O casamento em desuso?

| 8 Mai 2022

Noivos beijam-se após o casamento. Foto © JAN Pictures | Unsplash

O casamento enquanto sacramento eleva a doação total de um ao outro. Foto © JAN Pictures | Unsplash

 

No espaço de uma geração, muito mudou no modo como a sociedade encara o casamento. As estatísticas dos últimos anos dizem-nos que em Portugal mais de metade das crianças nasce de progenitores não casados (conviventes ou não). São cada vez mais os jovens que vivem juntos sem optar pelo casamento. Há quem reduza este ato a um dispensável procedimento burocrático (uma questão de “papéis”). Ou quem o associe necessariamente a uma festa que custa uma “pequena fortuna”.

Mas, mais do que isso, este fenómeno reflete a recusa ou o medo de escolhas definitivas. É verdade que a generalização do trabalho precário não facilita a opção por escolhas definitivas. Mas não é só essa a causa que explica o predomínio da cultura do provisório numa sociedade que tem sido caraterizada como sociedade “líquida”.

Também é verdade que há muitos que decidem casar depois de um período de convivência marital que sirva de experiência.

Toda esta profunda mudança social não deixa de refletir-se na própria Igreja Católica. Nesta vão ganhando cada vez mais protagonismo teses que pretendem quebrar a milenar doutrina moral que reserva a licitude da união sexual ao contexto do casamento. Essa limitação seria expressão de uma visão negativa da sexualidade, visão que deveria ser superada, pois a sexualidade é um dom de Deus. Dessas teses se faz eco o chamado Caminho Sinodal da Igreja alemã.

Mas é exatamente o contrário: é porque a união sexual tem, segundo os desígnios de Deus, um altíssimo valor que ela deve ser vivida no contexto do casamento. Muito mais do que a satisfação de um prazer mútuo, e mais do que expressão de um sentimento volátil, ela deve ser expressão de uma doação total, que envolve o corpo e a alma, o afeto e a vontade, o momento presente e os projetos futuros (é “assumir o destino do outro”, dizia São João Paulo II): amar o/a outro/a hoje que é jovem e atraente, mas também amanhã, quando envelhecer, estiver doente ou vierem mais em evidência os seus defeitos. O casamento é, pois, muito mais do que um papel ou uma cerimónia festiva. É expressão dessa doação total, incondicional e sem reservas. Só nesse contexto (certamente se for vivido com autenticidade) se afasta o perigo de uma maior ou menor instrumentalização egoísta do outro, sempre presente quando se colocam essas reservas ou condições, ou quando o outro é aceite apenas ainda a título experimental. É claro que tudo isto supõe a indissolubilidade do casamento.

Todas estas características próprias do vínculo conjugal natural ganham mais firmeza quando esse vínculo é elevado a sacramento, isto é, um sinal visível da união entre Jesus Cristo e a sua Igreja, entre Deus e a humanidade. Nada poderá dar mais valor à união sexual do que esta sua dimensão sacramental. Como pode falar-se a este respeito em visão negativa de sexualidade?

Nessa linha, de uma visão positiva da sexualidade segundo os desígnios de Deus, o mais rico e aprofundado património doutrinal católico está contido no conjunto de 129 catequeses de São João Paulo II sobre a “teologia do corpo” (um património que também está a ser contestado por teólogos que inspiram as conclusões do Caminho Sinodal alemão. Nessas catequeses se desenvolve a noção do significado esponsal do corpo, isto é, a sua capacidade de exprimir a doação e comunhão partindo da diferença e complementaridade do homem e da mulher (cujos corpos são desenhados um em função do outro, um para ser doado ao outro). Uma comunhão que se torna fecunda e geradora de novas vidas (o amor que gera a vida e a vida que é gerada pelo amor), também à imagem da fecundidade do amor de Deus. O amor é fecundo porque não se encerra em si mesmo, não se confunde com um “egoísmo a dois” e, por isso, se abre à vida e à comunidade.

A exortação apostólica Familiaris consortio, de São João Paulo II, explica bem (no seu n.º 11) a razão pela qual a união sexual deve ocorrer no contexto do matrimónio:

“Por consequência a sexualidade, mediante a qual o homem e a mulher se doam um ao outro com os atos próprios e exclusivos dos esposos, não é em absoluto algo puramente biológico, mas diz respeito ao núcleo íntimo da pessoa humana como tal. Esta realiza-se de maneira verdadeiramente humana, somente se é parte integral do amor com o qual homem e mulher se empenham totalmente um para com o outro até à morte. A doação física total seria falsa se não fosse sinal e fruto da doação pessoal total, na qual toda a pessoa, mesmo na sua dimensão temporal, está presente: se a pessoa se reservasse alguma coisa ou a possibilidade de decidir de modo diferente para o futuro, só por isto já não se doaria totalmente.

“Esta totalidade, pedida pelo amor conjugal, corresponde também às exigências de uma fecundidade responsável, que, orientada como está para a geração de um ser humano, supera, por sua própria natureza, a ordem puramente biológica, e abarca um conjunto de valores pessoais, para cujo crescimento harmonioso é necessário o estável e concorde contributo dos pais.

“O ‘lugar’ único, que torna possível esta doação segundo a sua verdade total, é o matrimónio, ou seja, o pacto de amor conjugal ou escolha consciente e livre, com a qual o homem e a mulher recebem a comunidade íntima de vida e de amor, querida pelo próprio Deus que só a esta luz manifesta o seu verdadeiro significado. A instituição matrimonial não é uma ingerência indevida da sociedade ou da autoridade, nem a imposição extrínseca de uma forma, mas uma exigência interior do pacto de amor conjugal que publicamente se afirma como único e exclusivo, para que seja vivida assim a plena fidelidade ao desígnio de Deus Criador. Longe de mortificar a liberdade da pessoa, esta fidelidade põe-na em segurança em relação ao subjetivismo e relativismo, fá-la participante da Sabedoria Criadora.”

Isto mesmo afirma, de outro modo, o Papa Francisco nas palavras que dirige aos jovens na exortação apostólica Amoris laetitia (n. 131 e 132):

“(…) o matrimónio supera qualquer moda passageira e persiste. A sua essência está radicada na própria natureza da pessoa humana e do seu carácter social. Implica uma série de obrigações; mas estas brotam do próprio amor, um amor tão decidido e generoso que é capaz de arriscar o futuro.

“Semelhante opção pelo matrimónio expressa a decisão real e efetiva de transformar dois caminhos num só, aconteça o que acontecer e contra todo e qualquer desafio. Pela seriedade de que se reveste este compromisso público de amor, não pode ser uma decisão precipitada; mas, pela mesma razão, também não pode ser adiado indefinidamente. Comprometer-se de forma exclusiva e definitiva com outrem sempre encerra uma parcela de risco e de aposta ousada. A recusa de assumir um tal compromisso é egoísta, interesseira, mesquinha; não consegue reconhecer os direitos do outro e não chega jamais a apresentá-lo à sociedade como digno de ser amado incondicionalmente. Aliás, aqueles que estão verdadeiramente enamorados tendem a manifestar aos outros o seu amor. O amor concretizado num matrimónio contraído diante dos outros, com todas as obrigações decorrentes dessa institucionalização, é manifestação e proteção dum “sim” que se dá sem reservas nem restrições. Este sim significa dizer ao outro que poderá sempre confiar, não será abandonado, se perder atrativo, se tiver dificuldades ou se se apresentarem novas possibilidades de prazer ou de interesses egoístas.”

Estes textos mostram bem que não está em causa um simples procedimento formal ou uma simples convenção social sujeita à erosão do tempo. Também não se trata de uma vocação a que seja chamado apenas um escol de pessoas seletas, particularmente maduras e bem formadas. Não, a doutrina moral católica, e também o direito canónico, sempre partiram do pressuposto de que a vocação ao casamento é aquela a que são chamadas as pessoas comuns. A união de facto não é, certamente, o desígnio de Deus para a maioria das pessoas.

Para muitos, o casamento é hoje, como disse atrás, uma etapa a que se chega depois de um período de convivência marital que serve de experiência. Convém referir, porém, que todos os estudos apontam no sentido de que tais períodos prévios de convivência marital não tornam os relacionamentos conjugais mais sólidos, isto é, que as separações e divórcios são nesses casos mais frequentes do que quando o casamento não é precedido dessa convivência marital. Penso que tal se verifica porque quando o casal começa por viver o seu relacionamento “à experiência”, habitua-se a isso e mais dificilmente supera essa fase e passa à fase da entrega incondicional, sem reservas e “para sempre”. Sem essa entrega total, é menor o incentivo para superar as inevitáveis dificuldades, mais facilmente se desiste, porque essas dificuldades serão vistas como o resultado de uma experiência que falhou, e não como um estímulo para crescer.

O casamento não pode cair em desuso, porque faz parte do desígnio de Deus sobre a pessoa e o seu bem, e sobre a sociedade e o bem comum.

 

Pedro Vaz Patto é presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz

 

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