Peças em madeira de oliveira

O artesanato que vem de Belém, a abandonada “casa do pão”

| 6 Dez 2023

Artesanato em madeira de oliveira, feito por cristãos de Belém. Foto António Marujo (1)

Além do turismo, a maioria das famílias cristãs de Belém vivem da produção e venda deste tipo de artesanato. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Presépios de vários tamanhos, com ou sem gruta; figuras do Menino Jesus, rostos de Cristo ou representações do Crucificado; estrelas; a Sagrada Família; terços. Em comum a todas estas imagens, o facto de serem em madeira de oliveira e de terem sido esculpidas, trabalhadas, recortadas, por artesãos de Belém, na Palestina, a cidade onde, segundo a tradição, Jesus nasceu.

“Belém significa ‘casa do pão’. Mas nós sentimo-nos abandonados, sem ajudas nem liberdade, numa cidade que ficou sem pão”, diz ao 7MARGENS Nicola Ghobar, 40 anos. Desde meados de Novembro, este cristão palestiniano de Belém está em Lisboa a vender o artesanato que permitirá remediar a situação de aperto em que vivem tantos cristãos da Palestina – que, além das dificuldades económicas, ainda enfrentam discriminações religiosas e políticas. Com uma venda montada nas traseiras da basílica dos Mártires (Rua Anchieta, 10, ao Chiado), Nicola passa ali os dias, deixando o lugar praticamente só aos domingos, para se deslocar a outras paróquias com o mesmo objectivo. No próximo domingo, 10, por exemplo, estará na Capela do Rato, em Lisboa.

Nicola tem uma venda montada nas traseiras da basílica dos Mártires (Rua Anchieta, 10, ao Chiado), e aos domingos desloca-se a outras paróquias. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Se a situação já não era boa, o conflito em Gaza só a agravou: “Não vamos poder celebrar o Natal este ano por causa da guerra, por todos os que morreram e que sofrem.” Nicola admite que “não são precisas luzes, enfeites e árvores de Natal”. O que é necessário, sim, é “amor, paz, justiça e pão”. E acrescenta: “Deus nasce todos os dias se deixarmos que o nosso coração seja a manjedoura.”

É o quinto ano que Nicola vem a Lisboa. Veio a primeira vez em 2017, interrompeu em 2020 e 2021, por causa da covid-19 que assolou o mundo. E continua a ser o único cristão de Belém a representar os artesãos da cidade para vender em Lisboa e, desse modo, ajudar a comunidade cristã. Sente-se “grato” aos portugueses que o acolhem de novo, mesmo se lhe dava jeito ter mais apoio: “Precisava de pessoas que ajudassem na venda nas paróquias. Tantos voluntários na Jornada Mundial da Juventude, se alguns ajudassem aqui era óptimo…”

O seu coração “está lá”, na Palestina. Para trás ficaram os pais, um irmão – que o acompanhou em 2018 –, uma irmã e muitos amigos. “Queremos viver e que nos deixem viver, queremos poder manter vivos os lugares santos e que os cristãos do mundo inteiro continuem a ser a água e o oxigénio da terra que viu nascer o príncipe da paz.”

Em Belém, Nicola é guia turístico, trabalho que faz desde 2007. Foi no desempenho dessa tarefa que aprendeu a falar português. Conheceu muitos peregrinos, incluindo responsáveis da Igreja, que demandam a Terra Santa em peregrinação.

Nicolas Ghobar, vendedor de artesanato em madeira de oliveira, feito por cristãos de Belém.

Nicola Ghobar junto de uma pintura representando a pomba da paz com colete à prova de bala, no Muro de separação Israel-Palestina, em Belém. Foto: Direitos reservados

 

Além do turismo, a maioria das famílias cristãs de Belém vivem da produção e venda deste tipo de artesanato. Trabalham quase sempre em suas casas. São mais de 20 as famílias que estão na origem do artesanato trazido por Nicola para vender em Portugal. Foram três dias para sair da Palestina para a Jordânia e, depois, para Lisboa. Por todas essas dificuldades, muitos cristãos pensam em deixar a Palestina. Em menos de 50 anos, o número de cristãos em Israel e na Palestina passou de vinte por cento para dois por cento – são agora uns 130/140 mil em nove milhões de habitantes; em Belém, a população cristã era, em 1948 (data da fundação do Estado de Israel) oitenta por cento cristã; hoje, é menos de vinte por cento.

Em 2018, Nicola dizia ao 7MARGENS que, se pudesse falar com padres, agentes de viagens ou guias que acompanham peregrinações, dir-lhes-ia: “Desejaria que ficassem uma noite a dormir em Belém e visitassem uma das famílias que trabalham a fazer artesanato, pessoas locais. E que não fizessem apenas o caminho hotel–jantar–visitas. E há muitos mosteiros que os peregrinos não chegam a conhecer, há o campo dos pastores, a gruta do leite… Têm de conhecer um pouco mais”. E aos peregrinos, diz-lhes sempre: “A vossa presença é muito importante, mas têm de ficar e conviver um pouco mais com os cristãos, especialmente na cidade de Belém.”

Para os portugueses, Nicola tem uma mensagem: “Sejam gratos a Deus porque estão num país sem guerra, sem perseguição e com liberdade”. Enfim, os desejos maiores são simples: “Como cristão da pequena cidade de Belém, onde o nosso Salvador nasceu, quero que esta guerra acabe e que volte a paz e o amor aos corações do povo, já que somos todos filhos de um mesmo Deus, somos folhas de uma mesma árvore. E depende dos nossos irmãos em todo o mundo que possam trazer sempre a paz, o amor e a esperança à Terra Santa e o pão à pequena cidade que ficou sem pão.”

 

Há quase cinco anos, o 7MARGENS publicou um pequeno vídeo onde se podem ver algumas das peças à venda:

https://setemargens.com/a-magia-do-artesanato-palestino-o-natal-duro-dos-cristaos-da-terra-santa/

 

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