O ciclo da vida

| 1 Set 19

É quase impossível ficar indiferente a uma gravidez, um nascimento, uma criança. Quem nunca sentiu o tempo parar quando tem nos braços um bebé adormecido? Ele parece conter em si toda a esperança e todas as possibilidades. Quando crescem, surpreendem-nos com perguntas que nunca imaginamos ou com respostas que contêm toda a verdade do mundo. Para um adulto, há algo de mágico no modo imediato e intenso como as crianças lidam com o mundo à sua volta. Afinal, a condição de adulto é a mediatidade – a de acumular, sucessivamente, juízos, pensamentos, sentimentos em relação a tudo o que nos rodeia. Ser adulto é viver constantemente pré-ocupado com as tarefas que se nos impõem, as ansiedades que carregamos, os medos que recorrentemente nos visitam.

Pareceu, por isso, magia a reação daquela criança de quatro anos que, perante a imagem de um leão a atacar uma gazela e a interjeição de pena expressa pelos adultos, disse: é o ciclo da vida. Com o tom de voz que os adultos tantas vezes usam para sossegar as crianças. Calma, não te atormentes, é o ciclo da vida. Esquecemo-lo recorrentemente porque, à medida que crescemos, vamos tentando afastar das nossas pré-ocupações a morte, esse fantasma que nos persegue continuamente. Angustia-nos e, por essa razão, não gostamos de pensar nela nem que nos seja relembrado que, a qualquer momento, geralmente incontrolável, tudo isto terminará.

Durante milhares de anos, os seres humanos arranjaram estratégias para lidar com a angústia da morte e do fim. Em especial, com a consciência da falta de sentido e de possibilidade de explicação – um tormento que não conseguimos evitar quando vivenciamos a morte, que é sempre na pessoa do outro mas que, ao mesmo tempo, se torna também uma experiência nossa. As religiões cumpriram genericamente esse papel, tecendo narrativas que procuravam dar um sentido ao fim, dissolvendo-o num processo de passagem ou de repetição. E, apesar da dor e do luto, a morte foi sendo assumida como um facto natural e positivo – somos chamados, recomeçaremos o ciclo, seremos recompensados.

Do mesmo modo, quando o tema da morte sobe à mesa filosófica não assume a angústia do fantasma temido. Martin Heidegger, um dos grandes e polémicos filósofos do século XX, expressou-o com a seguinte fórmula na sua análise do Ser e do ser humano: somos seres-para-a-morte. No sentido de que a temporalidade, essa consciência da finitude inevitável, constitui parte essencial do homem que é ser-no-mundo. A consciência da morte garante a consciência de existirmos, de sermos Dasein. É ela que dá forma às nossas possibilidades e ao projeto de vida que concretizamos a partir dessas possibilidades. Somos seres para a morte.

A modernidade, no entanto, reinventou o sentido da morte. Na ânsia de emancipação total, desde as tradições à biologia, a morte passou a ser progressivamente entendida como um limite inaceitável para este Ser que se fez sozinho e não aceita limites. Por essa razão, a ciência foi desenvolvendo estratégias crescentes para afastar ao máximo aquele momento. Eliminamos doenças, generalizamos prevenções, criamos medicamentos, suplementos, vitaminas e tratamentos variados que nos façam viver até mais tarde. No entanto, a morte continuou à espera e, simultaneamente, percebemos que mais tempo de vida não significa uma condição humana melhor: surgem autoimunidades, a incidência de cancro aumenta, a demência multiplica-se, a velhice é triste e solitária.

E como a angústia da morte se mantém, o início do século XXI assiste a uma nova vaga de ataque, agora com o casamento temeroso entre tecnologia e os valores da emancipação. A promessa dos novos líderes religiosos, que nascem na Silicon Valley, já não é a da narrativa que nos leva a aceitar a nossa condição mortal e encontrar, apesar disso, um sentido e um projeto e paz interior. Os novos sacerdotes, inebriados pela ideia de homem novo, procuram antes libertar o ser humano desse último obstáculo e, pelo caminho, transformar a imortalidade num negócio.

Equaciona-se o congelamento do corpo, a injeção de sangue novo, a transferência da nossa memória (o mesmo é dizer, da nossa identidade) para um aparelho digital. Há milhões de dólares investidos nas grandes empresas tecnológicas dos nossos dias para inventar a imortalidade. E muitos anseiam essa última emancipação, surpreendentemente sem temer o novo ser que resultará do ser que venceu a morte – e que o terá feito por ser escravo dos seus medos e das suas angústias. Mas há algo de assustador em tudo isto. É que, na ânsia de vencer o medo da morte, parecemos ter esquecido a lição mais infantil e, por isso, mais sábia de todas: é o ciclo da vida.

 

Patrícia Fernandes é Professora de Filosofia Política na Universidade da Beira Interior e na Universidade do Minho

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