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José Joaquim Rodrigues (1936-2016) foi muito mais do que o escultor e artista plástico que marcou o panorama nacional a partir da segunda metade do século XX. Foto © Henrique Manuel Pereira. escultura
José Joaquim Rodrigues (1936-2016) foi muito mais do que o escultor e artista plástico que marcou o panorama nacional a partir da segunda metade do século XX. Foto © Henrique Manuel Pereira.

Evocação de José Rodrigues

O Barro, o Desassossego e as Histórias do Mundo

 

Este é o texto que gostava de ter escrito para o livro As Orações de Junqueiro: Oração ao Pão, Oração à Luz, que sairá brevemente em edição bilingue (português e mirandês). Nele, pela primeira vez, se publicam dois retratos de Guerra Junqueiro executados a pastel por Mestre José Rodrigues em 2001. Ao olhar para esses traços, e ao assinalar a contagem do tempo que este ano impõe – os 90 anos do seu nascimento e os dez anos sobre a sua partida –, é-me difícil passar ao lado da evocação do homem que moldou a matéria e “arte sacra” em Portugal.

Crucifixo, de José Rodrigues: há um território na sua obra que permanece magnético, misterioso e profundamente humano: a Arte Sacra. Foto: Direitos reservados. escultura

Crucifixo, de José Rodrigues: há um território na sua obra que permanece magnético, misterioso e profundamente humano: a Arte Sacra. Foto: Direitos reservados.

José Joaquim Rodrigues (1936-2016) foi muito mais do que o escultor e artista plástico que marcou o panorama nacional a partir da segunda metade do século XX. Nascido em Luanda, dividiu a infância com as paisagens agrestes e viscerais de Alfândega da Fé, em Trás-os-Montes, antes de regressar a Angola, onde o destino o mobilizou para a violência da Guerra Colonial. Diplomado pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto, explodiu contra o academismo vigente ao fundar, em 1963, a Cooperativa Árvore – que presidiu por três décadas –, e ao integrar, em 1968, o mítico grupo Os Quatro Vintes, ao lado de Armando Alves, Ângelo de Sousa e Jorge Pinheiro. Impulsionador da Bienal de Cerveira e condecorado como Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, a sua assinatura multidisciplinar viajou da escultura pública à ilustração de poetas como Eugénio de Andrade ou Jorge de Sena.

Mas há um território na sua obra que permanece magnético, misterioso e profundamente humano: a Arte Sacra. Num daqueles “acasos” da vida, tive o privilégio de registar em vídeo uma conversa impressiva sobre este tema, conduzida pelo meu saudoso Professor, teólogo e amigo Arnaldo de Pinho (depois transcrita e publicada na revista Humanística e Teologia, volume 33, n.º 1, 2012, páginas 13-21). Cruzar hoje as palavras de ambos é recuperar um diálogo vivo entre a transcendência e a carne.

A audácia dos “Cristos” de José Rodrigues: peças que abandonavam a leveza quase bailarina de certas estéticas para se exporem na dor absoluta. Foto: Direitos reservados. escultura

A audácia dos “Cristos” de José Rodrigues: peças que abandonavam a leveza quase bailarina de certas estéticas para se exporem na dor absoluta. Foto: Direitos reservados.

Naquele ateliê da Fábrica Social, no Porto, Arnaldo de Pinho confrontava o Mestre com a audácia dos seus “Cristos”, peças que abandonavam a leveza quase bailarina de certas estéticas para se exporem na dor absoluta. José Rodrigues, com a frontalidade que o caracterizava, desarmava qualquer leitura puramente teológica: “A minha formação cristã é transmontana. Há aquela frase de Cristo que sempre me transtornou: ‘Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?’ É brutal, não é? Esta frase tornou-se obsessiva para mim. Há muitos homens que fazem a mesma pergunta.”

Capa do livro As Orações de Junqueiro: Oração ao Pão, Oração à Luz, terá edição bilingue (português e mirandês). Foto: Direitos reservados. José Rodrigues Guerra Junqueiro escultura

Capa do livro As Orações de Junqueiro: Oração ao Pão, Oração à Luz, terá edição bilingue (português e mirandês). Foto: Direitos reservados.

Para o Mestre, a arte sacra não nascia de manuais, mas do chão da história. “Foi sobretudo a experiência da guerra. Os meus Cristos vêm daí”. Ao que Arnaldo de Pinho acrescentou: “O Zé Rodrigues, de certa maneira, viu nos desprezados e nos humilhados a encarnação de Cristo.” E viu-os também na infância transmontana, marcada por uma matriz judaico-cristã e pela dureza da terra: “Nos lavradores de Alfândega da Fé vi a injustiça, o desprezo, a miséria. […] Na Bíblia encontrei sobretudo desassossego.”

Não admira que, nesse desassossego, o material de eleição fosse o barro, porventura o mais telúrico. Numa bela leitura demiúrgica, Arnaldo de Pinho recordou que, no Génesis, o próprio homem é moldado do barro. José Rodrigues sorriu com a herança dos dias em que, em miúdo, andava com as mãos sujas a fazer bonecos. “O meu material é o barro e as histórias. Eu só sei pintar histórias”.

O professor e teólogo Arnaldo de Pinho (à dir.), com José Rodrigues. Foto © Henrique Manuel Pereira.

O professor e teólogo Arnaldo de Pinho (à dir.), com José Rodrigues. Foto © Henrique Manuel Pereira.

Quero crer que pude sentir este desassossego. E guardo a memória viva de certo almoço no seu Mosteiro. De modo particularmente impressivo, a visita solitária que o Mestre me proporcionou à sua sala dos barros. Poucas vezes o coração se me disparou como naquele momento, diante daquelas figuras do Antigo Testamento, onde a matéria parecia ainda pulsar sob a força dos seus dedos. Ali compreendi, no silêncio daquela sala, o que ele próprio confessou na entrevista: “Sabe, eu acho que sou um personagem do Velho Testamento. […] Não sei se o Job existiu naquele tempo bíblico. Não tenho conhecimentos para discutir sobre isso. Mas tenho a certeza que Job existe no nosso mundo, anda por aí. O Job anda aí na rua.”

A arte sacra não nascia de manuais, mas do chão da história, dizia José Rodrigues. “Foi sobretudo a experiência da guerra. Os meus Cristos vêm daí”. Foto: Direitos reservados. escultura crucifixos

A arte sacra não nascia de manuais, mas do chão da história, dizia José Rodrigues. “Foi sobretudo a experiência da guerra. Os meus Cristos vêm daí”. Foto: Direitos reservados.

Das mãos do homem que de si mesmo dizia “não sou, procuro não ser, funcionário das artes”, saíram prodígios de delicadeza e simbolismo. Como o báculo que esculpiu para D. António Marto, coroado por pequenas campainhas de pastor que tocavam baixinho quando o bispo caminhava, num som que parecia vir “de dentro”. Ou a Senhora da Conceição – uma imagem barroca da Sé de Luanda que foi, literalmente, a sua madrinha de batismo.

No nó cego entre o humano e o divino o diálogo entre o teólogo e o artista atingiu a sua máxima voltagem filosófica. Arnaldo de Pinho, desafiando a perspicácia do criador, lançou a grande tese: “Sabe o que é que custa aos crentes, Zé Rodrigues? O que custa aos crentes é imanentizar a transcendência. Esse é, talvez, o grande problema dos crentes: colocar a transcendência na imanência. E o que é difícil aos descrentes é passar da imanência à transcendência. Este nó da encarnação é um nó muito difícil de desatar.”

José Rodrigues: “É, eu vi demais. Vi coisas que não queria ter visto. Meti as mãos na argila do mundo. A experiência da guerra, em Angola, alertou-me para a tragédia humana. E como transmontano senti também a dor do ser humano, embora de outra maneira. Nos lavradores de Alfândega da Fé vi a injustiça, o desprezo, a miséria.” Foto: Direitos reservados. escultura Cristo crucifixo

José Rodrigues: “É, eu vi demais. Vi coisas que não queria ter visto. Meti as mãos na argila do mundo. A experiência da guerra, em Angola, alertou-me para a tragédia humana. E como transmontano senti também a dor do ser humano, embora de outra maneira. Nos lavradores de Alfândega da Fé vi a injustiça, o desprezo, a miséria.” Foto: Direitos reservados.

A resposta de José Rodrigues: “É, eu vi demais. Vi coisas que não queria ter visto. Meti as mãos na argila do mundo. A experiência da guerra, em Angola, alertou-me para a tragédia humana. E como transmontano senti também a dor do ser humano, embora de outra maneira. Nos lavradores de Alfândega da Fé vi a injustiça, o desprezo, a miséria.” E disse-o quase a pedir descanso ao entrevistador. Anos mais tarde, fui despedir-me dele ao tanatório de Matosinhos.

José Rodrigues é um dos que – tomo consciência disso agora – anda comigo. Nos 90 anos do seu nascimento e dez anos após a sua morte, as suas mãos continuam cravadas na argila da nossa identidade coletiva. Na rua, na arte e no eterno desassossego da criação.

Henrique Manuel Pereira é professor da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa – Porto

 

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