O atraso que salvou pela segunda vez o judeu Judah Samet

| 31 Out 18 | Estado, Política e Religiões, Judaísmo, Outras Religiões, Religiões, Sociedade

Por ter estado a falar com a empregada doméstica, Judah Samet, 80 anos, um judeu húngaro sobrevivente do Holocausto, chegou atrasado à sinagoga, escapando à morte certa: sábado passado, 27 de Outubro, a pequena cidade de Squirell Hill, em Pittsburgh, na Pensilvânia (EUA) foi abalada com o ataque ocorrido na sinagoga Tree of Life, do qual resultou a morte de onze pessoas.

Judah Samet sobreviveu à sua detenção no campo de Bergen-Belsen, mudou-se primeiro para o Canadá para estar com familiares e, depois, para os Estados Unidos, atrás da mulher que se tornaria sua esposa. Acerca do que se viveu sábado, em Pittsburgh, na sinagoga que costuma frequentar, comenta que parece a história a repetir-se: “É quase como ‘cá vamos nós outra vez’. Já estamos com 70 anos de distância do Holocausto e agora acontece tudo outra vez.”

A conversa com a empregada acabou por ser o que o atrasou – e salvou. Como o próprio contou ao Washington Post, quando Samet chegou ao parque de estacionamento da sinagoga, já estavam lá alguns polícias, que lhe disseram para não entrar no recinto.

O atirador, Robert Bowers, 46, rendeu-se às autoridades depois do tiroteio e enfrenta agora 29 acusações no ataque, já considerado o mais mortífero a atingir a comunidade judaico-americana. O suspeito está acusado de dois crimes de ódio, pelos quais poderá ser condenado à pena de morte, obstrução de exercício de práticas religiosas, resultante em morte, e obstrução de práticas religiosas resultante em ferimentos a membros da força policial.

O atacante entrou no lugar de oração armado com uma metralhadora e três pistolas, a gritar “todos os judeus têm de morrer”. Bowers frequentava a Gab, uma rede social que promove o discurso livre, mas que, pela sua política pouco restritiva, se tornou popular entre neonazis e defensores da supremacia branca. No seu perfil da rede social eram frequentes os textos anti-semíticos, onde se referia aos judeus como “invasores”.

De acordo com a televisão Al-Jazeera, a descrição do seu perfil citava o texto do Evangelho de São João (Jo 8,44), em que Cristo se dirige a um grupo de judeus, dizendo: “Vós tendes por pai o diabo, e quereis realizar os desejos do vosso pai. Ele foi assassino desde o princípio, e não esteve pela verdade, porque nele não há verdade. Quando fala mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.”

Antes do ataque, Bowers publicou na rede uma última mensagem, relatava o New York Times: “Não posso continuar a ver a minha gente a ser morta. Estou-me a marimbar para o que acham, vou avançar”.

No ataque, morreram onze pessoas, maioritariamente idosos, cujos nomes foram relembrados domingo passado, num memorial organizado em nome das vítimas. Perante uma audiência interconfessional de 2500 pessoas, o rabi Jonathan Perlman afirmou: “O que aconteceu [sábado] não nos vergará, não nos arruinará. Vamos continuar a prosperar, a cantar, a venerar e a aprender juntos. Continuaremos o nosso histórico legado nesta cidade com as pessoas mais amigáveis que conheço.”

No domingo, o Papa Francisco enviou condolências na mensagem após a oração do Angelus: “Fomos todos feridos por este ato de violência inumana. Que o Senhor nos ajude a acabar com os atos de ódio que surgem na nossa sociedade e reforce o nosso sentido de humanidade, respeito pela vida, pelos valores morais e civis e por Deus, que é amor e pai de todos.”

Também a comunidade muçulmana mostrou o seu apoio às famílias das vítimas e aos feridos, lançando uma campanha de angariação de fundos com o nome Muslims Unite for Pittsburgh Synagogue.

Apesar dos múltiplos massacres já acontecidos nos EUA, como o ocorrido em Fevereiro deste ano, que vitimou 17 pessoas (dos quais 14 estudantes) em Parkland, na Florida, e motivou mesmo uma grande marcha, em Washington, ou do de Newton (Connecticut), em 2012, que vitimou 20 crianças; apesar de sucessivas pressões dos bispos católicos e de outros líderes religiosos; apesar das tentativas do Presidente Obama no sentido da mudança da lei, o poder do lóbi das armas nos EUA continua a ser mais forte e a permitir o acesso fácil a armas de fogo a qualquer pessoa.

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