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autores - Sérgio Dias Branco

[Entre Margens]

O cinema à luz da fé

| 03/12/2025

 

O discurso proferido pelo Papa Leão XIV na audiência de 15 de Novembro de 2025, “Encontro com o Mundo do Cinema”, oferece riquíssimas matérias para uma reflexão teológica. A Igreja, cuja missão é discernir os sinais dos tempos e acompanhar as formas contemporâneas de expressão do espírito humano, não pode permanecer indiferente ao cinema. Este constitui, no mundo moderno, uma forma artística universal que molda imaginários, desperta afectos e interroga o sentido da existência. Por isso, interessa à Igreja não apenas enquanto veículo cultural, mas enquanto espaço onde a condição humana se manifesta nas suas esperanças, angústias e buscas de transcendência. Leão XIV não vê o cinema apenas como entretenimento, mas como experiência simbólica e sacramental da condição humana — um lugar onde a graça pode ressoar e onde o mistério de Deus encontra novas possibilidades de ser intuído e acolhido.

Desde logo, Leão XIV afirma que o cinema é ainda “uma arte jovem, sonhadora e um pouco inquieta” e que “quando a lanterna mágica do cinema se acende no escuro, simultaneamente, inflama-se também o olhar da alma”. Esta evocação remete-nos para uma teologia da luz e da sombra, da presença invisível que se manifesta na arte. Uma analogia que, a partir dos textos bíblicos — por exemplo, João 1,5: “[a] Luz brilhou nas trevas”, sobre a vinda de Jesus Cristo, Verbo encarnado — sugere que o cinema pode funcionar como epifania: um meio pelo qual o mistério se inscreve no quotidiano.

Leão XIV. Cinema

Encontro de Leão XIV com o mundo do cinema: “a beleza não é apenas evasão, mas acima de tudo invocação”. Foto Vatican News

O Papa desenvolve a ideia de que o cinema não é simplesmente “um jogo de luzes e sombras, para divertir e impressionar”, mas “expressão da vontade de contemplar e compreender a vida, de narrar a sua grandeza e fragilidade, de interpretar a sua nostalgia de infinito”. Aqui, a linguagem remete para a teologia existencial: a fragilidade humana, a busca do absoluto, a abertura ao transcendente. O cinema torna-se, então, lugar de memória e de esperança — memória das origens da humanidade, reflexo das suas feridas, projecção da esperança de um horizonte mais largo do que o imediato.

No seu discurso, Leão XIV convoca todos os profissionais do cinema a assumirem a sua condição de “testemunhas de esperança, beleza e verdade”. Em termos teológicos, esta convocação adquire significado sacramental: no fazer cinematográfico há lugar para o testemunho — isto é, para tornar visível o invisível, para criar mundos que remetem para o outro, aquele cuja experiência quem vê o filme desconhece culturalmente e existencialmente. O cinema torna-se, nesse sentido, ministério simbólico, apontando para a dignidade humana, para a comunhão, para o rosto do outro e para a sua presença.

O pontífice destaca a capacidade do cinema de convidar cada membro do público “a voltar a si mesmo, a contemplar com novos olhos a complexidade da própria experiência, a rever o mundo como se fosse a primeira vez e a redescobrir neste exercício uma parte daquela esperança, sem a qual a nossa existência não é completa”. Esta é uma pedagogia da conversão: o espectador não é mero receptor passivo, mas é chamado a um alargamento do que vê e do modo como vê, a olhar para a sua própria vida com novos olhos, a experimentar um reencontro com o mistério da existência. Essa atitude remete-nos para a metanoia cristã — mudança de perspectiva, disponibilidade ao mistério, à alteridade e ao desconhecido. O cinema, assim pensado, adquire uma função teologal: inspira-nos para a contemplação, mas também para a acção.

Papa leão XIV. Cinema

O Dicastério para a Cultura e Educação, liderado por Tolentino Mendonça, organizou o encontro. Foto Vatican News/Getty Images

Leão XIV adverte ainda que o “grande cinema não explora a dor: acompanha-a, investiga-a”. Esta formulação tem implicações morais e espirituais profundas: a arte verdadeira acolhe a dor, dá-lhe voz, permite-lhe ganhar significado sem a instrumentalizar. Na tradição cristã, a dor do mundo — pecado, sofrimento, alienação — não é mero obstáculo, mas lugar privilegiado de encontro com o Ressuscitado. O cinema que se enraíza nessa dinâmica pode, portanto, revelar-se como veículo de compaixão e de reconciliação.

Finalmente, o Papa recorda que a criação cinematográfica é um “acto comunitário, uma obra coral em que ninguém basta a si mesmo”. Esta afirmação evoca a eclesiologia: a Igreja como Corpo Místico de Cristo, comunidade de dons, colaboração diversa em unidade. O cinema aparece assim como microcosmo da comunhão eclesial: vários ofícios, várias vozes, num projecto que ultrapassa o indivíduo e convoca o “nós”.

Em conclusão, o discurso de Leão XIV pode ser acolhido como convite à arte cinematográfica enquanto liturgia do quotidiano: reencontra-se a beleza, o eco do divino, a entrada no mistério. Para a comunidade de fé que deseja integrar cultura e espiritualidade, este convite propõe que o olhar sobre a arte — neste caso, especificamente sobre o cinema — se torne um acto de adoração, de contemplação e de serviço. Que possamos, por isso, ver no cinema não apenas imagens em movimento, mas deixar que nele se desvelem o Espírito que desperta o nosso olhar, o humano que se revela e a esperança que se faz filme.

 

Sérgio Dias Branco é professor de Estudos Fílmicos na Universidade de Coimbra e leigo dominicano.

 

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