“Comédia Aulegrafia”, em Lisboa

O claustro da Graça dá vida à sátira da vida cortesã

| 19 Jul 2022

comedia aulegrafia julio martin Foto © Teatro Maizum

Uma sátira à vida cortesã, às suas intrigas, vícios, ociosidades e costumes. Foto © Teatro Maizum.

 

Parte do claustro do antigo Convento da Graça foi já objecto de restauro e serve agora de espaço cénico à Comédia Aulegrafia, que entre esta quarta, 20 de Julho, e o próximo domingo, 24, terá as suas últimas representações – naquela que é a sua primeira encenação pública moderna.

Este claustro, o convento e a igreja que ainda hoje dominam uma das colinas de Lisboa terão sido visitados por Jorge Ferreira de Vasconcelos (c. 1515/1525-1585), contemporâneo da edificação do Convento dos Agostinhos, na Graça. Nicolás António dizia dele que era “pessoa de grande educação e linguagem espirituosa”. E quer a Aulegrafia quer as duas outras comédias por ele escritas – a Comedia Eufrosina e a Comedia Ulysippo – “eram muito apreciadas pelos seus contemporâneos e por todos os que se deleitam em a doçura e encantos da língua portuguesa”.

“Apresentar a Comédia Aulegrafia no Claustro do Convento da Graça é uma coincidência feliz, por se tratar de uma obra coeva do nosso comediógrafo”, diz agora Silvina Pereira, encenadora do teatro Maizum, que leva à cena o espectáculo. “Este magnífico claustro renascentista, o mais perfeito exemplo de claustro serliano [segundo os conceitos da arquitectura greco-romana adoptada pelo arquitecto renascentista Sebastião Serlio] que existe em Lisboa, é uma obra atribuída a Isidoro de Almeida (c. 1510-c. 1580) e datada de 1564, segundo proposta do professor Rafael Moreira.”

Por isso, a encenadora fala em reencontros inesperados entre o teatro e a arquitectura, “que se cumprem após quase cinco séculos” e que permitem “deixar fluir a atracção secreta exercida entre coisas e lugares”.

E de que trata a Comédia Aulegrafia? Significando textualmente “escrita sobre o paço”, a acção da peça decorre na corte do Paço de Lisboa, no tempo de D. João III e da Rainha D. Catarina de Áustria. Comédia de costumes, a história é uma sátira à vida cortesã, às suas intrigas, vícios, ociosidades e costumes. Partindo das maquinações de Aulegrafia, a protagonista, contra o ciumento Grasidel de Abreu. Moços galantes, fidalgos, damas e donzelas, escudeiros pobres, criados, mulatos, cortesãos, castelhanos aventureiros e criados fanfarrões protagonizam uma história de amor e de mexericos.

Numa encenação em que a arquitectura é assumida pelo cenário, o claustro transforma-se no paço: das “janelas das varandas do paço vê-se o mundo para fora, e do terreiro do Paço se cobiça o mundo de dentro. A janela é tanto espaço físico quanto simbólico. E esse lugar emblemático é ocupado por Aulegrafia, a intriguista-mor”, resume a sinopse.

Neste ambiente, as personagens dão corpo, voz e forma ao ambiente intriguista, satírico e acutilante – a cena com o castelhano Agrimonte (Júlio Martin) é deveras hilariante e um dos momentos altos da peça. E será assim mais cinco dias, em Lisboa.

 

comedia aulegrafia julio martin Foto © Teatro Maizum

Agrimonte (Júlio Martin) num dos momentos altos da peça. Foto © Teatro Maizum.

 

 

Comédia Aulegrafia, de Jorge Ferreira de Vasconcelos
Teatro Maizum, encenação de Silvina Pereira
Claustro do Convento da Graça, Lisboa
De 21 a 24 de Julho, às 21h

 

Em paralelo, pode visitar-se uma exposição sobre o autor, no local (10-17h e antes do espectáculo); nesta quarta, 20, haverá uma conferência sobre a vida cortesã (Isabel Almeida) e as comédias de Jorge Ferreira de Vasconcelos (Silvina Pereira).

 

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