O caminho da vida

| 10 Jul 21

Aniversário

“Neste tempo cresce-se, idealmente, em tolerância para com o outro e em vontade de cada um alcançar a melhor versão de si.” Foto © Joanna Kosinska / Unsplash

 

Um destes dias estive na festa de 60 anos de uma amiga. Parece estranho – 60 anos. Para os mais novos é muita, muita idade. Para quem já lá chegou ou chegará em breve, é uma existência com esperança de que mais possa ser desfrutado numa boa condição.

Neste tempo faz-se uma revisão do já vivido e um propósito do que há a viver; neste tempo sonha-se sem limitações; neste tempo, com coragem e sem ridículos, determina-se a consciência da missão que se tem vindo a cumprir e do sentido da que quer continuar a cumprir-se; neste tempo emenda-se a mão dos erros cometidos e procura-se não voltar a cometer os mesmos, embora já se tenha atingido a capacidade de saber que é impossível fazer tudo certo; neste tempo cresce-se, idealmente, em tolerância para com o outro e em vontade de cada um alcançar a melhor versão de si.

Lembro-me quando ouvir dizer “fazer 60 anos” era um ruído distante, longínquo e perturbador que só atingiria os mais velhos, esses que haviam nascido imensas décadas atrás, e que se iam desatualizando, tal era a forma como pareciam descontextualizados naquilo a que podemos chamar a festa da vida.

Muitos desses começavam a queixar-se das manchas, das dores, das dificuldades de se movimentarem, das coisas boas que tinham deixado para trás e que já não fariam para diante.

Hoje, os que estão muito perto, vão olhando este tempo de forma nova. Vão interpretando as decisões que os ventos e marés do século XXI obrigam a tomar, seja em que idade for; vão apreciando a diversidade com que se pode percorrer esta etapa da existência chamada vida humana; vão sabendo diferenciar entre possível e desejável para as metas que pretendem alcançar.

Ser mais velho é só condição de ter vivido muito e isso é um dos privilégios de assim existir; “envelhecer é um processo extraordinário em que você se torna a pessoa que sempre deveria ter sido” (David Bowie); assumir a caminhada é recarregar as baterias para continuar a bem interpretar o que é lutar, verdadeiramente em busca de um sentido.

É, ainda assim, preciso evitar falácias. Há os que dizem que gostam das marcas da velhice, mas não, é quase impossível que assim seja. Ninguém prefere rugas em vez de pele lisa; ninguém prefere dor em vez de não sentir o corpo; ninguém prefere cansaço em vez de inesgotável energia; ninguém prefere ter projetos de curto e médio prazo, em vez de projetos longos.

Um sábio, cujo nome não consegui encontrar, disse mais ou menos isto: “Na vida é necessário ter, pelo menos, três coisas – a humildade de não se sentir superior a ninguém, a coragem para enfrentar (quase) todas as situações e a sabedoria para ficar quieto diante da estupidez de certas pessoas.

E, sim, esta é a bagagem que só a idade pode trazer. Não quer dizer que traga, mas é bem mais provável que assim aconteça. Na juventude, a ilusão de poder tudo tolda-nos o raciocínio. Mais tarde a consciência da nossa ignorância e a humildade de ter de continuar a aprender é o que faz dos homens entes conhecedores do que por cá andam a fazer.

Saramago dizia que nem os novos sabem o que podem nem os velhos podem o que sabem.

De facto, a maior inspiração dos que nasceram depois, traduzir-se-á, se assim quiserem, na consciência de que, não sendo eternos, terão com enorme probabilidade mais futuro do que passado; e por isso, se não desperdiçarem o seu ser e o seu existir, poderão contribuir de forma única para a edificação de uma sociedade mais humana, feita de boas intenções tornadas realidade.

Há uns anos chegou-me um texto, numa impressão tipo rascunho, que dizia ser de Mário de Andrade. Seria, certamente, a imaginar a escrita de alguém que teria atingido uma qualquer idade avançada e dizia assim:

“Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me aquele menino que recebeu uma bacia cheia de cerejas. As primeiras, ele cuspiu displicente, mas, percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando os seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturas. (…) As pessoas não debatem conteúdos. Apenas os rótulos. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos. Quero a essência. Minha alma tem pressa…

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana que sabe rir dos seus tropeços; não se encanta com triunfos; não se considera eleita antes da hora; não foge da sua imortalidade; quero caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.

O essencial faz a vida valer a pena.”

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.

 

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