O armário de Frédéric Martel

| 22 Mar 19

Um livro enorme, elegantemente bem escrito. Uma mistura notavelmente bem conseguida da tradição do ”american research journalism” com o jornalismo erudito francês. Histórias, revelações e descrições a roçar o inacreditável. O Vaticano visto pelos olhos de Frédéric Martel é um covil de homossexuais hipócritas que se digladiam pelo poder, mas se encobrem mutuamente, do mesmo modo que durante anos encobriram, desvalorizaram, esconderam os piores abusos sexuais cometidos por clérigos pedófilos em todo o mundo. Um murro no estômago!… Melhor: um KO técnico!

A tese central do livro, desdobrada em 14 regras, é a de que a Igreja Católica está a ser destruída pela doutrina moral que impõe o celibato e a castidade, ao mesmo tempo que abomina a homossexualidade, mas convive com uma enorme tolerância disciplinar perante práticas homossexuais, incluindo o encobrimento de abusos sexuais.

Complexo? Não tanto. Para o autor, os dois pontificados que antecederam o de Francisco exacerbaram o discurso homofóbico, enquanto respondiam às tendências homossexuais de muitos clérigos com a proposta da sua sublimação pela via da castidade. Bispos e cardeais vêem-se assim numa posição fragilizada, vivendo uma sexualidade pessoal confusa, não reconhecida por si próprios, ou fechada no seu armário, que torna impossível denunciar os crimes de abusos sexuais que chegam ao seu conhecimento. Denúncia de outros podendo ser denúncia de si próprio. Na confusão, mais vale esconder, proteger, encobrir, minimizar, disfarçar. E se isto é verdade para a Igreja em geral, o seu esplendor máximo situa-se no Vaticano.

Mas se esta é a tese, o livro não é uma tese. São histórias, muitas histórias, casos, situações, explicações de decisões da cúria, dos núncios e dos cardeais tendo sempre por detrás esta matriz homossexual. Tudo isto constituindo não apenas uma sucessão de episódios, mas um sistema. Os cardeais romanos são as figuras centrais deste enredo e das suas histórias. Umas já conhecidas do público e aqui exploradas. Outras desconhecidas e surpreendentes. A maioria mais sugerida do que atestada. Todas envoltas em atmosferas e ambientes nos quais o autor investe os seus melhores recursos literários e jornalísticos para sugerir de forma convincente aquilo que não pode provar. Tão difícil de provar como de contestar.

E aquilo que sugere é a presença – a omnipresença – da homossexualidade envolvendo a maioria dos responsáveis no topo da Igreja. Homossexualidade sob todas as formas conhecidas e caricaturadas: desde a denegação absoluta até ao extremo da compra de favores de prostitutos, passando pela observância estrita da castidade. Frédéric Martel conta e reconta as situações com que exemplifica esta marca homossexual. Explica, a partir dela, o reforço do discurso homofóbico, referindo trechos cardinalícios respirando histerismo em relação ao tema. Aponta-a como origem da incapacidade para denunciar e castigar os clérigos pedófilos. Dá-lhe foros de razão última (e por vezes única) para se entender alguns episódios mais marcantes da história recente da igreja católica.

Não é porém em história da Igreja que o autor é perito. Nem o futuro desta é coisa que o comova. O seu intuito é mostrar como a homossexualidade mal assumida no interior de uma instituição que a aponta como “doença”, “pecado” e “grave desvio moral”, constituindo-se como o último e mais visível reduto do discurso homofóbico, está a provocar a implosão dessa mesma instituição.

De que forma esta questão se articula com outras – sacerdócio, celibato, ordenação das mulheres, estrutura hierárquica da igreja, ou outras – não é terreno em que o autor se mova. Ao explorar um único filão, Frédéric Martel torna-se obsessivo e exagera a capacidade deste único tema para explicar o comportamento dos personagens a que se dedica e do Vaticano como um todo. Assim limitado no que pode explicar e interpretar e no que definitivamente lhe escapa, No Armário do Vaticano não pode ser posto de lado. “Não se passa nada” não é uma reação possível a este livro. Ele encerra um trabalho importante e sério. Consta que São Francisco nunca pregou a atitude da avestruz perante o perigo.

Jorge Wemans (jorgewemans@gmail.com)

No Armário do Vaticano – Poder, Hipocrisia, Homossexualidade, de Frédéric Martel
Sextante Editora, 2019; 646 páginas; preço: €17,91

Artigos relacionados

Breves

Asteroide batizado com nome de astrónomo jesuíta do Vaticano

O asteroide, designado 119248 Corbally, tem cerca de um quilómetro e meio de diâmetro e foi descoberto a 10 de setembro de 2001 por Roy Tucker, engenheiro recentemente reformado, que trabalhou na construção e manutenção dos telescópios usados pelo padre jesuíta.

“Lei de naturalização dos sefarditas” num debate em vídeo

“A lei de naturalização dos sefarditas” é o tema de um debate promovido pela Associação Sedes, nesta quinta-feira, dia 2 de Julho, entre as 18h e as 20h. A iniciativa conta com a participação de Maria de Belém Roseira e José Ribeiro e Castro, dois dos mais destacados opositores à proposta de alteração à lei da nacionalidade apresentada pela deputada Constança Urbano de Sousa (PS).

Boas notícias

Clubes Terra Justa: a cidadania não se confinou

Clubes Terra Justa: a cidadania não se confinou

Durante esta semana, estudantes e movimento associativo de Fafe debatem o impacto do confinamento na cidadania e na justiça. A Semana Online dos Clubes Terra Justa é assinalada em conferências, trabalhos e exposições, com transmissão exclusiva pela internet. Entre as várias iniciativas, contam-se as conversas com alunos do 7º ao 12º ano, constituídos como Clubes Terra Justa dos vários agrupamentos de escolas de Fafe.

É notícia 

Entre margens

Economista social ou socioeconomista? novidade

Em 2014, a revista Povos e Culturas, da Universidade Católica Portuguesa, dedicou um número especial a “Os católicos e o 25 de Abril”. Entre os vários testemunhos figura um que intitulei: “25 de Abril: Católicos nas contingências do pleno emprego”. No artigo consideram-se especialmente o dr. João Pereira de Moura e outros profissionais dos organismos por ele dirigidos; o realce do “pleno emprego”, quantitativo e qualitativo, resulta do facto de este constituir um dos grandes objetivos que os unia.

O valor da vida não tem variações

Na verdade, o valor da vida humana não tem variações. Não é quantitativo (não se mede em anos ou de acordo com qualquer outro critério), é qualitativo. A dignidade da pessoa deriva do simples facto de ela ser membro da espécie humana, não de qualquer atributo ou capacidade que possa variar em grau ou que possa ser adquirido ou perder-se nalguma fase da existência. Depende do que ela é, não do que ela faz ou pode fazer.

Iniciativa Educação: Uma janela aberta à aprendizagem

Há uns anos – ainda era professora do ensino secundário –, uma pessoa amiga tinha duas filhas com personalidades muito diferentes. Foi chamada à escola do 1º ciclo do ensino básico. A professora disse-lhe que a filha mais nova não conseguira chegar aos objectivos propostos e que caberia a ela, mãe e responsável pela educanda, decidir se a filha deveria passar para o ano seguinte ou não.

Cultura e artes

Arte, literatura e renovação cristã

Se falo de um renovador da arte a partir de uma perspetiva cristã, devo recordar o exemplo de Graham Greene (que o arquiteto João de Almeida bem conhecia e admirava). E dou o exemplo de Monsignor Quixote (1982, tradução portuguesa: Europa-América, 1984), o relato de uma viagem à Espanha pós-franquista, num tempo de diálogo com o comunismo e de renovação do catolicismo pós-conciliar.

Aos 101 números, “Le Monde des Religions” deixa de se editar em papel

“Nas nossas sociedades em que o religioso é constantemente tema de debate, em que a busca de sentido se torna cada dia mais premente, Le Monde des Religions propõe uma descodificação das religiões, espiritualidades e sabedorias da humanidade, numa abordagem laica e não confessional”. A constância e a premência referidos no início do texto agora em destaque no site da revista francesa poderiam indiciar um reforço do trabalho editorial, mas na realidade anunciam apenas o fim da publicação da revista em papel.

Vaticano pede aos media que dêem “notícias justas e precisas” sobre as questões religiosas

A delegação da Santa Sé pediu aos media que não se escondam “atrás da liberdade de expressão como justificação para a discriminação, hostilidade ou violência contra uma religião ou seus membros”. O apelo foi feito durante uma reunião sobre a liberdade de expressão, dinamizada pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), que decorreu esta terça-feira em Estrasburgo.

Sete Partidas

STOP nas nossas vidas: Parar e continuar

Ao chegar aos EUA tive que tirar a carta condução novamente. De raiz. Estudar o código. Praticar. Fazer testes. Nos EUA existe um sinal de trânsito que todos conhecemos. Porque é igual em todo o mundo. Diz “STOP”. Octogonal, fundo branco, letras brancas. Maiúsculas. Impossível não ver. Todos vemos. Nada de novo. O que me surpreendeu desde que cheguei aos EUA, é que aqui todos param num STOP. Mesmo. Não abrandam. Param. O carro imobiliza-se. As ruas desertas, sem trânsito. Um cruzamento com visibilidade total. Um bairro residencial. E o carro imobiliza-se. Não abranda. Para mesmo. E depois segue.

Visto e Ouvido

Igreja tem política de “tolerância zero” aos abusos sexuais, mas ainda está em “processo de purificação”

D. José Ornelas

Bispo de Setúbal

Agenda

Fale connosco