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Jafar Panahi, cinema, Irão, Festival de Cinema de Berlim, Berlinale
Jafar Panahi no Festival de Cinema de Berlim, apresentando o seu filme "Foi Apenas um Acidente". Foto © Helena Araújo

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O cinema socialmente empenhado do iraniano Jafar Panahi

O momento mais especial deste ano no Festival de Cinema de Berlim foi, para mim, a sessão especial com o realizador iraniano Jafar Panahi, onde falou do seu mais recente filme, Foi Apenas um Acidente, e do poder das escolhas no acto de contar histórias. O que se segue são algumas citações de memória do que foi dito nessa sessão.

Scott Roxborough, jornalista do The Hollywood Reporter, apresentou o realizador e seguiu logo para a primeira pergunta, mas Jafar Panahi protestou e exigiu algum tempo para fazer uma introdução. Falou da situação no Irão e do sofrimento do povo iraniano. Contou que, por estes dias, as pessoas vão dançar e cantar nos cemitérios em memória dos que foram mortos. Pediu uma salva de palmas em homenagem às vítimas do regime.

Começou por esclarecer que não faz cinema politicamente empenhado, faz cinema socialmente empenhado. E explicou porquê: o cinema politicamente empenhado vive da divisão entre bons e maus, e os regimes ditatoriais impõem quem são uns e outros. No cinema politicamente empenhado, os bons são os que concordam com a minha posição, os maus são os que discordam. No cinema socialmente empenhado, não há pessoas puramente más ou puramente boas – o filme dá espaço para que cada um tenha a sua própria voz.

Respondendo à questão sobre o humor no filme Foi Apenas um Acidente, Jafar Panahi confessou que não era sua intenção. Simplesmente, o humor impôs-se no filme. No Irão, ninguém riria, porque a vida quotidiana das pessoas é mesmo assim. O anormal tornou-se normal. O inacreditável – o irracional – tornou-se racional. Fora do Irão, parece anedota. Mas não o é para os iranianos. Por exemplo, o público estado-unidense e canadiano riu imenso durante todo o filme. Na Ásia, as pessoas riram muito na cena em que levam a mulher ao hospital. O realizador não entendeu porque riam nesse momento, porque no Irão ninguém reagiria assim a estas cenas, uma vez que são escolhas com que todos se confrontam frequentemente. Deu um exemplo: na guerra dos doze dias (Irão–Israel, 2025), um míssil israelita deitou abaixo uma parede numa área prisional onde estavam presos políticos e estes aproveitaram para escapar. À saída, viram que o edifício ao lado também tinha sido atingido, mas os prisioneiros não podiam sair porque as celas estavam fechadas. Em vez de fugir para longe, foram ajudar os outros, tentando abrir as suas celas.

Scott Roxborough – Qual foi a sua motivação para fazer um filme tão explícito, desta vez?

Jafar Panahi – O realizador tem de avançar com a sociedade. Quando a sociedade muda, o cinema tem de mudar também. Por exemplo: a recusa das mulheres em cobrir a cabeça marcou um antes e um depois para o regime iraniano, e este filme tinha de reflectir isso. Um filme socialmente empenhado tem de acompanhar estas mudanças na sociedade. Aquela mulher com a cabeça descoberta pode parecer um panfleto mas, de facto, é o cinema a mostrar a realidade actual. Outro fenómeno impensável até há pouco: mulheres a praguejar. Há mais de quarenta anos que o regime dita às pessoas as ideias e os valores que devem ter. As pessoas estão fartas disto, e as mulheres começaram a dizer palavrões como acto de resistência. Os meus filmes têm de reflectir esse fenómeno, quer eu goste quer não goste.

Jafar Panahi, realizador do filme Foi Apenas um Acidente, durante o Festival de Cinema de Berlim, em 19 de Fevereiro de 2026, contando que, por esses dias, “as pessoas vão dançar e cantar nos cemitérios em memória dos que foram mortos” nas manifestações contra o regime.

Scott Roxborough – No final do filme, a perspectiva muda e o carrasco toma o lugar central durante mais de quinze minutos. Porquê?

Jafar Panahi – Durante mais de uma hora, o homem está fechado numa caixa. Falam sobre ele, mas não se vê. O cinema socialmente empenhado é sobre humanidade, sobre ver as pessoas como seres humanos. O cinema politicamente empenhado divide as pessoas em bons e maus. Os da minha ideologia são bons e os outros são todos maus. É um cinema que quer eliminar os maus. O problema é que remover esta peça, o “mau”, nos distrai do essencial: faz-nos esquecer o problema maior. Esta pessoa também tem o direito de falar – é uma questão de justiça social no cinema socialmente empenhado. Portanto, era preciso deixá-lo falar, ter a sua parte no filme. O problema são os detalhes, a justiça visual. Para mim, foi difícil criar um perfil do carrasco que fosse convincente. Como eu próprio só estive dois ou três meses na prisão com torturadores, para conseguir mais verdade naquela cena fui pedir informações e conselhos aos meus conhecidos que tinham sido presos políticos durante muito mais tempo. De facto, muito daquele filme são coisas que aconteceram realmente a pessoas que conheço.

 

Mais adiante, Jafar Panahi afirmou ainda: há dois tipos de realizadores no mundo: os que vão atrás da audiência e fazem o que esta quer, e os que fazem o que entendem, segundo o seu próprio gosto, confiando que a audiência irá atrás. Sem querer dizer qual é a forma correcta de ser realizador, digo apenas que cada um escolhe, e a partir daí sabe o que tem de fazer. Eu próprio, quando era estudante, fiz um filme para a televisão iraniana, com uma equipa excelente e equipamento muito bom. Mas, quando estava a editar, percebi que o filme era mau. Tudo muito bom do ponto de vista técnico, mas o filme não era “meu”. Apesar de ninguém me conhecer ainda, não queria ter o meu nome associado àquele trabalho. Um dia, fui ao laboratório e roubei os negativos. Foi nesse momento que descobri a que grupo de realizadores pertencia.

 

Scott Roxborough – Última pergunta: vai regressar ao Irão, apesar de saber que tem uma pena de prisão para cumprir?

Jafar Panahi – Quando soube que tinha uma sentença de prisão, a minha vontade foi voltar nesse preciso momento. Não o fiz, porque tenho estado a fazer a promoção do filme, e sinto que devo continuar por respeito à equipa que o fez. Mas o meu lugar é no Irão. Como realizador socialmente empenhado, estou com o meu povo. O meu trabalho e o meu cinema são para o povo do Irão – e eu voltarei, fiel a mim mesmo e àquilo em que acredito.

 

Helena Araújo é autora do blogue Dois Dedos de Conversa, onde uma versão deste texto (aqui ligeiramente  editada) foi inicialmente publicada.

 

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