O evangelista Lucas conta-nos o episódio singular do caminho para Emaús logo após a ressurreição de Jesus Cristo (Lucas 24:13-35). Importa refletir sobre a atitude de Jesus relativamente aos dois discípulos que estavam a caminho, quando se aproximou deles como um simples anónimo.

Andrea Mantegna (1431–1506), pormenor do retábulo de São Lucas, Pinacoteca di Brera, Milão. Foto @ Miguel Hermoso Cuesta | Wikimedia commons
Antes de mais percebe-se pelo texto que antes de falar, Jesus quis escutar (v17): “Que palavras são essas que, caminhando, trocais entre vós?” Hoje fala-se muito e escuta-se pouco. Estão os cristãos a escutar o mundo? Estão a ouvir “com ouvidos de ouvir” como diria Jesus? Estão realmente a inteirar-se das dúvidas do seu próximo?
Só que Jesus dispôs-se a escutar também com o coração: “e por que estais tristes?” Estão os cristãos a inteirar-se dos dramas, medos, ansiedades, angústias, mas também alegrias e aspirações das pessoas? Estamos nós a escutar as pessoas também com o coração, isto é, a praticar uma escuta ativa, que não se limita à comunicação verbal mas também ao não-verbal?
A verdade é que Jesus percebeu que além de tristes, aqueles discípulos também estavam frustrados (21): “E nós esperávamos que fosse ele o que remisse Israel; mas agora, sobre tudo isso, é já hoje o terceiro dia desde que essas coisas aconteceram.” A frustração dos discípulos de Emaús vinha de expectativas erradas. Eles contavam que o Nazareno fosse restaurar a independência de Israel, embora Ele tenha dito que o seu reino não era deste mundo. Estamos nós a tomar consciência das expectativas erradas que as pessoas põem na fé?
Mas, apesar de tudo, parece que subsistia uma esperança (22-24): “É verdade que também algumas mulheres dentre nós nos maravilharam, as quais de madrugada foram ao sepulcro;²³ E, não achando o seu corpo, voltaram, dizendo que também tinham visto uma visão de anjos, que dizem que ele vive. ²⁴ E alguns dos que estavam connosco foram ao sepulcro, e acharam ser assim como as mulheres haviam dito; porém, a ele não o viram.” Mesmo nos momentos mais difíceis vale a pena guardar a Esperança em Deus. Estamos nós a conseguir fazê-lo?
Assim, Jesus remeteu aqueles homens para a fé na Palavra (25): “Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! ²⁶ Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na sua glória? ²⁷ E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras.” Cremos nós mesmo na Palavra de Deus? Ou confundimos o que Deus diz com o que o homem diz?

“Importa refletir sobre a atitude de Jesus relativamente aos dois discípulos que estavam a caminho, quando se aproximou deles como um simples anónimo.” Detalhe de um ícone, escrito por Lisa Sigfridsson, com os discípulos de Emaús. Foto © Joaquim Félix
Emaús significa “riacho quente”. Pode parecer que a nossa caminhada é agradável, quentinha, aconchegante, mas o coração estar frio. Jesus não estava presente naquela caminhada, mas quando chegou, aqueceu os corações (32): “E disseram um para o outro: Porventura não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho, nos falava, e quando nos abria as Escrituras?” Se quando ouvimos a Palavra o nosso coração não arde, provavelmente sofremos duma cardiopatia espiritual!…
Reparemos no paradoxo dois discípulos: enquanto viam Jesus, não O viram. Quando já não O viam, reconheceram-no! Jesus não está no clarão, no trovão, na multidão, na gritaria. Está onde menos se espera… Algumas pessoas viajavam clandestinas nos navios de antigamente. Muitas vezes Jesus viaja clandestino no paquete da Humanidade. Jesus Cristo é o clandestino da vida humana. Não damos por Ele, mas Ele anda sempre connosco.
Mas a verdade é que sem o acolhimento do desconhecido nada acontece. Cléopas e o companheiro acolheram aquele desconhecido que se juntou a eles no caminho. Depois, quando partiu o pão Jesus revelou-se como o pão da vida. O pão que permite vivermos e termos esperança. Quando Jesus é o meu pão tudo muda!
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.
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