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O Carter que dá cartas

| 20/11/2019

O Carter que dá cartas

by | 20 Nov 19 | Entre Margens, Últimas

Jimmy Carter foi Presidente dos Estados Unidos entre 1977 e 1981 mas é um caso à parte na política americana. Cristão convicto e comprometido, nunca utilizou a fé para fazer política, ao contrário do que é corrente nos Estados Unidos, onde a Modernidade chegou pela mão da religião, ao contrário da Europa, que escolheu a via do secularismo.

 

O homem tem quase cem anos mas ainda surpreende positivamente pela lucidez, coragem e coerência. Depois de mais de seis décadas de ligação à Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, tendo desempenhado cargos como diácono e professor de escola dominical, rompeu com a denominação religiosa devido à política discriminatória e misógina dos líderes religiosos.

Carter diz que foi uma decisão dolorosa e difícil mas inevitável “quando os líderes da Convenção, citando alguns versículos bíblicos cuidadosamente selecionados e reivindicando que Eva foi criada só depois de Adão e foi responsável pelo pecado original, determinaram que mulheres precisam ser ‘submissas’ a seus maridos e proibidas de servir como diaconisas, pastoras ou capelãs no serviço militar.” Carter recusa-se a aceitar a visão de que as mulheres são de algum modo inferiores aos homens e considera-a uma desculpa para negar às mulheres direitos iguais em todo o mundo, durante séculos a fio, seja qual for a cultura, crença ou religião.

Em carta aberta “Perdendo a minha religião em troca da igualdade”, Carter afirma que “a crença de que as mulheres precisam de estar subjugadas aos desejos dos homens legitima a escravatura, violência, prostituição forçada, mutilação genital e leis nacionais que não reconhecem a violação como crime”. Além disso também custa a milhões de meninas e mulheres o controlo sobre o seu corpo e a sua vida, e continua a negar-lhes acesso justo à educação, à saúde, ao emprego e à influência dentro das comunidades onde vivem. Essas crenças religiosas “ajudam a explicar por que em muitos países os rapazes têm precedência na educação sobre as meninas, ou porque as jovens não podem escolher com quem casar, e porque muitas enfrentam elevado risco na gravidez e no parto, o que é inaceitável, uma vez que as suas necessidades básicas de saúde não são atendidas.

A questão é que os textos bíblicos cuidadosamente selecionados para procurar justificar a superioridade masculina são datados, intrinsecamente ligados a culturas de matriz patriarcal, e revelam mais a determinação dos homens marcarem a sua influência e superioridade do que manifestam verdades eternas. Aliás, podemos encontrar igualmente textos bíblicos que suportam a escravatura e a aceitação tímida de governantes déspotas. Apesar de tudo, as mesmas Escrituras reverenciam mulheres como líderes eminentes. Na Igreja antiga elas serviam como diaconisas, apóstolas, mestres e profetas. Só no séc. IV os líderes dominantes cristãos, todos homens, resolveram distorcer as Escrituras para perpetuar posições ascendentes na hierarquia religiosa e fechar o caminho às mulheres.

Mas Carter utiliza um argumento surpreendente para apoiar a sua posição nesta matéria. Ele diz que o machismo prejudica toda a sociedade, inclusivamente os homens. “Uma mulher instruída tem filhos mais saudáveis e é mais propensa a enviá-los à escola. Tem rendimentos mais elevados e investe o que ganha na sua família”, pelo que “é profundamente prejudicial a qualquer comunidade discriminar metade de sua população.”

Em seu entender a discriminação, perseguição e abuso de mulheres no mundo não constitui apenas uma clara violação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas também dos ensinamentos de Jesus Cristo, do Apóstolo Paulo, de Moisés e dos profetas, de Maomé e dos fundadores de outras grandes religiões, as quais têm pugnado por um tratamento apropriado e equitativo a todos os filhos e filhas de Deus.

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Carter, que já sobreviveu a um cancro no cérebro e a outro no fígado, ouviu os médicos informarem-no há quatro anos que as células tumorais se tinham espalhado para o cérebro. Percebeu então que se sentia “absoluta e completamente à vontade com a morte. Como é natural, assumi que morreria muito rapidamente e obviamente orei. Não pedi a Deus que me deixasse viver mas pedi-lhe que me desse uma atitude adequada em relação à morte”.

Aos 95 anos de idade e hospitalizado há dias, este homem tornou-se há muito um exemplo inspirador. Foi um cristão praticante toda a vida, diácono e professor de Bíblia durante muitos anos, recebeu o Nobel da Paz em 2002, pelos seus “esforços infatigáveis” a favor da resolução pacífica de conflitos no mundo, e dedicou anos da sua vida à construção de casas para pobres, no Canadá e Estados Unidos, como voluntário na iniciativa Habitat for Humanity.

Carter reafirma ainda hoje que a fé continua a ser para ele uma fonte de vigor e conforto, como o são as crenças religiosas para centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Mas o que é notável no mais idoso ex-Presidente dos EUA é o seu inconformismo, apesar da idade. Quando muitos se acomodam ao establishment, ele resolve levantar a voz em nome das suas convicções, pois diz que já não precisa de se preocupar em ganhar votos ou evitar controvérsias e está profundamente comprometido em desafiar a injustiça onde quer que a veja.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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