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Byung-Chul Han - Prix Bristol des Lumières 2015. Foto @ ActuaLitté | Wikimedia Commons

[Arquipélago Jerusalém]

O budismo caviar

Vivemos em ilhas distantes entre si: mas de todas se avista Jerusalém

 

A indústria cultural devora os seus profetas com a voracidade de Saturno. Foi assim no São João, no Porto, no Babell – festival literário que soa a Torre de Babel revisitada pela Livraria Lello e onde Byung-Chul Han (ou Pyong-Chol Han ) protagonizou um episódio que merecia ser pintado por Hogarth, narrado por Camilo Castelo Branco, ou posto em filme por Wes Anderson.

Centenas de fiéis aguardavam-no para a conferência inaugural, com os livros em riste, no Jardim do Pensamento, obra de Siza Vieira e Sidónio Pardal. Atrasos, impaciência, vaias. Surge a apresentadora Catarina Furtado, que passa férias nas Ilhas Maurícias, a anunciar que haverá tradução simultânea em auscultadores. Protestos. Han entra em palco, pousa uma flor, e começa a falar em alemão. Vá lá; em coreano seria ainda mais difícil. Não se percebe bem por que razão não concede ao público falar em inglês, enfim, euroenglish. O público, que não tem paciência para o Hochdeutsch, revolta-se. 95 minutos de demora. Muitos abandonam indignados, como se descreve na reportagem das jornalistas Catarina Ferreira e Maria João Gala no JN.

Outros fazem fila pelos auscultadores. Um fiasco.

Que ironia! O profeta da Vita Contemplativa, o crítico da hiperatividade e da transparência totalitária, enredado num happening de má tradução e gestão caótica. O homem que escreve contra a positividade excessiva e a ditadura do like é vaiado por uma plateia que, momentos antes, se comportava como consumidora insatisfeita num drive-thru filosófico. Ou será drive-in? Eis o triunfo da indústria cultural: até a crítica à indústria cultural se torna mercadoria. Theodor Adorno, se vivesse, riria com o riso amargo de quem previu tudo isto em Dialética do Iluminismo. A indústria cultural não destrói o budismo; digere-o, empacota-o e vende-o.

Theodor W. Adorno.

Theodor W. Adorno: “O exotismo piegas de tais visões de mundo decorativas, como a assombrosamente consumível zen-budismo, lança luz sobre as atuais filosofias restauradoras. Tal como o Zen, elas simulam uma postura de pensamento que a história sedimentada em gente torna impossível assumir.” Foto: Direitos reservados

Theodor Adorno não tinha paciência para o budismo zen, ou budismo caviar. «O exotismo piegas de tais visões de mundo decorativas, como a assombrosamente consumível zen-budismo, lança luz sobre as atuais filosofias restauradoras. Tal como o Zen, elas simulam uma postura de pensamento que a história sedimentada em gente torna impossível assumir.»

Byung-Chul Han é um destes oráculos de bolso, embalado em capas minimalistas e vendido ao peso da epifania instantânea. O autor de A Sociedade do Cansaço apresenta-a como um breviário laico. Oferece-nos um diagnóstico piegas para o nosso tempo: “O sujeito de desempenho é vítima e carrasco”. Passámos da sociedade da disciplina, onde o Outro nos oprimia, para a sociedade do desempenho, onde nos tornamos algozes de nós mesmos. Belo, profundo, citável no Instagram entre um matcha latte e uma selfie de yoga. Mas pouco tem a ver com as grandes sabedorias orientais e ocidentais.

O Mundo Como Vontade e Representação

Quem primeiro introduziu no Ocidente a respeitabilidade filosófica do pensamento védico foi o alemão Arthur Schopenhauer em O Mundo Como Vontade e Representação, de 1824. Mas o que diz sobre a libertação das ilusões dos sentidos e da vontade tem uma grandeza e evoca uma adesão que pouco tem a ver com o autor sul-coreano radicado na Alemanha. Ah, o homem que diagnostica o burnout da sociedade enquanto enche auditórios com “o aroma do tempo” e o perfume da edição de luxo. Budismo caviar: uma sabedoria que promete libertar-nos da autoexploração, mas que, paradoxalmente, se explora a si mesma com mestria mercantil.

Han é autor de meditações sobre o esgotamento neuronal, a erosão do Outro, a perda da capacidade de dizer “não” – o famoso agitar do dedo dos sofistas a dizer não. Toca em feridas reais. A autoexploração disfarçada de liberdade, a depressão como patologia do excesso de positividade, o cansaço como sintoma civilizacional – tudo isso merece atenção. Mas há uma mediocridade subtil nas suas generalizações que soam profundas num ensaio de 70 páginas, mas que desbotam quando confrontadas com a vida. Críticos mais ácidos chamam-lhe “filósofo fast-food” ou “pop”. Talvez“estoico de Instagram”: um Séneca que twitta contra o ruído enquanto acumula seguidores.

O silêncio e o vazio de Han é ainda mais ensurdecedor sobre tudo o que é cristão – a vida eterna, aqui e agora, trazida pela salvação dos outros, a promessa para além do instante, a esperança para além do vazio; isso é uma maçada para o budismo caviar. Han desmonta com acuidade a sociedade do desempenho onde cada um carrega um campo de concentração interior, mas escapa-lhe por completo o papel da sociedade, das lutas, de duzentos anos das organizações de trabalhadores. O seu horizonte termina no indivíduo exausto, sem ponte para a solidariedade ou a acção contra os males que ele próprio denuncia como devoradores.

O budismo caviar é isto: é zen para quem pode pagar retiros em Bali, vazio para quem enche o LinkedIn de conquistas, contemplação para o gestor em burnout que lê Han no avião em classe business. Em vez da sabedoria milenar, a indústria cultural até o vazio transforma em personal brand. Han fala de ausência, de negatividade fecunda, de pausa. Mas o seu sucesso assenta na positividade da oferta: “Compre este livrinho e sinta-se menos vazio.”  Aos festejadores do São João no Babell, trouxe-lhes o budismo caviar, sem o peso redentor da história. O profeta do cansaço ofereceu mais um diagnóstico belo no estilo, mas coxo de conteúdo.

Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.

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