Os primórdios do movimento cinematográfico no seio da Igreja em Portugal

O “Boletim Cinematográfico” na Igreja em Portugal – uma memória histórica

| 2 Mar 2024

Charlie Chaplin: Há um século, a Igreja Católica começou a olhar para o cinema, mas sublinhando quase só o que considerava negativo. Foto © Domínio Público

Charlie Chaplin: Há um século, a Igreja Católica começou a olhar para o cinema, mas sublinhando quase só o que considerava negativo. Foto © Domínio Público

 

No início dos anos trinta do século XX, com entidades como a Legião da Decência, nos Estados Unidos (uma forma de pressão das ligas de moral sobre a indústria cinematográfica de Hollywood), a Igreja Católica começou a olhar para o cinema com uma atenção que até aí não tinha revelado. Mas não era um olhar valorizador dos aspectos positivos sociais e artísticos do cinema. Antes consideravam as autoridades eclesiásticas constituir o cinema um perigo para o público e, neste espírito, sublinhavam na maior parte dos filmes apenas o que consideravam negativo, ao mesmo tempo que punham em acção mecanismos censórios e condenatórios. Era preocupação da Igreja verificar, dentro da sua óptica, inconvenientes morais e, assim sendo, apresentar, eventualmente, o filme como condenável. A consideração positiva era rara. A postura das autoridades consistia, apenas, numa chamada de atenção para os possíveis perigos.

Esta atitude será, de resto, melhor entendida se recordarmos o espírito que acompanhou longos anos o cinema desde o seu nascimento. Não poderemos esquecer que o cinematógrafo se desenvolve, inicialmente, como pouco considerado espectáculo de feira, cuja credibilidade não era reconhecida fora do círculo do entretenimento. Só lentamente os filmes começaram a receber um estatuto de respeitabilidade porque se aproximavam dos padrões artísticos legitimados pela literatura, pelo teatro e pela pintura.

Nos espíritos que se consideravam cultos, porém conservadores, os jogos com as imagens geravam fortes desconfianças e o cinema, para além de ser encarado como algo que envolvia práticas de bruxaria, era acusado não só de pôr em causa formas artísticas consideradas mais nobres, mas, para os bem pensantes, como algo que punha em causa a própria herança cultural do passado. Daí à consideração de graves perigos para a moral ia um passo. Neste contexto deve ser compreendida a atitude da Igreja Católica e mesmo, como no caso dos Estados Unidos, das ligas protestantes.

Mas estava-se então, como em entrevista nos sublinhou Francisco Perestrello, numa época em que a Igreja Católica dispondo embora de meios de projecção cinematográfica consideráveis – nos salões paroquiais – nada, ou quase nada, fazia para promover os filmes que mais directamente defendiam os valores, preferindo antes a divulgação de obras inócuas, ingénuas, assépticas, para não ferir a susceptibilidade de determinados sectores do seu rebanho. Apenas em finais dos anos 50 a situação sofreu alteração.

 

Pio XI: na encíclica Vigilanti Cura, o Papa pugnava uma “legião da decência” em cada país

 

Foi no contexto dos anos trinta que o Papa Pio XI publicou, em 1936, a Encíclica Vigilanti Cura. Esta Carta, dirigida especialmente aos católicos dos Estados Unidos, visava também a criação em outros países, a exemplo da já referida Legião da Decência, de organismos nacionais capazes de definir o escalão etário a que cada filme era destinado e seleccionar aqueles que deveriam ser liminarmente condenados, o que os vedava em consciência aos católicos. Era este um tipo de cruzada – para adoptar um qualificativo utilizado por M. I. Rezola1 – que bem enquadrava com o “conservadorismo do catolicismo português da época” como, por outro lado, caracteriza Manuel Braga da Cruz2.

Quando em 1936 surge em Portugal a encíclica papal o país vive já, politicamente, a dez anos de distância da Revolução de 28 de Maio de 1926 e num período de enraizamento político e doutrinário com que o poder de Salazar consolidava as estruturas do Estado Novo. A Igreja acolhera o advento da nova ordem política “com uma benevolente e confiante expectativa, quando não mesmo com entusiasmo declarado” (Braga da Cruz, op. cit: 203).

As atitudes concretas do Governo chefiado pelo antigo professor de Coimbra criaram um relacionamento com a Igreja que permitia ao cardeal Cerejeira, numa carta pastoral de 1939, referir-se ao Governo como tendo “só ele […] competência, os elementos de informação, a responsabilidade e a graça de estado para declarar as obrigações, defender os direitos, zelar os interesses, salvar a honra da pátria. Todos os portugueses lhe devem acatamento e obediência […]” (citado in B. da Cruz, ibid. 207). De resto, como também lembra Braga da Cruz, a Constituição de que Portugal estava dotado desde 1933 patenteava na concepção e organização política do Estado a “crescente influência católica” gerando progressivamente um terreno que conduziria à Concordata de 1940 entre o Estado Português e a Santa Sé.

É dentro deste pano de fundo do Portugal dos anos 30 que surge a figura de um sacerdote, Manuel Lopes da Cruz (1899-1969), interessado pelo cinema, a inserir nas páginas da revista Renascença – Ilustração Católica, e logo a seguir nas colunas do diário católico Novidades (de que era chefe de redacção), a “classificação moral” sobre os filmes estreados em Lisboa. E é em 8 de Maio de 1938 que o P. Lopes da Cruz recebe das autoridades eclesiásticas assentimento para a criação do Secretariado do Cinema e da Rádio (SCR) 3, integrado no movimento laical da Acção Católica Portuguesa4. Mas será a Rádio Renascença (criada pelo mesmo Lopes da Cruz) – com a própria Emissora Católica a ver os seus estatutos publicados no órgão Acção Católica, também em 1938 (cf. Rezola, op. cit., p. 245) – que dominará o novo Secretariado a funcionar nas suas instalações e com pessoal seu. Francisco Perestrello refere que a vertente de Cinema do Secretariado – no seio da RR – se manteve numa modesta acção meramente amadora confinada à execução de notas críticas e “classificações morais” (que denunciavam o “grau de perigosidade” de cada filme exibido, mesmo depois do que a censura oficial, anteriormente à estreia, já realizara em cortes e proibições), classificações publicadas no diário católico Novidades e também divulgadas pela Emissora Católica5.

 

A criação do BC-Boletim Cinematográfico

 

Capa e fichas do BC: o boletim surgiu como órgão oficial do Secretariado do Cinema e da Rádio. Foto: Direitos reservados. 

Capa e fichas do BC: o boletim surgiu como órgão oficial do Secretariado do Cinema e da Rádio. Foto: Direitos reservados.

 

Entre 1938 e o final de 1950 a classificação de filmes e a sua recensão crítica vai, portanto, sendo publicada regularmente no jornal diário Novidades e divulgada pela RR bem como numa grande parte da imprensa regional, predominantemente propriedade da Igreja. É apenas em Janeiro de 1951 que o P. Lopes da Cruz decide alargar a abordagem do cinema criando o BC-Boletim Cinematográfico – que logo surge como órgão do também oficial SCR5.  Começava então um novo período de desenvolvimento e projecção do Secretariado.

O BC inicia a publicação de uma ficha individualizada para cada filme estreado em Portugal. Para a época tal cometimento representava uma notável capacidade de trabalho iniciando assim uma longa história de quarenta e oito anos em que se tornou um elemento de referência para uma história completa da exibição cinematográfica em Portugal6. E, não deixando embora de se ter em conta o quadro conceptual marcadamente ligado ao pensamento católico oficial da época, o BC constitui, sem dúvida, uma incontornável fonte de consulta para os estudiosos da realidade cinematográfica em Portugal no período de quase cinquenta anos em que se publicou.

Inicialmente o BC publicava apenas o título do filme em estreia, os nomes dos actores, uma reduzida sinopse, o local e a data da estreia, bem como uma classificação moral. Evoluiu posteriormente para uma publicação de natureza cultural, mas sempre apresentando-se como uma modesta folha desdobrável contendo em cada número (de assiduidade primeiro mensal, depois quinzenal e, por fim, novamente mensal), um somatório de fichas recortáveis, permitindo a organização, pelo utilizador, de um ficheiro de realizadores ou de filmes. Cada ficha supunha um esquema fixo que na sua fase mais recente apresentava a seguinte estrutura:

– Título português/Título original
– Origem (produtor), ano de produção, versão linguística
– Duração
– Classificação etária da Comissão de Classificação de Espectáculos
– Distribuidor do filme em Portugal
– Género e formato; cor ou P.& B.
– Realizador(es); Autor(es) da banda sonora; Director de fotografia
– Elenco de actores
– Resumo do assunto
– Nota crítica
– Salas e datas de estreia em Portugal
– Classificação do Secretariado do Cinema e da Rádio

Até final de 1950, como se referiu, as classificações eram atribuídas por redactores do jornal Novidades. A partir da criação do BC o P. Lopes da Cruz apoia-se num grupo integrado por pessoas da RR bem como de outras que lhe eram exteriores e onde coexistia um ou outro jornalista do diário Novidades. Com o desenvolvimento do Boletim, Lopes da Cruz convida alguns jornalistas de outros órgãos de informação, mas sempre sob a garantia, considerada decisiva, de uma “sólida formação católica e de uma sólida formação moral” (Perestrello, in entrevista), o que significava que a formação sobre matérias cinematográficas era, nesse tempo, um elemento acessório, só mais tarde tido em conta. E tal aconteceu a partir do momento em que se começaram a recrutar como críticos jovens oriundos do Cineclube Católico entretanto criado em 1956 e reconhecido pelo episcopado português como órgão do SCR.

 

O Cineclube Católico

 

Roma, Cidade Aberta: apesar de haver figuras de padres nos filmes, a presença dos padres nas salas de cinema era interdita pelo Direito Canónico.

Imagem do filme Roma, Cidade Aberta: apesar de haver figuras de padres nos filmes, a presença dos padres nas salas de cinema era interdita pelo Direito Canónico.

 

No Cineclube Católico (CCC) mais uma vez encontramos um sacerdote com a responsabilidade da orientação de um organismo da Igreja ligado ao cinema, no caso oriundo da diocese de Coimbra, José de Oliveira Branco, e designado pelo bispo diocesano para trabalhar com o P. Lopes da Cruz na RR e, simultaneamente, como Secretário do SCR. Por inerência estes dois sacerdotes ocuparam no Cineclube funções directivas.

Não deixa de ser um dado deveras significativo a ligação e o interesse destes dois padres pelo cinema quando, até final dos anos sessenta, existiu no seio da Igreja Católica, em Portugal como em outros países, uma determinação canónica (de resto decorrente do próprio Código de Direito Canónico então vigente) em que era interditada a presença dos padres em salas públicas de exibição cinematográfica, presença que só era permitida mediante pedido à autoridade diocesana mas que, lembra oportunamente Francisco Perestrello, era frequentemente negada. À referência de um tal dado junte-se o facto – jogando em contradição com o antes referido –  de em seminários diocesanos onde a formação ministrada era mais aberta aos valores culturais, como acontecia em Lisboa, no Seminário dos Olivais, o cinema era um elemento estimulado através de um ambiente de informação cinéfila onde eram frequentes as projecções de obras importantes da cinematografia mundial devidamente enquadradas nos aspectos históricos do cinema no que respeita a correntes e autores, gerando esta dinâmica um fluxo cultural próximo do cineclubismo.

No âmbito do SCR o Cineclube Católico (CCC) tinha como objectivo alargar a actividade de contacto com o cinema através de projecções preparadas com a distribuição de textos com comentários ao filme exibido. Significativamente, e tendo em conta o contexto em que a cultura se exercia no Estado Novo, as sessões do CCC não admitiam debates sobre as obras apresentadas para não se criarem situações que provocassem a intervenção das polícias7. As sessões do CCC eram programadas com o apoio de um gestor das salas de cinema que a RR possuía em Lisboa (Mário Sequeira Pimentel) que assim abria ao Cineclube muito boas condições financeiras junto das distribuidoras de filmes. O CCC, depois de vicissitudes várias, na sequência da revolução de Abril de 1974, encerrou as suas actividades em 1981, após 23 anos de exercício8.

 

Os caminhos para a sucessão de Lopes da Cruz

 

Francisco Perestrello, Cinema

Francisco Perestrello assumiu cada vez mais responsabilidade no SCR, apesar da tutela mantida pelo padre Lopes da Cruz. Foto: Direitos reservados

 

A partir de 1956 o P. Lopes da Cruz passa a intervir no SCR através da orientação delegada do já referido P. Oliveira Branco. Este sacerdote irá, durante os anos sessenta, introduzindo o Eng.º Francisco Perestrello, um leigo e um homem de cinefilia muito enraizada, que militou no Cineclube Católico desde a sua fundação, e colaborava no SCR e no BC desde 1957. Perestrello assumiu uma situação de cada vez maior responsabilidade no SCR até assegurar a sua orientação no dia-a-dia embora não sendo director pois que o P. Lopes da Cruz (entretanto dignificado como Monsenhor pelo Papa) manterá a tutela até ao final da sua vida, em 1969.

Após o desaparecimento do fundador da Rádio Renascença, do Secretariado do Cinema e da Rádio e do Boletim Cinematográfico, as relações funcionais com a RR tornam-se difíceis e o SCR liberta-se da sua tutela. D. António Ribeiro, futuro cardeal-patriarca, e desde 1969 bispo auxiliar de Lisboa – e simultaneamente pároco da basílica dos Mártires – cede, em 1971, um espaço naquela paróquia, ficando o Secretariado claramente na dependência da Conferência Episcopal Portuguesa. Na verdade, até final da vida, Mons. Lopes da Cruz mantivera sobre os assuntos do Secretariado um contacto funcional directo com o cardeal-patriarca D. Manuel Gonçalves Cerejeira. Esses contactos também eram muitas vezes realizados por dois membros da direcção do SCR, sendo um deles Francisco Perestrello.

Na sequência do Concílio Ecuménico Vaticano II surgem os bispos encarregados das Comunicações Sociais9 e, por fim, a criação – dentro do organigrama da Conferência Episcopal Portuguesa – da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais, em 197510. Esta passa a tutelar o SCR como órgão específico para o cinema. E quando na referida Comissão Episcopal é instituído o Secretariado das Comunicações Sociais da Igreja Católica é consensual entre a Comissão e o SCR a integração deste no Secretariado das Comunicações Sociais, como departamento especializado, deixando o estatuto de secretariado autónomo. Contudo, tal resolução não se concretizaou de imediato.

Depois da morte de Mons. Lopes da Cruz, em 1969, o episcopado não se apressa em nomear um director para o SCR assumindo interinamente o cargo, por inerência, o novo director de Rádio Renascença. Mantinham-se em funcionamento, para os assuntos correntes, os anteriores membros da direcção, mas sem nomeação formal. Será D. Domingos Pinho Brandão, então bispo auxiliar do Porto e responsável das Comunicações Sociais, que nomeará, em 1973, como director do Secretariado um leigo (facto digno de nota na época), na pessoa de Francisco Perestrello, cargo que na prática este já vinha exercendo, no contexto antes referido11.

 

O BC e a revolução de 25 de Abril

 

Salgueiro Maia na Praça do Comércio no dia 25 de Abril de 1974. © Alfredo Cunha, cedida pelo autor

Salgueiro Maia na Praça do Comércio no dia 25 de Abril de 1974: O BC passou por dificuldades de adaptação ao novo parque de exibição cinematográfica em Portugal decorrente da abolição da censura. Foto © Alfredo Cunha, cedida pelo autor.

 

Com a revolução de 25 de Abril de 1974 o BC passa por algumas dificuldades de adaptação ao novo parque de exibição cinematográfica em Portugal decorrente da abolição da censura, denominada como Exame Prévio na governação de Marcelo Caetano. O Eng. Carlos Serpa Vasconcelos, que em Março de 1971 fora nomeado director do BC, pretendia dar ao Boletim uma maior abertura, uma intenção em que é contrariado pelas orientações da direcção do SCR presidida por Perestrello. Este último defendia o princípio de que perante a introdução de novas componentes nos filmes exibidos, em contexto da liberdade restaurada, era necessário reforçar a tónica da “apreciação moral”, sem cedências em relação ao “erotismo agressivo e à violência”, o que implicava o reforço das classificações para adultos com reservas (AR) e condenável (C), acompanhada esta última de um texto de suporte justificativo12. Francisco Perestrello sustentava que esta polémica tomada de posição não era apenas sua mas que existia, no seio da equipa de críticos, um consenso majoritário à volta deste assunto13. Porém, na já referida entrevista, que nos concedeu em 2000, o antigo director do BC considerou sem hesitação, esse critério, como excessivamente conservador e sublinha que teria sido melhor uma abertura gradual dos critérios.

Perante a situação criada, Serpa Vasconcelos demite-se em Agosto de 1974, embora continuando no BC, como colaborador. É então que Perestrello assume o cargo de director do Boletim, acumulando com a direcção do Secretariado.

Questionado sobre a pertinência da classificação Condenável, e se não bastaria a indicação para adultos com reservas14, Francisco Perestrello sublinha que essa era uma classificação instituída pela O.C.I.C. (Office Catholique International du Cinéma)15, na qual o SCR estava filiado. Posteriormente o escalão condenável passou a existir apenas para os filmes pornográficos hard-core por serem considerados por aquela organização católica como degradantes. Nos anos setenta, como sublinhou Perestrello, o espírito era diferente e o termo condenável possuía outro tipo de abrangência. Em todo o caso, lembra sempre Perestrello, a classificação Condenável era aplicada a filmes que na sua estrutura atentavam contra os direitos humanos, formas de violência extrema, formas de apresentação degradante da realidade sexual. Explicava-se a razão da condenação, mas não se chegava ao extremo – como acontecia em alguns países latino-americanos – de a Igreja excomungar os católicos que visionassem tais filmes.

As classificações atribuídas pelo SCR eram, com alguma frequência, diferentes das que eram propostas pela Comissão de Classificação de Espectáculos do Estado. Tal, porém, nunca acarretou qualquer litígio pois nenhuma das entidades interferia com a outra, mesmo que estivessem em desacordo. Eram duas classificações com critérios, parâmetros e objectivos distintos. A classificação do Secretariado era baseada no que este considerava um “critério moral da Igreja Católica e critérios humanistas”. A classificação do Estado, ainda segundo Francisco Perestrello, baseava-se no “conceito de ordem pública” e, através dele, “o Estado eximia-se a ser acusado pelos pais de deixar mostrar a uma criança aquilo que não deve”.

Quando se dá o 25 de Abril de 1974 o BC já se destinava a veicular uma mais cuidada informação cinematográfica o que, de resto, vinha acontecendo desde meados dos anos sessenta, uma situação que viria a ser incrementada a partir do momento em que se encetou uma reforma do BC, em 1971. Existia uma consciência da necessidade de adaptar a perspectiva moral das classificações a uma nova situação. Mas o critério estava agora firmemente ancorado no sistema de construção e de contextualização do filme. Procurava-se uma análise global para que o potencial espectador ficasse informado sobre cada obra nos aspectos de cinematografia, de narrativa fílmica e de conteúdo. Esta preocupação encontra uma via de concretização na vinda para o BC de jovens oriundos do Cineclube Católico e que tinham passado por uma formação em cursos e colóquios sobre cinema16. A partir daí reforça-se a abordagem do cinema nas suas diversas vertentes e não apenas em questões de tipo primário como acontecia na fase inicial da vida do BC.

O corpo de assinantes do Boletim Cinematográfico foi essencialmente constituído, ao longo dos anos, por profissionais de cinema, empresas ligadas à distribuição ou exibição cinematográfica, jornalistas, alguns escritores, cinéfilos, paróquias, organizações católicas e famílias de prática católica. O número de assinantes nunca foi muito elevado oscilando entre os 1.200/1.500. Na vigência do Cineclube atingiu os 2.000 e depois caiu para metade. Nos últimos anos de existência eram apenas cerca de 700. Porém há que ter em conta que embora o número fosse pouco significativo uma parte substancial era constituido pessoas colectivas que atingiam um número superior de leitores. Muitas paróquias, por exemplo, afixavam o Boletim à entrada das igrejas.

 

O cerco das dificuldades financeiras e o encerramento

 

Francisco Perestrello, cinema

Francisco Perestrello: apesar dos seus esforços, o BC acabou por encerrar por falta de suporte financeiro. Foto: Direitos reservados

 

O BC foi publicado sem interrupção entre 1951 e 1998, com excepção de um período de três meses em que, por dificuldades financeiras motivadas pela suspensão do porte-pago, a publicação esteve suspensa. Na realidade o aumento constante do custo do papel, dos encargos de tipografia e os problemas decorrentes do corte cíclico do porte-pago por parte da Direcção-Geral da Comunicação Social foram asfixiando os parcos recursos financeiros. No que respeita ao porte-pago acontecia que sempre que a lei era revista o Boletim era excluído e ficava a pagar taxas de correio até o porte ser retomado. E aqui a boa ou má vontade dos directores-gerais da Secretaria de Estado da Comunicação Social era um elemento a ter em conta. Perante a arbitrariedade de uma situação discricionária a Direcção do BC decidiu abdicar do porte pago e subir o custo das assinaturas em ordem a suportar o aumento da despesa postal.

O BC tal como era pensado, construído e apresentado era uma simples folha, mas teve uma longa vida de quarenta e oito anos. Passou algumas vezes pela tentação de se tornar revista. Uma dessas ocasiões aconteceu por alturas da criação da revista do Cineclube Católico, Panorâmica. Uma decisão da responsabilidade de Francisco Perestrello adiou a integração do BC naquela revista até esta se revelar estável. Mas. Panorâmica durou apenas dez números. Uma outra ocasião em que a hipótese de uma revista se colocou ocorreu com o lançamento, pelo SCR, do BC-VÍDEO, em 1990, que se propunha abordar criticamente o lançamento de filmes em suporte vídeo. Porém aquela publicação não subsistiu para além do número dois.

Entretanto, em 1990, o Secretariado do Cinema e da Rádio, que há muito verificava a não pertinência da sua designação – porque desligado da rádio, no seio da qual nascera – altera o nome para Secretariado do Cinema e do Audiovisual (SCA). Sob a nova designação subsistiria apenas mais oito anos.

Em 1998 o Boletim acumulara um forte passivo decorrente de anos anteriores, uma situação entretanto suportada pelo, na altura, recém-criado CINEDOC-Centro de Documentação Cinematográfica, uma entidade privada criada e dirigida por Francisco Prerestrello. Perestrello propõe nessa altura à Comissão Episcopal da tutela um plano para redução drástica do défice do BC o que implicava a alteração da propriedade e da própria orientação do Boletim. Mas a Comissão entendeu não existirem condições para a continuação do Boletim Cinematográfico e decidiu suspendê-lo sine die. Este é o momento em que a Comissão Episcopal concretiza uma antiga sugestão de Perestrello: a criação de uma área de cinema no Secretariado das Comunicações Sociais da Igreja Católica sucedendo ao Secretariado do Cinema e do Audiovisual. Perante a dissolução do Secretariado e a suspensão do BC (que se revelou definitiva) Francisco Perestrello tomou a iniciativa de cessar funções.

Este é o breve historial de uma publicação simples na sua forma de apresentação, mas que, ao durar persistentemente cerca de cinco décadas, prestou à cultura cinematográfica e à Igreja Católica em Portugal um serviço inestimável e indelevelmente ligado ao nome de Francisco Perestrello, agora falecido.

 

 

 NOTAS:

1 Maria Inácia Rezola, “Breve Panorama da Situação da Igreja e da Religião Católica em Portugal, in Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques [direcção] Nova História de Portugal, vol. 12, Lisboa, Editorial Presença, 1990.

2 Manuel Braga da Cruz in “As Relações entre o Estado e a Igreja” in Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques, op. cit., p. 208.

3   Note-se, a propósito, o que o papa Pio XI sublinhava no texto de Vigilanti Cura: “[…] é absolutamente necessário que os bispos criem um Secretariado permanente que tenha por missão promover bons filmes,  classificar os outros conforme as categorias mencionadas e finalmente fazer chegar esta classificação aos sacerdotes e fiéis”.

4 A marca inicial da inscrição institucional dos secretariados do cinema, ao estarem simultaneamente ligados à encíclica Vigilanti Cura, de Pio XI e ao movimento da Acção Católica – criado também por este Papa –  está patente no texto inserido no n.º 44, de 30/10/57, do BC, de que se transcreve: “Para que a cotação moral dos espectáculos, feita segundo as normas da Vigilanti Cura, chegue a todos os lares e possa orientar pais, educadores e empresários conscienciosos é necessário que se propague o BC com a maior dedicação e interesse. É necessário que todas as secções da Acção Católica organizem os seus ficheiros de cinema com as informações mais úteis acerca dos filmes que vão sendo exibidos.” Note-se, a propósito, que os primeiros passos para a criação da Acção Católica Portuguesa são dados pelo episcopado em 1933. Acrescente-se também que o Secretariado do Cinema e da Rádio é oficialmente instituído pela Junta Central da Acção Católica Portuguesa. Todos estes passos são dados numa progressiva cruzada católica, num país que vive no contexto político de desenvolvimento do Estado Novo, como antes se referiu.

5 Francisco Perestrello, “A Igreja e a Cultura Cinematográfica no Último Meio Século” in Manuel Braga da Cruz e Natália Correia Guedes (coordenadores) A Igreja e a Cultura Contemporânea em Portugal, Lisboa, Universidade Católica Editora, 2000, p. 284.

5  Registe-se que o SCR assinará as críticas de cinema nas páginas do diário católico Novidades até Junho de 1972. O jornal, esse, apenas cessará a publicação depois da revolução de Abril de 1974.

6  Como curiosidade refira-se que no seu n.º 1, em 11/01/51, o BC aponta o preço da assinatura anual – 30$00 – sublinhando que tal custo visava apenas cobrir as despesas de impressão e distribuição uma vez que todo o trabalho da equipa que assegurava as críticas e a publicação era totalmente benévolo. E, a propósito, o mesmo número do BC refere o preço da assinatura da congénere publicação norte-americana da Legião da Decência: 70$00.

7  Lembram-se as inúmeras intervenções da PSP, da GNR, e da própria PIDE, junto de cineclubes orientados por intelectuais e estudantes do campo ideológico da oposição, numa altura em que o movimento cineclubista conhecia grande florescimento e onde o cinema era uma componente para um terreno fértil de formação política de oposição ao salazarismo e, depois, a Marcelo Caetano. Frequentemente a intervenção policial conduzia os dirigentes cineclubistas à prisão.

8  Durante vários mandatos foi presidente da Mesa da Assembleia Geral do CCC Luís de Pina. Este especialista de cinema foi director da revista Filme, autor de livros, crítico do BC e presidente do Instituto de Tecnologia Educativa. Faleceu em 1991 sendo director da Cinemateca Portuguesa desde 1981. No CCC foi responsável pela organização de vários ciclos temáticos.

Para mais ampla informação sobre o Cineclube Católico veja-se Perestrello, 2000, op. cit.

9  O primeiro foi, justamente, o patriarca de Lisboa, cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira.

10 Foi seu primeiro presidente D. António Baltazar Marcelino, bispo de Aveiro.

11 Perestrello é nomeado director do SCR, mas não do BC. Na realidade as duas entidades estão, até aí, ligadas, mas não se confundem. À morte de Mons. Lopes da Cruz (1969) assume interinamente o cargo de director do BC o P. Reis Assunção que, entretanto, sucedera ao já referido P. José de Oliveira Branco no trabalho na RR. Aquela interinidade durará até Março de 1971.

12  Sempre que era aplicada a classificação Condenável o texto inserido no verso da ficha rezava: “A classificação Condenável pretenderia prevenir o espectador para aspectos gravemente negativos contidos no filme, chamando a atenção para uma análise ponderada. Assinalam-se com esta classificação filmes muitas vezes produzidos numa estratégia de exploração comercial da facilidade em angariar público para temas ou situações reprováveis. Incluíam-se também aquelas produções que defendiam uma inversão de valores apresentando-a capciosamente como válida, com base numa argumentação falseada. Eram, na maior parte dos casos, filmes sem grande valor cinematográfico. No entanto, a alta qualidade formal não justificava, para os princípios defendidos pela Igreja, a exclusão de certos filmes desta classificação.”

13  Concretamente, os filmes que geraram esta polémica eram duas obras proibidas pela Censura antes de 25 de Abril de 1974 e agora exibidas. Ambos eram filmes de realizadores italianos: “O Último Tango Em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci e A Grande Farra (1973), de Marco Ferreri.

14 A classificação Para adultos com reservas englobava (segundo os critérios do SCR) um grau de agressão menos intenso do que as obras que implicavam Condenável. Em todo o caso, supunha um tipo de propostas que poderiam afectar negativamente uma porção de público com uma fraca preparação.

15 A OCIC era, na época, um órgão especializado da Igreja Católica para o cinema tal como a UNDA o foi para a rádio e a televisão e a UCIP para a imprensa. Todos três integravam o Conselho Pontifício para os Meios de Comunicação Social, com sede no Vaticano. Em 2001 OCIC e UNDA foram integrados numa única entidade com a designação de SIGNIS.

16  Daqui resulta mais uma vez evidente a importância do cineclubismo, no caso o de configuração cultural de raiz católica: o Cineclube Católico, em Lisboa, o Centro Cultural de Cinema (também de Lisboa) e o Cineclube da Boavista, no Porto, ou outros – nem sequer registados como cineclubes – como o centro cinematográfico com sede no Externato de S. João de Brito (Lisboa), que agrupava um conjunto de centros congéneres existentes em colégios. Ou ainda a actividade do Centro de Estudos Cinematográficos, cuja actividade de base não era, no entanto, o cineclubismo mas a formação cinematográfica e que era dirigido pelo fundador do Festival de Cinema da Figueira da Foz, José Vieira Marques.  Mas, para além dos cineclubes ligados à Igreja Católica, lembrem-se também todos os outros, de orientação ideológica divergente do Estado-Novo, como já antes foi referido.

 

Carlos Capucho é professor aposentado da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa; este texto é composto a partir da tese Magia, Luzes e Sombras – 1974-1999, 25 anos de filmes no circuito comercial em Portugal, defendida pelo autor na Universidade Católica Portuguesa em 2004. Perestrello foi evocado num outro texto de Carlos Capucho publicado no 7MARGENS.

 

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