A Comunidade Cristã da Serra do Pilar, em Gaia, está a celebrar os seus 50 anos. Uma exposição alusiva a essa efeméride está patente na Igreja do Mosteiro, onde a comunidade celebra. Mas para assinalar a data, a comunidade decidiu convidar vários antigos membros a fazerem homilias sobre diferentes dimensões da vida da comunidade. A primeira, que a seguir reproduzimos, foi feita por Paulo Melo, professor de História aposentado e membro do Metanoia, sobre a experiência do Catecumenato, que durante largos anos marcou a vida daquela comunidade; seguiu-se uma outra de um elemento da Igreja Lusitana do Torne (Comunhão Anglicana), sobre a experiência da relação ecuménica; e no dia 13, a de Margarida Ferreira, sobre a presidência leiga que assumiu a liderança quando o presbítero Arlindo Magalhães, responsável da comunidade, se ausentou para fazer o doutoramento. Também o maestro e compositor Fernando Lapa, acerca do lugar da música litúrgica e o arquiteto José Nobre, sobre a importância do espaço litúrgico, estão nesta lista. No dia 3 de novembro, o programa conclui-se com a eucaristia presidida pelo bispo do Porto, Manuel Linda.
Sobre a experiência da Comunidade da Serra do Pilar, o 7MARGENS publicou, por altura da morte do padre Arlindo Magalhães, testemunhos de Gabriel David, Margarida Ferreira, Joaquim Félix e Laura Marques.

Paulo Melo (o primeiro à direita, no centro), no dia em que teve a homilia a seu cargo: “Muito do que relembro procede diretamente do Catecumenato”. Foto: Direitos reservados.
Aqui na Comunidade Cristã da Serra do Pilar vivi, aprofundei e celebrei a fé durante cerca de 26 anos, entre 1976 e 2002. Nesta comunidade cresci como pessoa e como cristão.
Por isso, agradeço o convite que me fizeram para agora partilhar convosco quão importante foi para mim essa vivência comunitária, nomeadamente a dinâmica catecumenal.
Permitam-me que antes de nela me deter, recorde umas quantas dimensões da vida desta comunidade que foram para mim especialmente relevantes e que, aquando da morte do presbítero Arlindo Magalhães tive a intenção de publicar, o que por preguiça nunca cheguei a fazer.
Escrevia então:
“…na Comunidade Cristã da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia, adotámos como lema ‘Ter Rosto e Nome’, tendo como presbíteros Arlindo Magalhães e Leonel Oliveira e posteriormente José Maria Cabral Ferreira, já falecidos. Aí participei numa dinâmica de intensa vida comunitária no Catecumenato, enquanto catecúmeno e posteriormente como responsável pelo módulo de História da Igreja, na atenção aos sinais dos tempos, com um efetivo envolvimento e responsabilização dos seus membros nos desafios da evangelização. O cuidado posto na liturgia e no estudo e meditação da Bíblia contribuíram para iluminar a partir dos valores evangélicos os acontecimentos na nossa vida pessoal e coletiva, no respeito pela capacidade de discernimento de cada um.
Quando o Padre Arlindo se ausentou para concluir o seu doutoramento em Salamanca, a presidência da comunidade foi assumida por três leigos, sem prejuízo para a vida comunitária. Com alguma frequência eu e outros membros da comunidade fomos desafiados a fazer a homilia.”
A permanente atenção à vida, aos acontecimentos locais, nacionais, universais, aos sinais dos tempos, a sua leitura à luz dos valores evangélicos, contribuíam para uma vivência comunitária da fé que não se limitava a uma devoção individual tendo em vista a ‘salvação da alma’, antes se traduzia numa presença evangelizadora Igreja, Povo de Deus a caminho, procurando pôr em prática as palavras do Senhor “… eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” (João 10, 10)
A ação no bairro degradado da escarpa da Serra, o compromisso no Bairro da Sé, a campanha contra a abertura do comércio aos domingos, um encontro na garagem, num sábado à tarde, de contextualização histórica do conflito israelo-palestiniano que preparei com a minha amiga Céu Tostão são momentos que recordo deste cuidado em ter presentes as questões da Justiça e da Paz na vida da comunidade, era na formulação de então “destruir o templo e descer o monte”.
Acolher e partilhar: ter rosto e nome

Foto de arquivo com o padre Arlindo Magalhães a presidir à eucaristia na Comunidade da Serra do Pilar. Foto: Direitos reservados.
A preocupação com o acolhimento daqueles que, vindos de muitos lados, procuravam a Serra para celebrar a eucaristia é outra das características que relevo. Não eramos anónimos, tínhamos rosto e nome, partilhávamos alegrias e tristezas. Como companheiro de caminho mais velho, o presbítero Arlindo partilhava regularmente a refeição com membros da comunidade. O partir do pão eucarístico, gesto que Jesus escolheu para se tornar para sempre presente, era o culminar duma verdadeira vida partilhada, pelo menos assim o desejávamos.
Um núcleo significativo da comunidade vivia no território contíguo em Vila Nova de Gaia. Muitos outros, esse era e meu caso e o da minha família, vinham de territórios vizinhos por reconhecerem nesta comunidade uma outra maneira mais livre, mais comprometida, mais fraterna de viver a Fé. Pessoas de todas as condições sociais conviviam, contribuindo cada um com os seus dons para a vida em comum, sem discriminações.
O cuidado posto na música litúrgica, os concertos, as exposições, nomeadamente a dos 25 anos da Serra e de ordenação do Padre Arlindo, em cuja montagem colaborei, os passeios, as conferências e mesas redondas muito contribuíram para alargar os horizontes culturais dos membros da comunidade. Homem culto e inquieto, em diálogo com a pensamento e as artes contemporâneas, especialmente o cinema, Arlindo Magalhães sempre cuidou, com o envolvimento de muitos membros da comunidade, de promover um ambiente cultural variado e enriquecedor.
No que me diz respeito, não posso deixar de evocar a bênção do meu casamento com a Graça. Ambos divorciados, vimos o nosso casamento abençoado pelo presbítero e pelo padre José Maria Cabral Ferreira numa celebração já antes ocorrida em circunstâncias idênticas, o que comprova a sua ousadia pastoral, sem ficar refém de códigos incompatíveis com as vicissitudes das vidas: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. Assim, pois, o Filho do homem é Senhor até mesmo do sábado” (Marcos 2, 27-28).
E como fundamento o Catecumenato, uma vivência adulta da fé

Serra do Pilar: “O que vivi na Serra foi o que mais se aproxima do que intuo serem as primeiras comunidades cristãs”. Foto retirada do site da Comunidade da Serra do Pilar.
Muito do que relembro procede diretamente do Catecumenato, isto é, duma formação consistente na fé cristã na sua vertente católica, proposta a adultos a que muitos acorreram enquanto fundamento da vivência comunitária.
A dignificação dos sacramentos, não pagos, a começar pela eucaristia não banalizada em celebrações diárias, a consciência da Igreja como Povo de Deus a Caminho com a consequente igualdade entre todos os crentes, sem distinções hierárquicas, a atenção aos sinais dos tempos, com reconhecimento da autonomia das realidades terrenas, a vivência ecuménica regular, em especial com a Igreja do Torne, a prioridade aos mais pobres, tudo isto tem como fundamento o Catecumenato, uma vivência adulta da fé.
Era um caminho exigente, de quatro anos, com encontros semanais e pequenos grupos de oração. Não se tratava de doutrinação ou “pastilhas de informação”, mas de um consistente percurso de formação com guiões elaborados pelo presbítero em que se estudava a História da Salvação, os Sacramentos, a construção do Ano Litúrgico e a História da Igreja. Divididos em pequenos grupos tínhamos um tempo regular de oração que nos aproximava e ajudava a ser comunidade.
Fui catecúmeno. Faltou-me um ano em que trabalhei fora. Fui também formador no módulo de História da Igreja, seguindo sempre o guião estabelecido pelo presbítero.
O meu jeito, sempre imperfeito e à procura, de ser cristão, os meus conhecimentos sobre a Bíblia, a organização da Igreja Católica e a sua História procedem, em grande parte, do percurso que fiz enquanto catecúmeno e animador do Catecumenato na Serra do Pilar, bem como da participação em toda sua vida durante 26 anos.
Nem tudo é perfeito; as comunidades cristãs são constituídas por pessoas com virtudes e defeitos, onde, por vezes, sobrevêm conflitos e mal-entendidos que perturbam o sentido de pertença. Não cabe neste momento de celebração dos 50 anos da comunidade analisar as circunstâncias que me levaram a mim e a muitos outros membros a procurar outros caminhos. Espero que este meu testemunho possa contribuir para renovar a vida desta comunidade na fidelidade aos princípios que a fundamentam.
Celebro na Paróquia da Antas de que faço parte, sou associado do Metanoia – Movimento Católico de Profissionais e são experiências em que me empenho e dão sentido à minha vida, mas para mim, o que vivi na Serra foi o que mais se aproxima do que intuo serem as primeiras comunidades cristãs, animadas pela esperança do Reino anunciado e vivido por Jesus Cristo, mas também elas passaram por tensões e confrontos.
Paulo Melo é professor de História aposentado e membro do Metanoia. O texto corresponde à homilia na Serra do Pilar nos 50 anos da comunidade, na celebração de 29 de setembro de 2024.










