O autor e a obra de arte

| 25 Jun 2023

Marko Rupnik, Visão do Inferno, Mosaico, Fátima

Marko Rupnik, Visão do Inferno no painel da Basílica da S.sa Trindade, Fátima. Foto © António Marujo/7Margens

 

O atual problema dos abusos sexuais na Igreja Católica trouxe a lume um sério problema interno, claramente relacionado com o exercício abusivo do poder. No meio do turbilhão de notícias relacionadas com este tema, surgiram acusações relativas ao padre jesuíta Marko Rupnik. Acontece que o padre Rupnik é um dos mais conceituados artistas plásticos, tendo desenvolvido a sua atividade sobretudo no âmbito da arte religiosa. São célebres os mosaicos que projetou para a capela Redemptoris Mater no Vaticano, para a mais recente basílica em Fátima e para a fachada da basílica de Lourdes, entre muitos outros.

Entretanto, dada a situação em que veio a encontrar-se, algumas vozes ergueram-se no sentido de as suas obras serem removidas dos locais públicos em que se encontram, uma vez que podem ser motivo de sofrimento para as vítimas. Que dizer a respeito desta proposta?

Sem nunca minimizar o efeito nefasto do inaceitável comportamento sexual de que é acusado o padre Rupnik, parece-me que se deve manter a obra estritamente separada do autor. Não é a bondade ou maldade do autor que torna a obra de arte boa ou má. Os critérios para julgar o valor de uma obra de arte não são, de forma alguma, os que se usam para ajuizar acerca da honestidade de uma pessoa. O campo da probidade pessoal é ético e jurídico; o campo dos juízos sobre o valor das obras artísticas é estético. O valor de uma obra só pode ser apurado a partir de critérios internos à obra e não a partir de critérios que lhe são exógenos.

Ao longo da história da arte, houve sempre artistas pouco recomendáveis do ponto de vista pessoal. Porém, não deixaram de produzir obras de incontestável valor estético. Os critérios para apreciar o valor de uma obra de arte não incluem, nem podem incluir, o valor ético do comportamento do autor. O juízo sobre o valor artístico de uma obra é claramente independente do caráter do seu criador. Se o não fosse, uma boa parte das obras artísticas – tanto no plano das artes plásticas como na literatura – teriam de ser rejeitadas, dado terem sido concebidas por artistas de caráter pouco recomendável.

A obra de Picasso é, sem dúvida nenhuma, de altíssimo valor estético, mas o seu autor exibia comportamentos muito pouco recomendáveis: abundam na sua vida os casos extraconjugais; parece que, enquanto marido, a julgar pelo depoimento de Françoise Gilot, tinha comportamentos abusivos, controladores e manipuladores, roçando, por vezes, a crueldade e a violência. Este facto diminui a relevância estética da sua obra enquanto pintor? O seu mau caráter é razão suficiente para destruirmos as suas obras ou sequer para as escondermos do público? A obra permanece no seu fulgor estético incontestável, muito acima da figura honesta ou mesquinha do seu artífice.

 

Jesus, Caná, Arte, Marko Ivan Rupnik, Lourdes, Basílica de Nossa Senhora do Rosário

Milagre de Jesus nas bodas de Caná. Obra na fachada da Basílica de Nossa Senhora do Rosário, em Lourdes (França), da autoria do padre Marko Ivan Rupnik, que está a ser acusado de abusos. Foto © António Marujo/7Margens

 

Exemplos como este abundam na história da arte, incluindo escritores.  Ernest Hemingway, um escritor americano excecional, era bastante arrogante e egocêntrico, alimentando conflitos com outros escritores. Ezra Pound apoiou o fascismo, incluindo a sua vertente racista e antissemita. O filósofo Martin Heidegger inscreveu-se no partido Nazi e com ele colaborou, tal como o famoso maestro Herbert von Karajan, que se colou oportunisticamente ao poder de modo a ascender social e profissionalmente. Mas o caráter a vários títulos reprovável destas personagens desmerece da altíssima qualidade das suas obras?

A clara distinção entre o valor da obra e o caráter do autor esteve sempre na base das decisões tomadas pelos agentes culturais. Por mais que a obra de Picasso pudesse provocar sofrimento nas mulheres que ele maltratou, as suas obras não deixaram de ser expostas em locais públicos, de ser comercializadas e valorizadas. A meu ver, esta foi a decisão correta. E não significa, de modo algum, insensibilidade para com as vítimas. Do ponto de vista pessoal, sou inteiramente solidário com elas, considero que o comportamento do famoso pintor foi, por vezes, abjeto, mas a sua obra continuará esteticamente intocável. O homem deve ser julgado e eventualmente condenado pelos seus dislates, mas a obra pertence a um outro nível de análise. As obras de Ezra Pound continuam a ser lidas e apreciadas, apesar da sua colaboração com o fascismo, tal como as de Heidegger, no plano do pensamento filosófico.

Vejamos como tudo se processaria caso se confundisse o valor da obra com o caráter do autor e as obras artísticas fossem julgadas a partir da integridade moral do seu artífice. As perguntas que me ocorrem são as seguintes: Quem julgaria o grau de maldade do autor? Quem determinaria se um dado erro ou até crime seria suficiente para a desclassificação da sua obra? Numa tal situação, regressaríamos certamente a antigas formas de censura, recuperaríamos o hediondo Índex dos livros proibidos e uma dada autoridade zeladora dos bons costumes poderia decidir queimar na praça pública as obras proibidas, perseguir quem ousasse guardá-las ou exigir a sua eliminação por quaisquer meios. Voltaríamos a estados policiais muito próximos dos estados totalitários. Já não seria a liberdade dos cidadãos a escolher o que ver, ouvir e ler, mas seria uma autoridade suprema, incumbida da tarefa moral de zelar pelos costumes, a decidir quais as obras permitidas e quais as que tinham de ser eliminadas devido ao caráter do seu autor.

Estou inequivocamente solidário com as eventuais vítimas do padre Rupnik. Considero essencial que ele seja julgado pelo seu comportamento através de tribunais independentes que deem garantias de imparcialidade. Reputo que, caso se venham a provar os crimes de que é acusado, a Igreja o sancione e eventualmente o expulse do estado clerical. [Os jesuítas anunciaram no passado dia 15 a expulsão de Rupnik de membro da Companhia de Jesus.] 

Considero igualmente que as suas vítimas devem ser apoiadas pela Igreja, mesmo financeiramente. Mas o valor da obra artística que ele produziu nada tem a ver com o seu caráter. Deixemos as obras de arte no espaço público que ocupam e preocupemo-nos, antes, com as medidas a tomar para evitar mais abusos no interior da Igreja. Cada coisa no seu devido lugar.

 

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