Hoje busca-se resgatar a sua memória

O caso do seminário que abriu as portas à vida e ao mundo

| 31 Dez 2023

Seminário Padre Mateo, anos 70. Foto: Direitos reservados

 

Baltar, no município de Paredes, acolheu, nos anos 60 e 70 do século passado, o Seminário Padre Mateo*, criado e dirigido por religiosos holandeses, que foi, em muitos aspetos, igual a tantos congéneres, mas também em muitos aspetos distinto de todos os outros. Nos 60 anos do início das atividades dessa instituição de formação, o reencontro de muitas dezenas de estudantes que por lá passaram tem sido pretexto e oportunidade para resgatar essa memória e, ao mesmo tempo, colaborar com o projeto do centro cultural dedicado a Daniel Faria, em vias de concretização no edifício que albergou o Seminário.

O Seminário foi instituído pela Congregação dos Sagrados Corações (SS.CC.), cujo símbolo são dois corações intersectados, em referência a Jesus e Maria. A congregação foi fundada clandestinamente, numas águas-furtadas da Rua Picpus, em Paris, na noite de Natal de 1800. Ainda hoje essa Congregação, presente em várias dezenas de países, é conhecida como sendo dos padres de Picpus e carateriza-se por o ‘hábito’ (traje que os identifica) ser de cor branco- pérola. Os fundadores são dois e dois os ramos, o masculino e o feminino: Pierre Coudrin, que havia sido clandestinamente ordenado presbítero perto de dez anos antes, e uma religiosa de família nobre, de seu nome Henriette Aymer de la Chevalerie, que também já tinha sido presa por esconder padres da fúria persecutória da Revolução Francesa, no período conhecido como do Terror.

Em Portugal, entre outros locais, tiveram um papel relevante no Patriarcado de Lisboa, sobretudo no Seminário dos Olivais e em Santa Iria de Azóia, e fundaram, na Praia da Vitória, Açores, o Seminário Padre Damião. Pelo menos pelos padrões culturais e políticos dominantes em Portugal durante o salazarismo e marcelismo, eram, em geral, gente aberta, esclarecida, que assinava revistas para acompanhar o que se passava no mundo e que conheciam bem a questão colonial, sobretudo depois da eclosão da guerra pela independência, pelas missões que animavam pastoralmente em Moçambique (Marromeu, Inhaminga e outras). Vários dos padres acabariam expulsos pela PIDE-DGS, como aconteceu com o padre Bart Recker, dois colegas que paroquiavam numa aldeia de Couço, no Alentejo, ou o padre João Maria van den Hurk, este por simplesmente rezar pelas vítimas “dos dois lados” das guerras coloniais, no Dia Mundial da Paz de 1972, na portuense igreja românica de Cedofeita.

 

Fatos: preferiam-se “de cor alegre”

Vitral com o logotipo dos Padres dos Sagrados Corações na capela Den Bosch (Países Baixos). Imagem reproduzida da página da congregação.

 

Em Baltar, a cerca de 20 km do Porto, na direção de Vila Real, um grupo de padres, liderados por Francisco van Roy, foi instalar-se no velho palacete de um brasileiro de torna-viagem, devidamente complementado com uma capela. Os primeiros seminaristas compareceram no outono de 1963, oriundos de diversas partes do país.

Os padres usavam umas motos tipo lambreta e viajavam por diferentes partes sobretudo do Norte, de paróquia em paróquia ou entrando mesmo em salas de escolas primárias, a perguntar quem queria ir estudar para o seminário. Em alguns casos, o assunto ficava ali arrumado; noutros, havia lugar a uma entrevista posterior, a indagar dos motivos e a explicar as condições. Aos admitidos era deixada uma lista de enxoval em que um primeiro toque diferencial era o relativo ao fato: “prefere-se cor alegre”, dizia o prospeto.

A vida dentro da instituição, à primeira vista, era a de qualquer internato – passada entre aulas e estudo, oração e missa, desportos, passeios pelas redondezas e, mais espaçadamente, “passeios grandes”, sempre a pé. As condições económicas não eram as melhores e uma quinta anexa, que dava sobretudo milho e vinho e permitia criar animais, estava longe de chegar para dar alimento a tantas bocas. Muitos alunos – seguramente a esmagadora maioria – provinham de famílias pobres, da pequena agricultura de subsistência, muitos transmontanos, bastantes durienses e alguns minhotos e beirões. Benfeitores da região, mas sobretudo da Holanda deram relevante contributo para a subsistência dos seminaristas.

Os estudos eram orientados sobretudo pelos padres e um ou outro irmão leigo. Mas todos hoje reconhecem o papel que tiveram também, naqueles anos e com aqueles adolescentes, algumas professoras e professores de fora, que aliavam, à competência científico-pedagógica, uma qualidade de interação humana que foi, em várias circunstâncias, decisivamente equilibradora.

 

Os clubes, fonte de aprendizagens cívicas e humanísticas

Seminário de Baltar

Grupo de alunos do Seminário, num passeio. Foto: Direitos reservados

 

Perante as assimetrias de quem chegava, os responsáveis do Seminário criaram, pelo menos durante algum tempo, logo no início, um ano preparatório, que funcionava como homogeneizador e ajudava todos a adquirir hábitos de estudo e uma primeira familiarização com matérias novas. Porém, a grande inovação pedagógica terá sido o lançamento de clubes multidimensionais, protagonizados pelos próprios alunos. Cada clube tinha o seu nome e o seu regimento e todos tinham funções distribuídas pelos membros de cada grupo: coordenador ou diretor, tesoureiro, secretário, responsável por iniciativas artísticas (artes visuais, trabalhos manuais, teatro…) e desportivas. Por exemplo: os delegados desportivos dos vários clubes podiam reunir-se para organizar campeonatos de vários desportos, sobretudo andebol, voleibol, futebol e, mais tarde basquetebol. Um dos clubes tinha à sua responsabilidade a produção de um jornal de parede. Esta dinâmica não se prolongou por todos os anos, mas, para aqueles que a viveram, foi certamente, uma grande fonte de aprendizagens.

Quando se lançou a obra de construção de um novo edifício de três andares destinado a dormitórios e salão de estudos, nas traseiras do inicial, muitos dos alunos foram mobilizados para tarefas indiferenciadas, mas com a sua dureza (hoje seriam porventura consideradas trabalho infantil), como descarregar – em cadeia – camiões de tijolos e colocá-los nas placas dos vários andares, ou transportar carrelas de terra ou cimento e alguns chegaram a colaborar, mesmo em período de férias, como voluntários. Mas deve dizer-se que vários padres, a começar pelo reitor do seminário, participavam também. Chegou-se a estar na sala de estudos, ao romper do dia, e ver o reitor van Roy sozinho a trabalhar, em camisola interior, ainda antes de chegarem os operários da obra.

Claro que, pintado assim, o quadro corre o risco de sair mitificado, porque tantos adolescentes diferentes, fechados num edifício que, nos primeiros anos, se foi tornando apertado, obrigavam a uma disciplina que era sentida por vezes como sufocante. Rapidamente os padres decidiram, por exemplo, permitir que, pelo menos os seminaristas mais de perto pudessem ir passar os fins de semana com a família e os amigos de origem. E não é de espantar que se multiplicassem as táticas mais inventivas de subverter ou, ao menos, contornar, a ordem estabelecida. Estranho seria que isso não tivesse acontecido.

 

Trabalho com a comunidade: reciclagem e educação pré-escolar

Centro de Convívio do Centro Social e Paroquial da Penha de França (CSPPF), em Lisboa, da responsabilidade dos Padres dos Sagrados Corações.

 

Volta e meia, chegavam visitantes. Familiares, mas também benfeitores, família dos padres, o provincial, missionários de Moçambique… Houve sessões em que estes missionários, que trabalhavam em zonas que se haviam convertido em palco de guerra, contavam as condições em que exerciam o seu trabalho, em alguns casos desmentindo a informação oficial que era dada no Continente, ou, pelo menos, complementando-a.

Um aspeto que com o tempo adquiriu bastante significado, por iniciativa de um dos padres – que viria mais tarde a ser padre operário na zona de Valongo e na zona de Chelas – foi o trabalho na e com a comunidade. Um dos projetos foi a criação de um jardim infantil na freguesia, serviço que então não existia. Para angariação de recursos, foi montado um serviço de recolha de papel velho em casas comerciais da região, posteriormente selecionado por tipo e vendido a fábricas de reciclagem. Foi igualmente organizado um serviço de recolha de restos de corte de napa junto das indústrias de mobiliário que começavam então a florescer nos municípios de Paços de Ferreira, Paredes e Valongo. Desta napa, as mães das crianças do jardim, trabalhando num espaço comum, recortavam e cosiam almofadas, porta-lápis, sacos e outros produtos, os quais, depois de vendidos, permitiam pagar salários a quem se ocupava das crianças. Quando em Portugal ainda se falava pouco de reciclagem e menos ainda de educação pré-escolar, estas experiências que envolveram muitos seminaristas foram cruciais.

Outro sinal de abertura para horizontes mais amplos: em 1970, a Equipa Nacional da JEC (Juventude Escolar Católica) quis fazer o Conselho Nacional do movimento no Seminário Padre Mateo, antes do início do ano letivo. Os padres aceitaram de bom grado, mas puseram como requisito que uma dúzia de alunos seminaristas fossem aceites como participantes. Quem lá esteve recorda que foi um momento relevante pela reflexão havida sobre as movimentações estudantis em várias partes do país, pelo debate em torno de um padre que o episcopado pretendia impor à JEC contra a vontade do movimento. Lembrar-se-á também, sobretudo, da passagem, num momento dos trabalhos, do bispo do Porto, António Ferreira Gomes, pouco antes regressado de um exílio de quase dez anos.

O seminário acabou por encerrar as suas portas em 1974. A decisão, porém, estava tomada desde os inícios dos anos 70, como reconheceram os padres que estiveram na comunidade do Porto. A experiência que realizaram, com os alunos – no total, um número que não andará longe dos 200 – levou-os a não acreditar que recrutar crianças com 10 ou 11 anos já não seria o caminho para o futuro do ministério presbiteral. Esse era um debate que não se circunscrevia àquela congregação ou, sequer, a Portugal. Eles tiveram a ousadia de tomar a decisão. Que se saiba, nenhum dos alunos do Seminário Padre Mateo chegou a ser ordenado, com a exceção de um, que hoje, e desde há muito, desenvolve o seu trabalho pastoral em França, ligado à Congregação de Picpus. Desse ponto de vista “produtivista”, o projeto foi um falhanço quase total. Mas, se se considerar a frase atribuída ao padre João Maria van den Hurk, de que o mais importante seria que do Seminário saíssem homens bons e bem formados e que isso valeria mais do que padres fracos ou sem vocação, então a ideia de fracasso do projeto teria de ser revista.

 

Quando a memória do Seminário se cruza com o poeta Daniel Faria

O edifício do antigo palacete e antiga Escola Básica 2º e 3º Ciclo de Baltar vai ser reconvertido na “Casa-Museu” Daniel Faria e Centro Promocional da Literacia e Desenvolvimento Pessoal, uma homenagem ao poeta natural de Baltar. Foto reproduzida da página da Câmara Municipal de Paredes.

 

E aqui surge, meio século depois, um dado novo: apoiados na rede Whatsapp, um grupo de antigos estudantes de Baltar lançou em agosto último uma dinâmica de bola de neve, com o fito de fazer aquilo que até hoje não se tinha conseguido: reunir todos quantos passaram por aquele Seminário, descontando alguns que já faleceram, e resgatar a memória da experiência vivida. A bola de neve foi crescendo e começa a aproximar-se da centena – já não de adolescentes quase todos imberbes, que se desligaram uns dos outros nos finais dos anos 60 e princípios dos anos 70, mas homens feitos, vários já reformados, de cabelos brancos, espalhados pelos quatro cantos do país e por vários continentes. Enquanto preparam um encontro de dois dias, presencial, na zona de Baltar, para meados de 2024, estão também a reconstituir as suas memórias, partilhando recordações e avaliações, retomando velhas amizades e conhecimentos. Muitos fazem-no como gesto, e mesmo necessidade, de agradecimento, de tributo ao que foram os anos vividos em comum, com o que tiveram de bom e menos bom, mas que foram de crescimento.

Esse reencontro, tantos anos depois, foi também tempo de partilha da dor com que se via o velho palacete onde tudo começou, estar abandonado e a ameaçar ruína. E tempo de descoberta de que, depois de peripécias várias, a Câmara Municipal de Paredes acaba de lançar um projeto de restauro do edifício do qual irá sair um centro cultural que evocará uma das figuras que por lá passou: o poeta Daniel Faria, um dos nomes maiores da literatura portuguesa contemporânea, precocemente falecido [e evocado nesta domingo, 31, num documentário exibido na RTP 2].

Daniel Faria não foi nem podia ter sido aluno do Seminário Padre Mateo, mas, tendo nascido em Baltar, foi aluno da escola básica que lá funcionou durante alguns anos. De resto, a atual escola secundária de Baltar decidiu recordá-lo e reconhecê-lo dando-lhe o seu nome. Além disso, a mãe de Daniel, tal como uma tia, foram funcionárias do Seminário. E a Câmara pretende reconhecê-lo agora, com este projeto, já adjudicado, de ali criar aquilo que designou por Centro Promocional da Literacia e Desenvolvimento Pessoal – Poeta Daniel Faria.

Num edifício que albergou tão diversificado trabalho de formação de várias gerações de jovens locais e de vastas zonas do país, que hoje se estão a organizar, e com a colaboração da Câmara, vai ser possível resgatar também a memória de uma instituição que marcou não apenas os que a frequentaram, mas também a comunidade local que a acolheu. A ideia é criar no centro cultural evocativo de Daniel Faria um espaço que salvaguarde também outras memórias, incluindo o Seminário.

 

 (*) Declaração de interesse: o autor deste texto foi aluno do Seminário Padre Mateo e membro de uma pequena comunidade criada, depois, pela Congregação dos Sagrados Corações no Porto, sendo imensamente devedor da formação humana, cívica e religiosa, recebida nos anos decisivos em que esteve ligado a essa instituição.

 

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