O celibato como afirmação do poder clerical

| 20 Abr 2023

Poder do Clero

“O clericalismo é, na verdade, um sistema de organização das religiões que visa separar os membros com direito ao uso do poder, dos membros que se encontram destituídos de tal direito.”  Gravura: Poder Clerical © Marco e Lachmann Anke / Pixabay

 

 

Deixemo-nos de rodeios. Não vale a pena procurar tapar o sol com a peneira. Serão tentativas inúteis de ocultação da verdade. Por mais que não o desejemos, a verdade é como o azeite, acaba sempre por flutuar sob o olhar atónito dos mais distraídos. A insistência milenar da Igreja ocidental (latina) no celibato obrigatório é uma forma de afirmação e consolidação do clericalismo.

Definamos clericalismo. Talvez muita gente considere que tal palavra se refere apenas ao abuso de poder por parte do clero. E, sem dúvida, também se refere a práticas ilegítimas e autocráticas de exercício do poder. No entanto, está longe de ser apenas isso. O clericalismo é, na verdade, um sistema de organização das religiões que visa separar os membros com direito ao uso do poder, dos membros que se encontram destituídos de tal direito. Uns mandam, os outros obedecem. Uns têm a função de definir regras, os outros têm o dever de as cumprir. Uns organizam a vida das comunidades como bem entendem a partir de critérios que eles próprios definem, aos outros cabe apenas ser subservientes e enquadrar-se na orgânica que lhes foi imposta, sem nunca lhes ter sido dada qualquer oportunidade para expor os seus pontos de vista. Uns arrogam-se o direito de falar em nome de Deus (suprema blasfémia!), atribuindo às suas palavras a própria autoridade divina, aos outros é pedido que escutem e cumpram as transcendentes diretivas que as autoridades competentes lhes transmitem. É evidente que uma tal situação conduz inevitavelmente ao abuso de poder. Sem contraditório, o poder torna-se despótico e autorreferencial. Não há espaço neste artigo para explicar como é que, em concreto, isso foi acontecendo ao longo dos séculos, mas qualquer volume honesto de história da Igreja clarificará o problema.

É preciso que tenhamos consciência de que não era assim no início do cristianismo. Não é preciso recuar sequer ao profeta galileu. As comunidades paulinas, por exemplo, embora tivessem um mentor (o próprio Paulo), não se organizavam em torno dele, mas em torno da vida concreta de entreajuda, oração e partilha. Nas comunidades paulinas não há clero! Ninguém tem o poder exclusivo e absoluto. Os serviços estão distribuídos pelos vários membros em função das suas aptidões (carismas) e não em função de alguma ordenação que os tenha elevado acima dos restantes membros e lhes houvesse conferido o poder incontestável de Deus.

Analisemos agora a questão do celibato sob a perspetiva do clericalismo. O celibato torna os celibatários que estão associados a uma função de poder qualitativamente diferentes (separados) dos restantes membros das comunidades cristãs. Essa diferença (de condição, de estatuto, de poder, de autoridade) confirma a sua posição de superioridade face aos restantes cristãos (leigos). O discurso oficial vai exatamente nesse sentido: aos leigos cabe ocupar-se das questões “temporais”, enquanto os celibatários estão libertos de tais preocupações para se dedicarem inteiramente às “coisas de Deus”. No fundo trata-se apenas disto: o clero exerce o poder no interior da Igreja, os leigos exercem-no apenas fora dos limites da Igreja (na família, na política, na economia). Aos leigos não é reconhecido qualquer direito de exercício do poder no interior da comunidade religiosa a que pertencem. E porque nada definem, são membros meramente passivos.

Num tempo em que a sexualidade era demonizada, ser celibatário era também erguer-se acima da simples condição humana, elevando-se aos píncaros da perfeição e da santidade, enquanto aos leigos, por força do exercício da relação sexual, eram apenas destinados os primeiros degraus dessa santidade de que estavam privados por inerência de estatuto. O celibato diviniza o indivíduo, torna-o “outro Cristo” (realidade a que os leigos não podem aspirar), conforma-o a Deus, afastando-o definitivamente do mundo “sujo e pecaminoso” em que os leigos se veem envolvidos. E é por via desta divinização que o celibato reforça simbolicamente o poder do clero.

Uma outra nota será também útil no contexto do tema que abordamos. A dicotomia Igreja-Mundo (reinterpretação da antítese sagrado-profano) foi uma constante ao longo da história da Igreja. Só com o Concílio Vaticano II se veio a esbater tão perversa oposição, descaradamente anticristã. O Concílio teve o mérito de garantir que o mundo seja interpretado não como terra do pecado e da ação demoníaca, mas como criação de Deus (“Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa”, Gen. 1, 31), lugar de revelação divina, espaço de relação com o transcendente onde o ser humano constrói a sua santidade, autoconstruindo a vida que lhe foi concedida. Porém, a antítese entre igreja e mundo, que durante séculos predominou, estava ao serviço do poder clerical, o qual era exercido não apenas sobre o poder político, mas também sobre os leigos no interior das comunidades eclesiais. A Igreja (leia-se “o clero”) tinha autoridade divina, muito superior à autoridade do mundo, era o lugar exclusivo de comunicação com o divino. Os poderes do mundo teriam, assim, de estar submetidos aos poderes “espirituais” (largamente politizados) do clero. Os cristãos leigos podiam dar-se por contentes com o facto de a Igreja lhes proporcionar o acesso aos bens divinos, sob a condição de obedecerem acriticamente a todas as diretivas institucionais, de jamais ousarem criticar a pertinência da doutrina emanada do magistério e absterem-se de intervir ativamente (como sujeitos e não como objetos) na vida interna da comunidade cristã. O celibato garantia ao clero a sua pertença à “Igreja” (instituição clerical) e o seu afastamento (meramente, mas poderosamente simbólico) do mundo.

Que fazer depois de tomarmos consciência dos mecanismos de poder por detrás do celibato? Urge, sem dúvida, eliminar a sua obrigatoriedade para o acesso à função de presbítero ou de bispo. Em vez de viverem separados do mundo a que realmente pertencem, os que exercem funções de coordenação das comunidades devem inserir-se na realidade quotidiana, sem medo de conspurcar as mãos. A sexualidade, vivida sob o signo do amor, nada tem de pecaminoso e não pode ser interpretada como um obstáculo ao caminho de perfeição espiritual do indivíduo. A possibilidade do casamento, pelo contrário, humaniza o presbítero e o bispo, inserindo-os definitivamente nas comunidades a que pertencem e de que se separaram por via do clericalismo estrutural. E com a sua plena inserção na vida comunitária, torna-se premente o repensamento do exercício do poder eclesial, ainda inaceitável e absurdamente concentrado nas mãos de poucos.

 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

 

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Estou na Calábria com vista para a Sicília e o vulcão Stromboli ao fundo. Reunião de Coordenadores das Redes Internacionais do Graal. Com uma amiga mexicana coordeno a Rede de Migrantes e Refugiados que abrange nada mais nada menos que 10 países, dos Estados Unidos, Canadá e México às Filipinas, passando por África e o sul da Europa. Escolhemos reunir numa propriedade de agroturismo ecológico (Pirapora), nas escarpas do mar Jónio, da antiga colonização grega. Na Antiguidade, o Mar Jónico foi uma importante via de comércio marítimo, principalmente entre a Grécia e o Sul da Itália.

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