AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

O Brexit dos pobres

| 19/09/2019

O Brexit dos pobres

by | 19 Set 19 | Entre Margens, Últimas

Um Brexit puro e duro deixará um rasto de destruição nas vidas e famílias por todo o Reino Unido. Foi isso que a Igreja de Inglaterra disse, procurando ser fiel à sua responsabilidade profética.

O processo político do Brexit tem-se revelado uma trapalhada do princípio ao fim. Desde logo, na campanha para o referendo valeu toda a sorte de informações falsas a fim de levar ao engano os eleitores. A União Europeia foi sempre apontada pelos brexiters como a fonte de todos os males, mensagem que colheu nos meios rurais e nas faixas populacionais mais idosas, onde o saudosismo do antigo Império Britânico é mais forte e onde a canção patriótica do século XVIII Rule, Britannia! ainda emociona. Já as gerações mais jovens estão muito mais adaptadas à globalização e abertas ao mundo, despojadas de tiques de superioridade, por isso votaram maioritariamente no Remain.

O ex-primeiro-ministro David Cameron quis reforçar a sua legitimidade no partido e lançou o referendo em 2016, crente de que o ganharia. Perdeu, para surpresa geral, e abriu-se uma caixa de Pandora. Ou seja, os ingleses disseram que queriam sair da UE mas não se entendem sobre como nem quando. O espectáculo dado ao mundo por Teresa May foi degradante e agora, com Boris Johnson ainda desceu mais de nível.

O populista Donald Trump foi dos poucos a aplaudir a triste figura de Boris porque lhe interessa uma Europa o menos forte possível, na ilusão de afirmar os Estados Unidos num mundo em mudança, onde cada vez exerce menos influência.

Em boa hora a Igreja Anglicana advertiu o país para o duro impacto que teria sobre as camadas mais pobres do Reino Unido uma saída da UE sem acordo, como Boris defende e no momento em que o primeiro-ministro solicitou à Rainha Isabel II a suspensão do Parlamento, numa manobra política antidemocrática sem precedentes. Mais de vinte bispos anglicanos alertaram em carta aberta para o “custo potencial” de um Brexit duro para “os menos resistentes às crises económicas”.

O populismo está à flor da pele, com um primeiro-ministro não-eleito a mandar encerrar um parlamento eleito, apenas para levar por diante uma saída da UE sem acordo, contra a opinião geral dos representantes democráticos do povo britânico e, eventualmente, contra a opinião actual dos próprios eleitores. E tudo isto sem se preocupar com a possível implosão do Reino Unido, tendo em vista a eventual independência da Escócia (que não se quer desligar da Europa) e a previsivelmente perigosa crise política na Irlanda, que não admite a reposição duma fronteira.

Segundo o documento episcopal:“A soberania do Parlamento não é apenas um termo vazio, baseia-se em instituições que devem ser honradas e respeitadas: a nossa democracia está em perigo devido ao respeito displicente em relação a elas”.

Segundo o Religión Digital o arcebisto de Cantuária, Justin Welby, mostrou-se disponível para presidir a um fórum de cidadãos que aborde o Brexit sem prejuízo de ninguém em particular, de forma a dar eco a todas as vozes no debate actual: “Os pobres, os cidadãos da UE no Reino Unido e os cidadãos britânicos na Europa devem ser respeitados. A fronteira irlandesa não é um simples totem político e a paz na Irlanda não é uma bola que os ingleses possam pontapear: o respeito às preocupações de ambos os lados da fronteira é essencial”.

Regressei agora de Inglaterra e verifiquei que o ambiente neste momento é de grande inquietação, especialmente entre os mais vulneráveis da sociedade. Já vão faltando produtos alimentares nalguns supermercados. Há grande movimentação política. Na segunda-feira (16 de Setembro), os democratas-liberais realizaram uma conferência e defendem abertamente novo referendo. Boris Johnson foi a Bruxelas empatar, foi vaiado e nem se dignou falar aos jornalistas na conferência de imprensa conjunta, como é hábito. E no momento em que escrevo, espera-se o veredito do Supremo Tribunal sobre a saída sem acordo, já condenada por um tribunal da Escócia.

Mas a verdade é que os portugueses que vivem no Reino Unido estão igualmente aflitos e em estado de alerta, altamente preocupados com o seu futuro. É sabido que as crises económicas e sociais castigam sempre os mais pobres e socialmente mais frágeis.

O teólogo checo Tomás Halík diz que “o grande desafio com que o Cristianismo se vê hoje confrontado não é o da sua sobrevivência, mas o da sua relevância.” Se a Igreja de Cristo se alhear dos problemas das populações e calar a sua voz profética para pouco servirá. Por isso a Igreja Anglicana acabou de dar um bom exemplo ao país e ao mundo.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente

Evocação

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente novidade

A morte e a noite caíram sobre nós demasiado depressa com a notícia do falecimento de Pai Telmo. Os seus 100 anos foram um sopro veloz que não deixou ninguém indiferente e a sua dedicação à Igreja dos mais pobres uma brisa que suavizou muitas dores. [Texto de padre José Alfredo].

Identidade e missão do professor de EMRC na escola

Ensaio

Identidade e missão do professor de EMRC na escola novidade

A identidade e a missão do professor de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) na escola pode ser vista sob múltiplos pontos de vista; porém, desejo fazê-lo a partir de três palavras ou pilares que considero substanciais. Estruturo esta reflexão a partir do “habitar-se”, do “habitar com” e do “habitar o ainda não”. [Texto de Adriano Batista, intervenção no Simpósio sobre a Educação e Escola em Portugal].

As cápsulas

[Sete Partidas]

As cápsulas novidade

No radio do carro tocava um CD da Rosalía e comecei a pensar no que já me disseram sobre o meu carro, pequeno e velho, dito em várias variações. Não levo a mal. É verdade, mas tem tudo o que preciso. Abrigo do sol, do frio, da chuva e da neve. Confiável. Riscado e muitas vezes sujo por fora, mas por dentro limpo e arrumado. Um pouco na ordem como valorizo as coisas na vida. Menos ostentação, mais conteúdo. [Texto de Inês Patrício, Berlim].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.