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Imagem de Nossa Senhora Aparecida, Brasil. Foto Santuário Nacional de Aparecida

Polémica eleitoral

O Brasil é de todos os santos (e de quem não tem religião)

“Esta é uma eleição [em] que nós vamos resgatar almas. Nós vamos honrar o nome de Deus aqui neste país. E eu peço todo dia sabedoria para Deus, coragem, tudo que eu já falei aqui. Porque eu tenho um sonho de lá na hora de fazer o discurso de posse, eu vou fazer uma oração para consagrar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo.”

No dia 30 de setembro, quando exibiu a peça Em nome de Jesus? Religião, política e dinheiro público, o portal De Olho nos Ruralistas recuperou este trecho de um discurso do senador Flávio Bolsonaro, proferido em abril deste ano – portanto, bem antes do início da campanha eleitoral brasileira – numa das principais feiras agropecuárias do país. Foi, segundo a reportagem, a primeira vez que ele fez publicamente essa promessa, repetida com mais ênfase em agosto, quando já era candidato: “Quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.

 

Esta lembrança vem a propósito de uma polémica de cunho religioso que agitou a reta final da campanha: a possibilidade de que Nossa Senhora Aparecida deixasse de ser a padroeira do Brasil.

Essa hipótese foi levantada pela jornalista Maria Cristina Fernandes, num programa da GloboNews, ao comentar as chances de reeleição do presidente Lula da Silva: “Tem um movimento na Igreja Católica de reação a uma parcela de evangélicos que está mobilizando um projeto de lei para tirar a Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira, que pode, sim, surtir efeito entre os católicos a favor do Lula.”

Foi o bastante para as redes sociais entrarem em polvorosa, com a disseminação da ideia de que Flávio Bolsonaro apoiaria um projeto desses. Ele reagiu com veemência e negou essa intenção. Indicado por seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro – hoje preso por tentativa de golpe de Estado –, que o saudou como “terrivelmente evangélico”, o ministro André Mendonça, que no momento acumula as funções de ministro do Supremo Tribunal Federal e vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral, determinou a exclusão de mais de um milhão de publicações que induzissem àquela conclusão. A ordem provocou reações entre outros ministros, até que foram estabelecidos novos critérios para a eliminação de posts passíveis de serem considerados propagadores de fake news.

O mais curioso, ou estranho, para não dizer vergonhoso, foi a decisão da GloboNews de desautorizar, poucas horas depois, na edição de seu jornal da meia-noite, o comentário da jornalista e pedir desculpas pelo “erro”, pois ela estaria se referindo indiretamente a um projeto de lei de 2007, que acabaria arquivado no ano seguinte. Ora, Maria Cristina não fez essa referência, o que é facilmente demonstrável. O que terá motivado a Globo a correr para acusar um erro inexistente é algo a ser apurado. Mais grave é praticamente toda a grande imprensa ter endossado essa versão, que apontava na intervenção da jornalista a origem de fakes resultantes de uma interpretação enviesada do que ela disse.

Enviesada, mas muito plausível: afinal, como demonstrou a peça Em nome de Jesus?, Flávio Bolsonaro é muito próximo do ex-deputado Victorio Galli, que em 2019 seria assessor especial de seu pai, apoiou a tentativa de golpe e hoje novamente concorre a uma vaga na Câmara federal. Galli é o autor do projeto pelo qual a santa deixaria de ser padroeira do Brasil para se tornar “padroeira dos católicos apostólicos romanos”. A justificativa era perfeitamente iluminista, republicana e democrática: a preservação do caráter laico do Estado, definido pela Constituição, e do “espírito da tolerância religiosa que felizmente graça [sic] no Brasil”.

Manifestantes pró-Jair Bolsonaro diante do quartel do Exército em Brasília, em novembro de 2022: há grupos evangélicos fundamentalistas a atacar católicos. Foto © Valter Campanato/Agência Brasil

 

Tem mesmo graça, pois não?

Como se evangélicos fundamentalistas não atacassem sistematicamente católicos e suas imagens de santos – a famosa cena dos idos de 1995, em que um bispo da Igreja Universal chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida num programa da TV Record, é uma referência sempre lembrada – e não vandalizassem terreiros de umbanda e candomblé.

Por isso foi tão importante a intervenção de coletivos de media que desfizeram essa distorção e traçaram um histórico da atuação das correntes evangélicas mais reacionárias, adeptas da chamada teologia do domínio, que exorta seus adeptos a se empenharem em comandar todas as instâncias de poder e da vida social, numa espécie de ressurreição e atualização do espírito das Cruzadas, agora voltadas (também) contra a Igreja Católica.

(A propósito, foi curioso ver Flávio Bolsonaro, na tentativa de desvencilhar-se dos boatos que o afetavam, acusar “gente de dentro da CNBB” [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil] de ter ajudado a espalhá-los. “Flávio ataca a Igreja Católica para provar que não ataca a Igreja Católica”, ironizou o colunista Leonardo Sakamoto, no portal UOL).

Algumas cidades brasileiras, como Sorocaba, no interior de São Paulo, e Nova Iguaçu, na Baixada fluminense, ostentam há anos placas que anunciam seu pertencimento ao Senhor Jesus. É mais um motivo para que a promessa de Flávio em seus recentes discursos tenha sido vista por muitos comentadores nos meios alternativos como um apito de cachorro, um sinal que os evangélicos fundamentalistas entendem, mas os bispos católicos também. A preocupação deles, e dos devotos da santa, teria muita razão de ser.

No programa Calma Urgente transmitido em 28 de setembro, a economista e guionista Alessandra Orofino recordou a história da santa, “a única santa negra que tem devotos em massa no Brasil, personificação negra de Maria”, para apontar o sentido racista dos ataques que sofre, e demonstrou o vínculo de sua proclamação como padroeira do país, em 1930, pelo Papa Pio XI, com o projeto de construção da identidade nacional que Getúlio Vargas, recém-chegado ao poder, pretendia promover. Mas, principalmente, chamou a atenção para a associação entre Flávio Bolsonaro e o bispo J.B. Carvalho, autor do livro A Bomba, que dedica um capítulo inteiro à santa.

 

“Ele fala especificamente de tirar o título de padroeira do Brasil”, relata Alessandra, e classifica a adoração a ela de “institucionalização da adoração pagã, ilegal pelas leis humanas e pelas leis de Deus”. Acusa-a de ser “deusa da promiscuidade, braço direito de Satanás, promotora da prostituição, da pornografia, da indústria do sexo, do aborto”. Seria, segundo ele, um dos múltiplos disfarces do demônio, que no Brasil se mascara com o nome de Aparecida.

“Este é o bispo do Flávio Bolsonaro”, diz Alessandra. “Foi na igreja dele que o Flávio foi batizado em 2024 e foi na igreja dele que o Flávio fez a primeira aparição pública depois de anunciar sua candidatura. Há base, portanto, para a preocupação.” O senador poderia ter-se vinculado a qualquer outro ramo do evangelismo. Mas, não: aderiu a este. Não poderia ser mais claro: “O Flávio está na tradição do bispo que chutou a santa.”

A instrumentalização política da fé nunca deixou de acontecer, mas, em tempos recentes, radicalizou-se no governo Bolsonaro, com seu lema “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Embora sempre reitere que não mistura religião e política, Lula da Silva aproveitou a onda que lhe era favorável nesse episódio e, em fins de setembro, num comício em Belém do Pará, recebeu e exibiu uma estatueta de Nossa Senhora de Nazaré, e prometeu que, enquanto fosse presidente, Nossa Senhora Aparecida continuaria a ser a padroeira. A multidão exultou.

Talvez não possa mesmo ser diferente, diante do acirramento de uma disputa em que o que está em jogo é a sobrevivência da democracia brasileira. Mas o melhor antídoto contra o ódio e a intolerância religiosa é a celebração da diversidade, expressa numa belíssima animação produzida pelo grupo Ponto de Umbanda, que começa assim:

O Brasil é de todos os santos
Tem gente dizendo que o Brasil tem um dono só
Mas esse chão foi feito de mistura e de suor
Veio no navio negreiro a fé que não quebrou
E na mata o povo antigo já rezava Tupã e Jaci o amor
Antes da cruz chegar já tinha reza aqui
E quem quiser contar história vai ter que ouvir
O Brasil pode ser de Jesus,
Mas também é de Oxalá,
É de Zambi, é de Olorum, é de Tupã, é de Alá
É de Iemanjá no mar, de Aparecida no altar,
É do pajé, da benzedeira, do rabino a rezar
Ninguém é dono do céu
Ninguém é dono do chão
O Brasil é de todos os santos
E de quem não tem religião.

(ver na rede social Instagram)

 

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