O capelão ateu

| 29 Nov 2021

greg epstein capelao harvard foto FB

“O que é um capelão? Harvard possui um órgão chamado “Harvard Chaplains”, o qual congrega mais de 30 capelães de várias confissões religiosas e tem como objetivo servir as necessidades espirituais da comunidade académica de Harvard.” Foto: Greg Epstein, capelão de Harvard. Retirada do FB

 

Recentemente a Universidade de Harvard (EUA) elegeu um ateu para presidente dos capelães, pela primeira vez na sua já centenária história. Foi algo que chamou a atenção pela sua novidade. Um bispo americano que por vezes sigo nas redes sociais – Robert Barron – afirmou num artigo do New York Post que era incompreensível um painel de líderes religiosos nomear para uma representação religiosa alguém que não tem fé.

Por um lado, compreende-se a decisão, tendo em conta o mundo cada vez menos religioso em que vivemos. Por outro, interessa erradicar a religião do espaço público, mesmo que vivamos em sociedades laicas? Não é a religião também uma manifestação eminentemente humana e cultural? Ademais, os Estados Unidos da América ainda são maioritariamente um país com fortes crenças religiosas. Por exemplo, 63% dos adultos acredita em Deus com absoluta certeza e 53% considera a religião “muito importante”.

O que é um capelão? Harvard possui um órgão chamado “Harvard Chaplains”, o qual congrega mais de 30 capelães de várias confissões religiosas e tem como objetivo servir as necessidades espirituais da comunidade académica de Harvard.

Por um lado, se perguntarmos a qualquer jovem qual a sua opinião sobre esta decisão, mais provavelmente a maioria responderia: “Acho muito bem. A maioria dos jovens não se interessa pela religião. Para ser boa pessoa não é preciso acreditar em Deus.” Esta minha suposição vai ao encontro do que o próprio capelão eleito, Greg Epstein, afirmou ao New York Times, citado pelo bispo Barron: “Há um grupo crescente de pessoas que não se identificam mais com nenhuma tradição religiosa, mas ainda sentem uma necessidade real de conversação e apoio em torno do que significa ser um bom ser humano e viver uma vida ética.” Este é um facto indesmentível, aliás, comprovado pelos mais recentes estudos. Sociologicamente, as evidências apontam para um crescimento acentuado do número de pessoas que se estão a afastar da religião institucional, sem significar que abandonem preocupações éticas e espirituais.

O afastamento das instituições é compreensível, tendo em conta a crise geral com as mesmas, mesmo na política, e a dificuldade de assegurar legitimidades maioritárias. Na Igreja Católica o escândalo dos abusos sexuais e no islão o terrorismo não facilitam em nada a aproximação. Este individualismo não é novo, mas uma tendência já presente e crescente desde o pós-guerra do século XX. Desde o nascimento e desenvolvimento de sociedades de consumo, melhoria das condições de vida, emancipação da mulher, liberdade sexual, liberalização dos mercados, globalização, aumento da escolaridade e cultura, afirmava já Gilles Lipovetsky em O Crepúsculo do Dever. Este individualismo trouxe muitas coisas boas, é certo, mas também muitas interrogações.

A diferença desta procura individual em relação a uma ordem antiga é que dispensa a intermediação das igrejas e religiões e assiste-se a uma crescente “individualização da religião”. Este grupo de pessoas é chamado pelos estudiosos como “crentes sem religião”.

O problema aqui é que existe uma diferença entre uma pessoa que procura algo de espiritual e um indiferente ou, até, alguém que afirma veementemente que Deus não existe (pior, só mesmo alguém que dispense de todo a ética, mas acreditamos que é uma minoria).

Como afirmava o teólogo checo Tomáš Halík, “Aquilo que o ateísmo, o fundamentalismo religioso e o entusiasmo por uma fé demasiado fácil têm em comum é a rapidez com que se abstraem do mistério ao qual chamamos Deus – e é por isso que as três abordagens são para mim igualmente inaceitáveis” (Halík, T., Paciência com Deus – oportunidade para um encontro, 5ª ed., Paulinas, 2017, p. 16).

Quem afirma peremptoriamente que Deus não existe sem margem para dúvidas é equiparável ao crente fanático que também acha que a religião é um conjunto de preceitos e não há lugar para mistério e dúvida. No fundo, os extremos tocam-se.

E aqui cai a polémica de que fala o bispo Barron. A religião pressupõe mais do que a imposição de preceitos morais, mas a assunção de que Deus existe e de que se põe em relação com o homem. Dessa relação é que trata a religião, em última análise. Mais do que argumentos, factos; mais do que visões, um encontro e uma experiência que se constrói, caminhando. Depois, vem tudo o resto, incluindo a moral, mas não só.

Eu acrescentaria a seguinte questão ao que o bispo Barron afirmou: se não um ateu, pelo menos escolher um agnóstico para capelão? Pois ainda assim admite que possa existir Deus. E nesse sentido se pode colocar em busca, em interrogação ou em caminho de discernimento. Mas será que um agnóstico se coloca na posição de “buscador”? Não digo crente, mas buscador? Pelo menos interroga-se, interessa-se, investiga, procura viver segundo os ditames da sua consciência. Também há o agnosticismo que Lobo Antunes citava de Voltaire: “Cumprimentamo-nos, mas não nos falamos.” Não querendo julgar o agnosticismo de ninguém, será este agnosticismo do “buscador”? Aquela postura do “buscador”, como diz o teólogo checo Tomáš Halík, parece ser mais consonante com alguém que duvida mas, pelo menos, está em caminho, pergunta e procura respostas para as suas interrogações espirituais.

Ambos caem numa posição insustentável: tanto o ateu não pode dizer com certeza que Deus não existe como o crente não pode ufanar-se nas suas crenças como se não existisse mistério e luta interior na procura de uma verdade transcendental.

 

António Pimenta de Brito é professor universitário e investigador.

 

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