
“Feito cardeal em 2010 pelo Papa Bento XVI, depois da sua passagem pelo actual Dicastério para o Culto Divino, Ranjith, formado em Roma, conhece certamente a lei.” Foto: Cardeal Malcolm Ranjith. Página facebook oficial.
O cardeal Malcolm Ranjith, do Sri Lanka, tomou a iniciativa de manter as mulheres afastadas do altar. Em outubro passado, decretou que não haveria mulheres acólitas na sua arquidiocese.
Não importa que o Código de Direito Canónico de 1983 determine que qualquer leigo possa servir como leitor ou acólito. Não importa que, em 1994, a então Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos do Vaticano, que Ranjith chefiou de 2005 a 2009, tenha afirmado que “leigo” incluía mulheres. Não importa que em 2021 o Papa Francisco tenha alterado o direito canónico para incluir as mulheres como candidatas à instituição como acólitos.
O cardeal poliglota de 77 anos não quer saber disso. “Nenhuma menina deve ser convidada a servir no altar… devem ser sempre rapazes jovens.”
A razão? “Esta é uma das principais fontes de vocações para o sacerdócio.” Por algum motivo, o cardeal pensa que as mulheres acólitas vão reduzir as candidaturas ao seminário e é “um risco que não pode correr”.
Feito cardeal em 2010 pelo Papa Bento XVI, depois da sua passagem pelo actual Dicastério para o Culto Divino, Ranjith, formado em Roma, conhece certamente a lei. Sabe também que, como arcebispo, pode passar por cima dela. Defensor da missa em latim, defende que as pessoas devem receber a comunhão de joelhos e na língua.
Mas será que ele precisa de assim tantos padres?
Há cerca de 1,6 milhões de católicos em todo o Sri Lanka, o que representa cerca de 6% da população predominantemente budista, e parece haver um excesso de padres. Só na diocese de Ranjith há 30 padres diocesanos (mais de 10% do seu presbitério) a servir fora do país.
Deve haver outras razões por detrás da sua determinação em manter as mulheres e as meninas longe da vista e do sagrado. Para além da misoginia cultural enraizada, há sempre a memória herdada de que as mulheres são “impuras” devido à menstruação e ao parto.
Além disso, a mentalidade da mulher como propriedade, prevalecente em muitas partes do mundo, infecta algumas partes do Sudeste Asiático. No Sri Lanka, espera-se geralmente que as mulheres se tornem esposas e mães – menos de um terço tem emprego – e, apesar de haver uma secretária-geral mulher, apenas 10% dos membros do Parlamento são do sexo feminino.
A lei do Sri Lanka permite explicitamente a violação conjugal de meninas e mulheres com mais de 12 anos de idade, apesar de o direito da família fixar a idade mínima para o casamento em 18 anos. Uma defesa permitida contra outras acusações de violação é a de que a vítima “tinha um carácter geralmente imoral”, e as estatísticas recentes contam uma taxa de condenação excecionalmente baixa – cerca de 3,8% – em casos de violação.
Podemos apenas perguntar-nos se o cardeal Ranjith pensou nas implicações de não seguir as disposições do direito canónico que permitem que as mulheres e as meninas assistam ao altar, que estejam perto do sagrado. Será que ele não acredita que as meninas e as mulheres também são feitas à imagem e semelhança de Deus? Não acredita ele na igualdade batismal de todos?
Gisèle Pelicot, a mulher francesa cujo marido e outros 50 homens foram condenados após o seu julgamento pela infame violação com drogas em Avignon, fez um comentário sobre outras vítimas de violação que ela se sentiu compelida a representar. “Penso nas vítimas, não reconhecidas, cujas histórias permanecem muitas vezes escondidas”, disse. E continuou: “Tenho confiança na nossa capacidade de aproveitar colectivamente um futuro em que todos, mulheres e homens, possam viver em harmonia, com respeito e compreensão mútua.”
A opinião de Pelicot deveria levar Ranjith e aqueles que desejam anular a participação das mulheres em qualquer sociedade a fazer uma pausa. O respeito e a compreensão mútua parecem faltar na chancelaria da Arquidiocese de Colombo. Durante quanto tempo mais poderá uma cultura de anulação ser aceite ali, ou em qualquer parte da Igreja Católica?
Phyllis Zagano integrou a Comissão para o Estudo do Diaconado das Mulheres (2016-2018). É investigadora na Universidade de Hofstra, Hempstead, Nova Iorque, e o seu livro mais recente é Just Church: Catholic Social Teaching, Synodality, and Women (Paulist, 2023) [Igreja justa: ensino social católico, sinodalidade e mulheres]. Este texto foi inicialmente publicado no Religion News Service e é publicado em Portugal por cedência da autora e daquela publicação ao 7MARGENS.
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