O cardeal e o padre: tratamento diferente para a mesma abertura à ordenação de mulheres

| 22 Set 2020

Cardeal Jean-Claude Hollerich. Luxemburgo

Cardeal Jean-Claude Hollerich, arcebispo do Luxemburgo. Foto: Wikipédia

 

“Estou aberto a essa possibilidade”. É com estas palavras que o arcebispo de Luxemburgo, cardeal Jean-Claude Hollerich, que é também presidente da Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia, se pronuncia sobre uma possível aprovação do sacerdócio feminino, em entrevista publicada no portal alemão Katholisch.de.

Referindo-se às “questões muito importantes” que estão a ser abordadas pela Igreja alemã, no seu Caminho Sinodal, Hollerich dá o exemplo daquela que considera mais importante: “a posição das mulheres na igreja”.

“Não digo que elas tenham de se tornar sacerdotisas; digo que não sei. Mas estou aberto a isso. Tem que se ter em conta que as mulheres têm voz ativa na igreja. É claro, porém, que a situação atual não chega”.

No mesmo dia, o presidente da Conferência Episcopal Alemã, o bispo Georg Bätzing reagia às declarações do arcebispo de Colónia, cardeal Rainer María Woelki, para quem a questão do diaconato feminino está já “encerrada”. Bätzing discorda: “O diaconato das mulheres é algo muito legítimo” e o debate sobre o mesmo é também uma parte importante do Caminho Sinodal que está a ser percorrido pela Igreja da Alemanha, sublinhou. “Já perdemos os trabalhadores, é difícil aproximarmo-nos dos jovens… Existe o risco de que a próxima reviravolta esteja eminente, porque muitas mulheres simplesmente vão deixar a Igreja”, alertou o bispo de Limburg.

A posição do arcebispo do Luxemburgo sobre o sacerdócio, vinda de um cardeal, já seria relevante. Acontece que Hollerich não é um cardeal qualquer, visto que desempenha também as funções de presidente da Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia.

E ganhou outro destaque quando, na semana passada, se tornou público que o padre irlandês Tony Flannery, 73 anos, que defendeu o sacerdócio feminino (e outros temas relacionados com a homossexualidade e o casamento entre pessoas do mesmo sexo) e, por isso, se encontra suspenso pelo Vaticano desde 2012, recebeu recentemente da Congregação da Doutrina da Fé um conjunto de exigências de caráter doutrinal, para que pudesse ir retomando o exercício do ministério. Além da submissão incondicional à doutrina oficial da Igreja, a Congregação exigia ainda que ele deixasse de se pronunciar publicamente sobre aquelas matérias, considerando que o P. Flannery não é teólogo nem se assume como tal.

Padre Tony Flannery

Padre Tony Flannery, silenciado pelo Vaticano por defender a ordenação de mulheres. Foto reproduzida da página do próprio no Twitter

 

O P. Flannery recusou assinar as proposições desse documento, explicando a atitude numa publicação que também disponibilizou no seu blog. Nele anuncia a publicação, em outubro próximo, de um livro em que procura fundamentar as suas posições e debater os modos de proceder da C0ongreação para a Doutrina da Fé. Título do livro: “From the Outside; Rethinking Church Doctrine” (A partir de fora: Repensar a doutrina da Igreja).

 

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