Paul Donoghue, das Ilhas Cook

O bispo das ilhas que também podem desaparecer do mapa

| 26 Out 2023

Bispo da diocese católica de Rarotonga, coincidindo com as Ilhas Cook, no Pacífico, Paul Donoghue, 74 anos, fala do risco que há para várias ilhas do Pacífico de se afundarem, se nada for feito para travar a emergência climática. Também a mineração no fundo do mar é um risco, para o qual vários cientistas vêm alertando.

O bispo Donoghue está em Roma a participar no Sínodo sobre a sinodalidade e conta que toda a gente participou no processo de debate prévio à assembleia que decorre em Roma. Bispo desde 2011, é também, por mais uns dias, o presidente da Conferência Episcopal do Pacífico (Cepac), cargo que ocupa desde 2017 – está no final do segundo e último mandato e irá directo de Roma para a reunião da Cepac.

A sua diocese, espalhada por 15 ilhas e por uma área tão grande como a Europa, tem uma população de cerca de 16 mil pessoas, das quais metade é protestante (metodista e presbiteriana) e onde os católicos são uma minoria – em algumas ilhas, a paróquia católica não vai além de 70 pessoas. País com uma associação livre com a Nova Zelândia, muitos cookianos vivem fora – calcula-se que pelo menos 60 mil vivam no exterior, 40 mil dos quais na Nova Zelândia.

Paul Donoghue, Ilhas Cook

Paul Donoghue, bispo da diocese católica de Rarotonga (Ilhas Cook), esta semana, em Roma. Foto © António Marujo

 

7MARGENS – Como é a experiência viver numa pequena ilha no meio do Pacífico, como bispo e líder de uma comunidade católica?

PAUL DONOGHUE – Muitas pessoas perguntam quantos católicos tenho nas Ilhas Cook: dois mil. Ainda recentemente, o Papa foi à Mongólia e declarou-a a mais pequena diocese do mundo, com 1200 pessoas. Portanto, a minha diocese é apenas ligeiramente maior. A diferença entre a Mongólia e a minha diocese é que a diocese tem 15 ilhas muito pequenas espalhadas por uma área tão grande como a Europa.

Por outras palavras, a distância entre uma ilha e outra é de cerca de 500 quilómetros e seriam necessários 1600 quilómetros para chegar à mais distante. Quinze ilhas, 15 paróquias. Nas ilhas mais pequenas, há apenas uma comunidade e podem viver apenas 100 ou 200 pessoas. E isso significa um número muito pequeno de católicos, talvez 70 numa paróquia.

 

7M – É possível fazer uma experiência comunitária numa comunidade tão dispersa?

Nas ilhas, as pessoas vivem em pequenas comunidades, como eu disse, de apenas 100 pessoas, mas elas existem há um grande número de anos e vivem juntos de forma bastante harmoniosa. Nalgumas destas ilhas agora poderia haver duas ou três religiões diferentes, mas as diferentes religiões são capazes de cooperar, trabalhar em conjunto, é bastante ecuménico. Assim, as pessoas identificam-se fortemente com a sua ilha e têm uma boa comunidade. Têm boas instalações de saúde, têm escolas, têm internet e apesar de estarem mais longe da Igreja em Roma, sabem o que se passa em Roma através da Internet.

 

7M – Interessam-se também pelo Sínodo?

Em muitas das ilhas estão interessados. Sabem que estou cá, preparámo-nos durante dois anos e agora estão à espera que eu regresse para os informar do que aconteceu. A reação deles quando eu estava a vir foi “Diga apenas ao Papa Francisco que o que ele quer que nós façamos, nós fazemo-lo”.

 

7M – Como foi a participação dos católicos neste processo sinodal?

As Ilhas Cook são um país muito cristão. 99% do país será praticante de uma das religiões cristãs e dedica tempo à sua Igreja. Se tivermos uma reunião do governo, se uma empresa está a abrir uma reunião especial, algum líder religioso será convidado e fazemos a oração, escolhemos um evangelho para a ocasião e as pessoas esperam que seja feito um pequeno sermão ou homília. Quando algo como o Sínodo aparece, toda a gente participa e se junta à discussão.

 

7M – Nessas 15 ilhas com cerca de 14 mil pessoas, há dois mil católicos, quer dizer que a maior parte da população é protestante?

Metade será de origem metodista, presbiteriana e, depois, há algumas comunidades mais pequenas: Adventistas do Sétimo Dia, Assembleia de Deus, Testemunhas de Jeová…

 

7M – Se alargarmos o olhar para toda a região da Conferência Episcopal do Pacífico Central, falamos de que realidade?

Todos os outros países são predominantemente cristãos. O único que tem uma religião asiática é as Ilhas Fiji, que têm muitos indianos e são hindus, na cultura.

 

7M – E o ambiente é de diálogo inter-religioso e tolerância ou há conflitos ou tensões entre as diferentes comunidades?

No geral, é bom. Ocasionalmente houve incidentes: uma mesquita foi queimada. Mas isso é extremamente raro. Nunca houve perda de vidas devido a diferenças religiosas.

Paul Donoghue, Ilhas Cook

Paul Donoghue: “Há aldeias perto do mar a depararem-se com problemas graves. O mar está a invadir as suas casas com frequência,” Foto © António Marujo

 

7M – Quando falamos sobre esta região do mundo, uma das coisas que se diz é que talvez daqui a algumas décadas, muitas ilhas podem desaparecer por causa da subida do nível do mar. Tem medo disso?

Onze das 15 ilhas estão menos de três metros acima do nível do mar, mas não são todos os países ou todas as ilhas do Pacífico que estão a enfrentar a subida do nível do mar. É sobretudo nas dioceses de Kiribati, Nauru, Tuvalu, que há uma subida do nível do mar notável, com aldeias perto do mar a depararem-se com problemas graves. O mar está a invadir as suas casas com frequência, está a poluir o abastecimento de água e já se fala da necessidade de encontrarem um país que os acolha. Não é em todo o Pacífico, mas há um número de ilhas nos países que mencionei que estão realmente a perder a sua terra natal.

 

7M – Como é que leu a última exortação apostólica do Papa, Laudate Deum: um grito de desespero? O Papa está a “chorar” por nada, a chorar no deserto”?

Na minha própria diocese, quando a [encíclica] Laudato Si’ foi lançada, penso que a reação foi de as pessoas ficarem surpreendidas por o Papa estar a abordar a questão. Pensavam que o assunto seria tratado pelo governo e não pela Igreja. Cinco anos mais tarde, quando o Papa Francisco nos pediu para rever a Laudato Si’, as pessoas perceberam que o Papa estava a abordar uma questão séria, em particular quando pediu para cuidar da casa comum e do que se ia deixar aos filhos e netos. As pessoas estão muito orgulhosas de que o Papa Francisco saiba o que está a acontecer e dão-lhe todo o seu apoio.

 

7M – Os povos da região consideram que os países desenvolvidos – Europa, Estados Unidos, Austrália – são os principais responsáveis pelas alterações climáticas?

Os nossos políticos são rápidos a criticar países como a América, o Japão, a China, a Índia, pela forma como estão a poluir a atmosfera, provocando o aumento da temperatura, o que afeta seriamente o nosso clima.

As pessoas do Pacífico, em comparação com muitos outros países do mundo, têm bons recursos. Voltando à minha diocese, não temos sem-abrigo, não temos pessoas a pedir esmola na rua, todos têm alojamento suficiente e ninguém passa fome. E as famílias ainda cuidam dos seus parentes de uma forma fraternal. Portanto, tem razão em dizer isso. Não nos vemos no Pacífico como os pobres do mundo, porque temos recursos naturais, os quais temos de cuidar.

 

7M – Mas quando falamos sobre a emergência climática, olham para esses países como os principais responsáveis pelo problema?

É claro que sim. Estamos a implorar aos países que acabámos de nomear para fazer algo a respeito disso.

 

7M – Se pudesse dirigir-se aos políticos europeus, o que lhes diria?

Seria que até nos seus próprios países podem ver os efeitos das alterações climáticas, com as inundações, os incêndios, outras catástrofes. E o que está a acontecer no seu próprio quintal está a acontecer no “quintal” do Pacífico.

 

7M – Temos de agir imediatamente porque senão estamos condenados?

A minha reação pessoal é que os cientistas que eu ouço dizem-nos que estamos perto do ponto de rutura e que se não agirmos agora, será demasiado tarde.

 

Paul Donoghue, Ilhas Cook

Bispo Donoghue: “Muitos projectos de exploração de recursos não ajudaram as pessoas.” Foto © António Marujo

7M – Referimo-nos também a um país e uma região com mineração. De que minerais falamos?

Antes de mais, na nossa conversa, identificámos o oceano. A Conferência Episcopal ocupa, muito provavelmente, cerca de um oitavo da superfície do mundo: desde logo abaixo de Tóquio até à Nova Zelândia. Portanto, é um oceano enorme. E muitas partes desse oceano, incluindo na minha diocese, são ricas naquilo a que o mundo chama metais preciosos, metais necessários para a energia solar, para os carros que não funcionam com combustível e os metais para essas baterias encontram-se no fundo do oceano.

 

7M – Metais para baterias de telemóveis, computadores…

Sim. Há metais que se encontram no fundo e estão agora a desenvolver navios com aquilo a que chamaríamos um grande aspirador para os sugar do chão [do mar]. Novamente, a questão é que alguns cientistas dizem que isso não vai destruir o oceano e outros dizem que sim. Portanto, o problema para pessoas como eu é: em quem acreditar?

O governo das Ilhas Cook diz “bem, outros países encontraram metais anteriormente e agora é a nossa vez”. Mas se voltamos à Laudato Si’, perguntamos que efeito é que esta política vai ter no oceano no futuro? Penso que esta é a grande questão.

 

7M – No seu caso, falamos de um regime democrático, nas Ilhas Cook, por isso é possível fazer um debate democrático e discordar do governo

Sim, com certeza. Mais uma vez, a maior parte do Pacífico é governada democraticamente. Apenas um país, as Ilhas Fiji, teve golpes de Estado, mas é um país democrático. O governo precisa de um recurso, o único recurso que tem é o turismo e durante a pandemia de covid-19 perdeu todas as suas receitas. Por isso, estão desesperadamente à procura de outra coisa que beneficie o país. Mas, mais uma vez, acho estranho, por não ser um cientista e saber em que lado acreditar.

 

7M – Mas acredita em algum dos lados?

A minha experiência diz-me que muitos desses projectos não ajudaram realmente as pessoas. Falámos antes de Nauru, que era rico em fosfato e a Austrália e a Nova Zelândia usam-no para fertilizar as suas terras agrícolas e agora o povo de Nauru não tem recursos, é como uma paisagem lunar. Não quero entrar no mundo teórico, mas o ganho político é impulsionado pela economia e acho que é esse o trabalho deles. Será que estão realmente preocupados com o que está para vir daqui a 30-40 anos? Seria aí que eles precisariam de ser desafiados.

 

7M – Nauru tem também um problema de refugiados. Pode falar-me sobre isso?

Esta situação surgiu porque o Governo da Austrália tem tido uma política de não permitir que boat-people [refugiados que atravessam o oceano] desembarquem na Austrália. Se desembarcam, são capturados, presos e depois a Austrália transfere-os para dois centros no Pacífico, onde são mantidos até que algum país do mundo os aceite. Os refugiados têm estado à espera nestes campos durante vários anos, sendo muito poucos os que são transferidos para um país de acolhimento.

 

7M – De quantos refugiados falamos, aproximadamente?

Não posso dar um número exato, mas diria que é bastante pequeno, provavelmente, menos de 1000.

 

7M – Para uma ilha como Nauru é demasiado?

Sim.

 

7M – O Papa Francisco tem razão quando diz que a falta de acolhimento aos refugiados é um grande problema no nosso mundo moderno?

Certamente. No entanto, gostaria de chamar a atenção para o facto dos refugiados não chegarem à maioria dos nossos países insulares do Pacífico. O nosso povo não está a pensar neles, não é algo que eles tenham tido com que se confrontar. Nas Ilhas Cook, por exemplo, nenhum refugiado chegou lá. E os que estão em Nauru foram levados para lá pelo governo da Austrália.

 

7M – A Austrália paga a Nauru para os manter?

Sim, construíram as instalações e…

 

7M – Tal como a Europa, em que pagamos à Turquia.

Sim, sim. Mencionei quando Nauru perdeu os seus recursos de fosfato e duas ou três ilhas que perderam o fosfato mudaram-se para as Fiji, receberam terras e recomeçaram a vida. Mas em comparação com os milhões de refugiados no mundo, são números muito pequenos.

 

7M – Estes refugiados vêm principalmente do Bangladesh, Sri Lanka, Índia e querem ir para a Austrália e a Nova Zelândia?

Sim, sim. Vêm pela Indonésia, que praticamente faz fronteira com a Austrália. A Nova Zelândia ainda seriam mais duas semanas de barco desde a Austrália…

 

7M – É uma grande viagem.

Sim, e num mar muito agitado.

 

7M – Concorda com o Papa quando ele defende que se deve acolher quem precisa de hospitalidade?

Certamente. Penso nos meus antepassados irlandeses, há 200 anos. Quando as condições na Irlanda eram difíceis, eles mudaram-se, tomaram terras em muitas partes do mundo e tiveram um novo começo. A situação continua e certamente espera-se que o mundo se consiga adaptar a dar a todos uma terra natal, um sítio onde se possa criar uma boa família e…

 

7M – E começar uma nova vida.

E começar de novo, sim.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Iniciativa ecuménica

Bispos latino-americanos criam Pastoral das Pessoas em Situação de Sem-abrigo

O Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) lançou oficialmente esta semana a Pastoral das Pessoas em Situação de Sem-abrigo, anunciou o Vatican News. Um dos principais responsáveis pela iniciativa é o cardeal Luís José Rueda Aparício, arcebispo de Bogotá e presidente da conferência episcopal da Colômbia, que pretende que a nova “pastoral de rua” leve a Igreja Católica a coordenar-se com outras religiões e instituições já envolvidas neste trabalho.

Lopes Morgado: um franciscano de corpo inteiro

Frade morreu aos 85 anos

Lopes Morgado: um franciscano de corpo inteiro novidade

O último alarme chegou-me no dia 10 de Fevereiro. No dia seguinte, pude vê-lo no IPO do Porto, em cuidados continuados. As memórias que tinha desse lugar não eram as melhores. Ali tinha assistido à morte de um meu irmão, a despedir-se da vida aos 50 anos… O padre Morgado, como o conheci, em Lisboa, há 47 anos, estava ali, preso a uma cama, incrivelmente curvado, cara de sofrimento, a dar sinais de conhecer-me. Foram 20 minutos de silêncios longos.

Mata-me, mãe

Mata-me, mãe novidade

Tiago adorava a adrenalina de ser atropelado pelas ondas espumosas dos mares de bandeira vermelha. Poucos entenderão isto, à excepção dos surfistas. Como explicar a alguém a sensação de ser totalmente abalroado para um lugar centrífugo e sem ar, no qual os segundos parecem anos onde os pontos cardeais se invalidam? Como explicar a alguém que o limiar da morte é o lugar mais vital dos amantes de adrenalina, essa droga que brota das entranhas? É ao espreitar a morte que se descobre a vida.

Agenda

There are no upcoming events.

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This