuais e às consequentes reformas Francisco está a promover, o Papa Bergoglio explicou que o seu “trabalho é ir limpando” e tentar criar uma estrutura “onde não haja espaço para a sujidade.”

 

“Não corri no início nem vou agora com um travão”

Sobre os que comentam que ele está a andar para trás, tendo em conta o ímpeto inicial, o Papa contesta tal ideia: “Não corri no princípio”, nem “vou agora com um travão”, disse. No início houve muita “percepção de novidade e ilusão por parte das pessoas”. Mas pouco liga ao que dizem dele: “O que faz a fama à minha Verdade? Nada.”

Jordi Évole confrontou ainda o Papa com recentes afirmações polémicas. A primeira relacionada com a sua sugestão de os pais que têm crianças homossexuais deveriam procurar um psiquiatra. O Papa explicou que se tratava de consultar um “psicólogo”, um “profissional”,  insistindo em que uma tendência não é pecado. Pecado é fazer atos conscientes e livres a partir de uma tendência, acrescentando que os pais que sintam algo estranho com os seus filhos, devem procurar averiguar o que se passa, para compreender a origem.

Francisco acrescentou que a questão deve ser tratada em família através do diálogo e que nenhum homossexual deve ser colocado à margem: “Os homossexuais têm direito à sua família” e “a família tem direito a estar com os seus filhos, independentemente da sua orientação”. “É um dever”, acrescentou.

O Papa admitiu entretanto que a frase “o feminismo acaba sendo um machismo de saias”, proferida por ocasião da cimeira sobre os abusos sexuais realizada em fevereiro, no vaticano, lhe saiu, “dita num momento de muita intensidade”. O que ele queria era sobretudo referir-se a um “certo feminismo de protesto” que tem o perigo de acabar como um mero “machismo de saias, não produzindo frutos”.

Jordi Évoleperguntou ainda se, no caso de “jovens que são violadas e acabam por engravidar”, não deveria ser possível o aborto. Francisco respondeu com outra pergunta: “Pode resolver-se um problema matando uma vida humana?”

O Papa condenou ainda os países que, como Espanha, vendem armas a outros para alimentar guerras. O entrevistador deu o exemplo de Espanha, que vende armamento à Arábia Saudita. “Quem vende armas não pode desejar paz”, respondeu Francisco.

Aproveitando o facto de o Papa ser fã de futebol, Jordi Évole perguntou se se se podia dizer que o argentino Leonel Messi é Deus. São  “expressões populares”, respondeu o Papa. “Dá gosto vê-lo jogar, mas não é Deus, eu não acredito.”

Artigos relacionados

Mais 14 cristãos mortos a sangue frio no Burkina Faso

Mais 14 cristãos mortos a sangue frio no Burkina Faso

Pelo menos 14 cristãos protestantes foram “executados” durante o serviço religioso que decorria neste domingo, numa igreja protestante no leste do Burkina Faso. O ataque ocorreu em Hantoukoura, perto da fronteira com o Níger (leste do país) e terá sido executado por um dos vários grupos jihadistas que operam na região.

Apoie o 7 Margens

Breves

Formação avançada em património religioso lançada na Católica novidade

A Faculdade de Ciências Humanas (FCH) da Universidade Católica Portuguesa e o Departamento de Turismo do Patriarcado de Lisboa organizaram um programa de formação avançada em Turismo e Património Religiosos, com o objetivo de “promover a aquisição de competências nos domínios do conhecimento e divulgação do património artístico religioso da diocese de Lisboa”.

Cinco cristãos libertados na Índia depois de 11 anos presos por acusações falsas

Cinco cristãos indianos que tinham sido presos em 2008 com acusações falsas, na sequência da morte de Swamy Laxmananda Saraswati em Kandhamal (distrito de Orissa, a quase 700 quilómetros de Calcutá) foram agora libertados, onze anos depois das condenações e quatro anos depois de, em 2015, testemunhos apresentados por dois polícias terem levado à consideração da falsidade das acusações.

Igreja Católica em Espanha tem de “relançar compromisso” com os migrantes, pede responsável das Migrações

O diretor da Comissão de Migrações da Conferência Episcopal Espanhola, José Luis Pinilla, pediu o “relançamento do compromisso” da Igreja Católica em Espanha com os migrantes, fazendo frente à “xenofobia”. Numa conferência sobre Juan Antonio Menéndez, o antigo bispo e presidente desta comissão que morreu em maio de 2019, Pinilla afirmou que é necessária uma Igreja mais comprometida com os migrantes e lembrou os ensinamentos de Menéndez.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Entre margens

Aprender a dizer amor

Jorge Jesus, treinador do Flamengo, o mais falado clube nos últimos dias, afirmou: “No Brasil aprendi a dizer amor… Em Portugal é uma complicação para dizer amor. Quero desfrutar desse amor”. Sim, mas porque será tão difícil aos portugueses dizê-lo?

Cultura e artes

Concertos de Natal nas igrejas de Lisboa

Começa já nesta sexta-feira a edição 2019 dos concertos de Natal em Lisboa, promovidos pela EGEAC. O concerto de abertura será na Igreja de São Roque, sexta, dia 6, às 21h30, com a Orquestra Orbis a executar obras de Vivaldi e Verdi, entre outros.

“Dois Papas”: um filme sobre a transição na Igreja Católica

Dois Papas é um filme do realizador brasileiro Fernando Meirelles (A CIdade de Deus) que, através de uma conversa imaginada, traduz a necessidade universal de tolerância e, mesmo sendo fantasiado, o retrato das duas figuras mais destacadas da história contemporânea da Igreja Católica. O filme, exclusivo no Netflix, retrata uma série de encontros entre o, à altura, cardeal Jorge Bergoglio (interpretado por Jonathan Pryce) e o atual Papa emérito Bento XVI (interpretado por Anthony Hopkins).

Livro sobre “o facto” Simão Pedro apresentado em Lisboa

Um livro que pretende ser “um testemunho, fruto de uma meditação” sobre a vida do apóstolo Pedro, será apresentado nesta segunda-feira, 2 de Dezembro, em Lisboa (Igreja paroquial de Nossa Senhora de Fátima, Av. Berna, 18h30). Da autoria do padre Arnaldo Pinto Cardoso, Simão Pedro – Testemunho e Memória do Discípulo de Jesus Cristo pretende analisar o “facto de Pedro” que se impôs ao autor, fruto de longos anos de estadia em Roma, a partir de diferentes manifestações.

A primeira poetisa da Europa

Comparada a Homero; segundo Platão, a décima Musa. Era «a Poetisa», tal como Homero era «o Poeta». Manuscritos, nunca os vimos. Provavelmente, queimados, devido ao fanatismo de eclesiásticos bizantinos. Só alguns poemas inteiros chegaram até nós; o resto são fragmentos. Porque nos fascina ainda, uma frase, um verso, passado 2600 anos?…

Sete Partidas

Visto e Ouvido

Agenda

Dez
9
Seg
Falar de vida e fé – Leonor Xavier conversa com Maria Antónia Palla @ Capela do Rato
Dez 9@18:30_19:45
Dez
10
Ter
Apresentação do livro “Os dons do Espírito Santo”, de frei João de São Tomás @ Livraria da Universidade Católica Portuguesa
Dez 10@17:30_18:30

O livro será apresnetado por Manuel Cândido Pimentel, professor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa.

Dez
11
Qua
Apresentação do livro “John Henry Newman”, de Paolo Gulisano @ Capela do Rato
Dez 11@21:15_22:15

O cardeal Newman testemunhou, na Inglaterra do século XIX, uma prodigiosa aventura intelectual e espiritual de diálogo ecuménico (entre a Igreja Católica e a Igreja Anglicana). Reclamava uma fé lúcida, inteligente, em diálogo com a cultura e a tradição patrística (o passado). Antecipou o Vaticano II com a sua compreensão da soberania da consciência. Foi um motivar da intervenção dos leigos na sociedade do seu tempo. A sua recente canonização, em 13 de Outubro, pelo Papa Francisco, é estimulo para se aprofundar o seu pensamento e a novidade do seu testemunho.

O livro será apresentado pelo padre António Martins (Faculdade de Teologia/Capela do Rato) e Artur Mourão, filósofo, tradutor de Newman e membro do Centro de EStudos de Filosofia. O debate é moderado por Nuno André.

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco