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Padre agarra num terço. Foto D-Keine
Muitas vezes, o carisma do abusador e a cumplicidade da instituição tornam impossível qualquer tentativa de denunciar os abusos. Foto © D-Keine

O complexo de Deus. Não invocarás o nome de Deus em vão (Êxodo 20, 7)

O agressor age acreditando ser ele próprio Deus ou alguém com ligação direta a Ele, e com capacidade para decidir sobre a vida dos outros. Todo o abuso na Igreja é espiritual e é cometido em nome de Deus, mesmo que isso não seja dito. Abusar de uma pessoa, seja qual for a forma de abuso, é invocar o nome de Deus em vão e, ao fazê-lo, abusa-se do próprio Deus. O que fazemos como povo de Deus, como esse povo de Deus em concreto?

 

Mais uma vez, as manchetes colocam diante dos nossos olhos a realidade monstruosa dos abusos na Igreja. Nem todos eles são sexuais, mas são igualmente prejudiciais. Há quem considere que se fala muito sobre os abusos. Outras pessoas acreditam que ainda há muito a ser revelado e que só o que é sabido e conhecido pode ser limpo e curado. Estamos perante uma eclesiopatia sem fim? Como povo de Deus, o que podemos fazer?

 

Casos reais*

A. Nasceu com uma doença óssea que limitava muito a sua vida. Nem o frio nem a humidade podiam fazer parte do seu dia a dia, porque os seus ossos sofriam muito e a dor se agravava. Ganhava a vida a costurar roupa para uma loja de crianças. Era simpática e vivia a sua situação com normalidade porque, como dizia, “há quem esteja pior!”.

Alguém de uma associação, movimento ou obra – não importa, porque costumam responder ao mesmo padrão de comportamento – reparou nela porque ia com amigas a alguns dos encontros que eram organizados, confiante em receber conselhos para ser uma pessoa melhor. Só de olhar para ela, percebia-se a sua saúde frágil e adivinhava-se que não tinha dinheiro de sobra. O que viram em A.? Talvez alguém que “colaborasse” na manutenção dos lençóis, toalhas de mesa e outros artigos têxteis numa residência de estudantes, feminina, claro?

A. trabalhava em casa, uma casa modesta num bairro operário da sua cidade. No inverno, dois aquecedores a gás butano garantiam que não passasse frio para aliviar os seus ossos doentes.

A questão é que, quando começou o assédio da associação, movimento ou obra, prometeram-lhe e ofereceram-lhe a salvação eterna em troca da sua liberdade. Evidentemente, não lhe disseram isso diretamente, foram fazendo isso aos poucos. Chamavam-na sempre a um apartamento onde as perguntas e ordens se misturavam subtilmente – no início – para, aos poucos, se tornarem mais diretas. Um belo dia, em pleno inverno, uma das mulheres que já fazia parte da associação, movimento ou obra, chamou-a ao apartamento e, durante a conversa, disse-lhe que seria melhor não acender os fogões a gás butano em casa enquanto trabalhava, para assim se santificar, porque muito mais não poderia fazer. Enquanto essa mulher a aconselhava sobre como santificar-se para ganhar o céu, A. percebeu que atrás da poltrona de onde essa questionável samaritana lhe falava havia um radiador que ia de um lado ao outro da parede e aquecia, com folga, toda a sala.

A. não atendeu mais convites para conversas, não foi a nenhum dos encontros que organizavam, mas teve de aguentar durante vários meses que outras mulheres aparecessem em sua casa sem avisar para tentar convencê-la a voltar aos encontros… A. cortou toda a relação e, claro, continuou a acender os fogões a gás butano em sua casa. Teve muita sorte por não ter sido apanhada.

 

B. Com o curso concluído e um futuro brilhante pela frente, B. decide entrar na vida monástica. Era uma pessoa muito equilibrada, que não dava um passo sem pensar nas consequências.

Depois do Natal, e após alguns encontros com o prior, bateu à porta do mosteiro com a intenção de viver ali para sempre. Estava sozinho. Não havia mais ninguém a iniciar esse processo. Começou a sua formação e desde logo ficou surpreendido com algumas palavras, proibições… Tentou falar com algum monge jovem, mas não encontrou respostas, antes evasivas. Pouco depois, chegou outro jovem. B. pensou que, sendo dois, as coisas seriam diferentes.

Como era a sua primeira experiência de vida monástica, não quis ficar obcecado, mas, com o passar do tempo, compreendeu que não se tratava de obsessões. Tratava-se, antes, de uma realidade que nunca esperara encontrar. O seu colega recém-chegado logo percebeu o mesmo que B. Tornaram-se confidentes.

Enquanto continuava o seu período de formação, observou comportamentos muito estranhos. O prior e um irmão – sempre o mesmo – não paravam de viajar com mil desculpas diferentes e em carros que mudavam frequentemente, sem dar explicações sobre nada; o vinho corria mais do que o devido nas refeições e jantares e, sobretudo, nas eternas conversas que se lhes seguiam, em que o horário não existia e onde outras bebidas alcoólicas também estavam presentes. Começou a receber orientações que restringiam a sua liberdade nos seus momentos de direção espiritual. Não podia ler determinados livros; os seus estudos teológicos deviam seguir a única linha traçada pelo prior; o seu tempo de trabalho comunitário excedia em muito o estabelecido. Sentia-se subjugado por um poder que abusava e condicionava a sua consciência.

Essas conversas intermináveis à mesa não eram do agrado de B. porque, entre o vinho e as bebidas alcoólicas abundantes que cobriam as mesas, havia sempre alguém que desviava a conversa para temas que não pareciam apropriados. Mas o que ele nunca esperava que acontecesse, aconteceu um dia. Num domingo, numa dessas conversas após o jantar, os diretores espirituais, bem regados a vinho e licores, começaram a contar as confidências que os dois jovens, B. e o seu colega, lhes tinham feito naqueles tempos tão sensíveis. Aconteceu nesse dia e noutros mais.

Sentiram-se expostos, como se a sua alma tivesse sido desnudada e cada confidência traída fosse como um chicote. No dia seguinte, o prior tentou minimizar o que tinha acontecido, aludindo à confiança que deve existir na vida em comunidade. B. compreendeu que o que tinha acontecido no dia anterior e o que acontecia habitualmente respondia a um padrão que eles assumiam. Como é que ele viu isso? Porque ninguém se surpreendeu. Apenas ele e o seu colega ficaram horrorizados.

Tentou denunciar o que se passava ali, mas… Escutamos as suas palavras:

“Foi um verdadeiro calvário, parecia que era eu que tinha de provar o que me tinha acontecido, como se fosse capaz daquela barbaridade. Obrigaram-me a ter conversas que eu nem sequer queria ter e com pessoas que, na realidade, não sabia que papel desempenhavam nesse processo e sem interesse. Perguntavam-me as mesmas coisas repetidamente, semearam a dúvida o tempo todo, mudando o que eu tinha dito na entrevista anterior. Emocionalmente, foi exaustivo. Era hora de decidir: continuar a sofrer em silêncio e à espera de alguma reação por parte daqueles que provocavam essa situação, ou sair e abandonar a vida que eu queria viver.”

Disse apenas ao seu colega que ia deixar aquela vida. Três dias depois, abandonou o mosteiro pela mesma porta que tinha atravessado quase dois anos e meio antes. Foi difícil reconstruir a sua vida porque o tratamento sofrido tinha marcado o seu íntimo. Aos poucos, e após um tratamento psicológico que o ajudou a superar o que tinha vivido, começou a reviver longe de toda a vida religiosa.

O seu colega suicidou-se alguns meses depois de B. ter partido. Claro que a versão do mosteiro foi que ele tinha sofrido um acidente enquanto trabalhava na horta.

Jovem deprimido, solidão, desespero. Foto Motortion

“Emocionalmente, foi exaustivo. Era hora de decidir: continuar a sofrer em silêncio, ou sair e abandonar a vida que eu queria viver.” Foto © Motortion

C. e D. Filhos de uma família daquilo a que chamamos classe média-alta. Excelente educação, parte dela no estrangeiro. C., com o curso concluído, trabalha e está a preparar o seu casamento para daqui a um ano. D., prestes a terminar a universidade. Crentes? Bem, como muitos jovens são agora, mais espirituais do que praticantes, no sentido em que continuamos a entender o que é ser praticante.

D. comenta um dia em casa que um amigo lhe sugeriu ir a um retiro de fim de semana organizado por uma paróquia, onde terão uma pessoa dedicada a cada um deles e momentos com pessoas mais ou menos da mesma idade. Os pais ficam surpreendidos, mas também não dão muita importância ao assunto. C. está sozinha nesse fim de semana e diz que o acompanhará para experimentar.

Desde que regressam, D. começa a faltar às aulas porque tem de seguir um programa que lhe foi indicado para centrar a sua vida. C. também começa a frequentar um local onde há um projeto para casais cristãos, que também acolhe casais que se preparam para o matrimónio.

Cada um deles vai duas vezes por semana falar com a pessoa que lhes foi atribuída. D. termina o curso e decide não viajar com os seus amigos como tinha previsto. Sempre fora um rapaz aberto, comunicativo e, aos poucos, começa a dar sinais de se tornar introvertido. C., também aos poucos, começa a perder o entusiasmo em relação ao casamento. Matriculou-se num mestrado sobre a família, como lhe foi indicado pela pessoa com quem fala duas vezes por semana. Os pais ficam cada vez mais preocupados ao ver as mudanças nos filhos. Tentam conversar com eles. Com D., é impossível. C., lentamente, confessa aos pais que pediu mais tempo ao namorado e que, por enquanto, vai adiar os preparativos do casamento, mas não diz os motivos. Continua a sair com ele, mas, a cada dia, parece mais deprimida e evasiva.

Um belo dia, D. diz aos pais que vai morar com outros jovens numa comunidade do movimento que conhece há mais de um ano. Literalmente desaparece. Não visita nem liga para os pais, nem para a irmã.

Num determinado momento, C. diz que o namorado a deixou e que ela está bem. Ele procurava o mesmo que todos os homens e isso não se enquadra no projeto de um casamento cristão. Não volta a falar sobre o assunto. Chegados a este ponto, os pais começam a investigar o que é esse projeto que tanto mudou C.. As suspeitas confirmam-se. As pessoas que fazem parte desse projeto têm uma visão doentia e suja da sexualidade, mesmo dentro do casamento. A manipulação está presente de forma muito subtil.

Continuam a observar C. e conversam com aquele que ainda consideram seu namorado, numa tentativa de saber mais sobre a situação de C.. O namorado diz-lhes que C. decidiu que, no seu casamento, a sexualidade teria apenas um fim e que as relações só poderiam ocorrer nos dias apropriados para conceber filhos. Nem uma mínima concessão à intimidade para enriquecer o casal, nem um mínimo de erotismo como prelúdio ao encontro sexual, porque isso não era de Deus. Ele não podia aceitar isso porque era totalmente o contrário do que sempre tinham falado.

Os pais estão desolados porque a situação familiar, com os dois filhos de tal forma manipulados, ressente-se. Não nos esqueçamos de que estas situações têm um impacto nas famílias.

Uma amiga de C. casa-se e convida-a para o casamento. Nem os pais sabem o que aconteceu nesse dia. Provavelmente C. também não. A questão é que, alguns dias depois, C. diz que não quer voltar a estar com as pessoas do projeto, mas tem medo de dizer isso nas reuniões que eles têm, e mais ainda agora, que já tinham começado com algumas catequeses que lhe eram difíceis de compreender sobre o corpo humano, porque ela não entendia que o corpo pudesse ser algo tão mau. Os pais dela estão atentos e apoiam-na.

Por fim, reúne coragem suficiente e comunica isso aos responsáveis do grupo onde está. E começam as pressões do grupo. Todo o grupo age como agressor, o que revitimiza C. a cada instante. De tal forma que ela repensa a sua decisão porque, se isso acontece dentro, o que poderá acontecer fora, onde ninguém sabe o que realmente se passa? Apesar de tudo, C. conseguiu ter a força necessária para sair e saiu.

Escutamos a sua voz:

“Se me tratavam assim dentro, como poderia dar o difícil passo de sair do anonimato, cheia de medos, receios e vergonha por me ter deixado manipular e abusar dessa forma e contar isso fora? (…) Descobri que era vítima, mas, ao mesmo tempo, pensava que era cúmplice e sentia um grande nojo de mim mesma. Tanto quanto o que sentia pelo meu corpo e por qualquer ato que pudesse dar-me prazer. Como puderam fazer-me acreditar que o meu corpo era, em si mesmo, pecado? Como conseguiram manipular a minha mente para me fazer acreditar nisso? Estou, aos poucos, a reaprender a compreender que o toque é proximidade e que as carícias fazem parte da linguagem do amor humano.”

Agora está a receber tratamento psicológico. Lentamente, está a recuperar a sanidade mental que lhe roubaram na associação e a tirar da cabeça as ideias que lá lhe meteram. Está a recuperar o respeito e o amor pelo seu corpo e a redescobrir que a sexualidade não é algo mau, nem pecaminoso.

A situação do seu irmão D. está a ser mais lenta, embora tenha sido denunciada ao bispado correspondente. E é mais complicada porque o grupo em que ele está não é uma associação, nem um movimento, nem uma congregação… Tanto ela como os seus pais sabem que recuperar D. será praticamente impossível, mesmo que ele consiga sair de lá.

Casal a dar as mãos. Foto Min An Pexels

“Agora, está a recuperar o respeito e o amor pelo seu corpo e a redescobrir que a sexualidade não é algo mau, nem pecaminoso.” Foto © Min An/Pexels

E. Chegada do Quénia aos trinta e cinco anos, licenciada em sociologia e mestre em filosofia – ou seja, com uma mente muito bem formada – e tendo trabalhado numa escola, descobrira a vocação religiosa pouco a pouco com a ajuda do pároco da sua paróquia. Este encaminhara-a para as irmãs das quais era capelão, disse-lhe para falar com elas e que ele mesmo a apresentaria. Ela assim fez e, alguns meses depois, embarcava num avião com destino à Europa, feliz por ir realizar a sua vocação.

A recepção foi acolhedora e, nos primeiros dias, acompanharam-na a conhecer a cidade onde acabara de chegar. Ficou surpreendida por, nessas saídas, ninguém lhe ter dito para regularizar a sua situação, uma vez que continuava a ser estrangeira e, no mínimo, iria precisar de uma autorização de residência. Quando já lá estava há uma semana, ocorreu-lhe levantar a questão da necessidade de tratar da sua situação legal. Disseram-lhe para não se preocupar, que havia pessoas que se ocupavam disso.

Passaram-se dois meses em que o tratamento amável da chegada mudou e, diante de qualquer pergunta que E. fazia, a resposta era: “Não és obediente, não queres ser santa, tens a certeza de que tens vocação?” Ela não entendia isso, mas não prestou atenção. Um dia, ao arrumar o quarto, não encontrou o passaporte e perguntou se as pessoas que estavam a tratar da sua situação no país o tinham. Responderam-lhe que sim, que já estava tudo resolvido e que o passaporte estava guardado pela superiora por motivos de segurança.

Foi aí que E. ficou alarmada e falou com o seu diretor espiritual, contando-lhe a sua situação. A partir desse momento, sem que ela percebesse, começou todo um processo de abuso espiritual e de consciência que levou ao abuso sexual. Sim, uma mulher intelectualmente bem formada, psicologicamente centrada, foi vítima de um abusador clássico e de uma superiora cúmplice do mesmo.

Hoje, E. lembra-se das humilhações a que foi submetida. Na sala de jantar, diante de toda a comunidade, a superiora perguntava-lhe se, no seu país, além do macaco, se comia outra carne; se ela agradecia bastante a Deus por ter água corrente no seu quarto, já que no seu país não tinham descoberto as torneiras; se as mulheres quenianas tinham a menstruação da mesma forma que as europeias… Chegou a pensar que isso acontecia para que aprendesse a humildade.

Escutemos a sua voz:

“Em algumas ocasiões, perguntei à superiora sobre a razão de não poder contradizê-la. Ela respondia: isso não é próprio de ti, tens de rezar mais e com mais intensidade. Ela também me dizia para ver que as outras irmãs não diziam nada e para não me queixar, pois tinha muita sorte (…). Até que aconteceu, ele era uma pessoa de absoluta confiança para mim. Era o meu diretor espiritual e eu tinha-lhe contado coisas que não me atrevia a contar a ninguém. A minha cabeça dizia-me que aquilo não estava a acontecer; embora ele abusasse de mim quando queria, eu negava, porque ele não podia estar a abusar de mim (…). Até que recuperei uma espécie de lucidez e quis perguntar, com muito medo, a uma irmã jovem da comunidade.

Então tive a certeza de que era verdade, porque ela reagiu insultando-me e fechando fileiras em torno do abusador, chegando a dizer que era eu quem o provocava, porque ele era um santo… Que isso era porque eu não tinha moral, porque era africana. Naquele momento, compreendi que estava sozinha e descobri o que é a solidão profunda, aquela que causa medo, que faz virar a cabeça sempre que se ouve um barulho no corredor. Eu já não fazia parte da comunidade, nem mesmo para me humilhar.”

Enchendo-se de toda a coragem que conseguiu, E. comunicou que ia embora e que precisava do passaporte e dos documentos que lhe haviam sido retirados. Foram dias cheios de insultos e reprovações por parte da superiora, em que nada conseguiu.

Continuamos a ouvir a sua voz.

“Havia muitos dias em que pensava no suicídio, mas não queria suicidar-me entre as paredes daquela prisão, nem com aquelas mulheres que tinham sido tudo menos irmãs para mim (…) A imensa solidão, o sofrimento, levavam-me a um suicídio que via como a minha única salvação… (…) Tudo o que aconteceu não indica que era uma comunidade doente e corrupta?”

Uma manhã, ao descer para a missa, simplesmente saiu pela porta da cozinha e foi-se embora. Literalmente com o que tinha vestido. Sem passaporte nem qualquer documento que comprovasse quem ela era. Naquela noite, dormiu na rua, e na seguinte, e na seguinte. Foi comer a uma sopa dos pobres e, sem dizer de onde vinha, perguntou a uma das assistentes como poderia recuperar a sua documentação perdida. A assistente era uma religiosa que reconheceu os sintomas de algo que já tinha visto várias vezes. Falou com ela.

Foi acolhida naquela congregação e recebeu ajuda psicológica e jurídica para conseguir um passaporte e legalizar a sua situação. Ajudaram-na até com a queixa que apresentou contra o diretor espiritual e a superiora [1].

Já se passaram alguns anos e E. vive a dar aulas particulares de inglês. Está a terminar a faculdade de teologia e faz parte da equipa de acolhimento de vítimas na congregação que a ajudou. Não quer pertencer a nenhuma congregação religiosa, mas quer ajudar a curar essa forma de vida na Igreja. [2]

Freiras caminham pela rua. Foto TerryJ

A recepção foi acolhedora e, nos primeiros dias, acompanharam-na a conhecer a cidade onde acabara de chegar. Mas rapidamente tudo mudou. Foto © TerryJ

F. Religioso numa comunidade em que, como a maioria hoje, há uma grande diferença de idades. Ele é o mais jovem e é o superior. Um dos membros não sabe deixar o poder que teve com um cargo do qual acabou de se demitir. Esta realidade coloca um problema grave na vida religiosa, pois ninguém é preparado para os cargos e também ninguém é preparado para deixar os cargos. O que é o mais perigoso, pois dá origem a muitos abusos de poder.

Escutamos a voz de F:

“Ele criou um ambiente insuportável. Se eu o confrontar, corro o risco de dividir a comunidade. Se não o fizer, ele acaba por agir como superior e dar ordens, porque é o seu estilo (…). Sempre tivemos liberdade para agir, tendo em conta a vida comunitária, mas com alguma margem de manobra. Agora, é impossível jantar com alguém, ir à apresentação de um livro, a uma conferência… Tudo tem de passar por ele, que é o único que decide e, claro, sem contar com ninguém. Está a provocar o caos na comunidade e, a mim, que sou o superior, anula-me completamente (…)

Sinto que não existo, completamente anulado porque, quando partilho isto com alguém da congregação, como solução a única coisa que ouço é: ‘Tem paciência, ele vai habituar-se. Tudo menos criar problemas na comunidade. É o que te cabe viver. A oração vai ajudar-te. É a tua cruz.’ Não sei o que fazer. Às vezes, ele até me humilha nas reuniões da comunidade ou nas refeições. Não me tornei religioso para isso…”

Esta situação gera muito desgaste em toda a comunidade, mesmo que não se deem conta ou não queiram dar conta, mas, acima de tudo, para F., que vive uma autêntica situação de abuso de poder. A solução não é fácil, porque se esse indivíduo for transferido para outra comunidade, levará o problema consigo, já que ele é o problema. Mas, se nada for feito, o conflito crescerá e ninguém sabe onde e quando poderá explodir, porque são abusos normalizados.

O uso de maus-tratos verbais que conduzem a maus-tratos emocionais, e a simultaneidade desses abusos, são a tempestade perfeita na vida de uma pessoa. F. não tem uma vida fácil e esse desgaste constante, essa tensão diária, essa falta de ajuda da congregação vai cobrar o seu preço mais cedo ou mais tarde.

 

As instituições totais

Janela de convento. Foto Cecilia Bisbal

“Não se deve viver com medo. Não se pode viver com medo. Assim não se vive, nem se sobrevive, apenas se vê os dias passar desde o vazio.” Foto © Cecilia Bisbal

Todos os casos que acabámos de ver, embora muito diferentes em intensidade, podem causar os mesmos traumas e um grande sofrimento àqueles que os sofrem. A, B, C (um pouco menos), D, E e F vivem ou viveram no que o sociólogo Erving Goffman definiu como “instituições totais”. O que são instituições totais? São aquelas que isolam os seus membros, controlam as suas atividades diárias, têm uma rotina rígida, uma autoridade hierárquica inquestionável e não há separação entre os espaços que são partilhados diariamente: trabalho, vida pessoal, descanso. Tudo isso é feito sob a supervisão de alguém a quem é atribuída uma função que implica poder.

São consideradas instituições totais os manicómios, quartéis, prisões, conventos e mosteiros, navios mercantes, comunidades religiosas, seminários, estações de pesquisa… O maior perigo está no facto de que as pessoas que vivem e convivem nesses locais terem a sua identidade social anterior apagada, para que adquiram uma nova identidade grupal que, como vimos em alguns casos, pretende modificar até mesmo o eu, a própria pessoa. Tudo isso a partir do abuso de poder.

Mas, alguém poderá perguntar: como considerar uma instituição total um mosteiro, convento, comunidade religiosa, seminário, se a entrada é voluntária? É muito simples, e não digo que isso aconteça sempre, mas sim que existe um clima propício para que isso aconteça porque, “embora a entrada e a permanência sejam voluntárias, pode ocorrer uma grave contaminação quando os superiores manipulam a consciência daqueles que lá vivem – ainda mais se forem recém-chegados – que a abrem em coerência com a vocação que os levou a procurar essa vida. Uma abertura de consciência que não se dá em outras instituições, mas sim naquelas de tipo religioso”. [3]

Manipular e exercer a colonização emocional [4] é extremamente fácil quando as pessoas que estão à frente exercem um poder despótico e sabem manejar a inteligência emocional de modo a identificar os pontos por onde manobrar de modo a conduzirem a pessoa aonde querem.

Seria interessante que soubéssemos evoluir nas instituições eclesiais, para podermos sair da lista de “instituições totais”. Isso significaria que evoluímos muito, e para melhor, nas relações humanas tão necessárias para corrigir essa eclesiopatia persistente que são os abusos e que tanto sofrimento causa. É uma questão de todos. Uma questão de querer.

Não é humano consentir que haja pessoas cujo pensamento seja o nojo que a vida lhes causa, sentir que a sua vida não tem sentido, acreditar que merecem o que lhes acontece, o desejo de se suicidarem. Não podemos esquecer que os abusos, sejam eles quais forem, cometidos por pessoas com ascendente e moral dentro da Igreja, provocam um sofrimento indescritível.

Não se deve viver com medo. Não se pode viver com medo. Assim não se vive, nem se sobrevive, apenas se vê os dias passar desde o vazio. Não podemos permitir isso.

 

Que não se saiba porque é um dos nossos

Monge reza o terço, silêncio. Foto The Palmer

“Voltamos aos tempos – ou talvez nunca tenhamos saído deles – do ocultamento a qualquer preço, mesmo que seja à custa da vida da vítima em algumas ocasiões.” Foto © The Palmer

Os casos relatados poderiam ser as notas preliminares para escrever um romance, mas o que vimos foram as experiências de algumas pessoas entre muitas que sofreram os mais diversos abusos. Cada vítima é uma pessoa sagrada a quem devemos prestar atenção, ouvir, ajudar, acompanhar e, acima de tudo, acreditar. Acreditar acima de tudo. E, quando todas as vítimas se juntam, o que vemos é um padrão de comportamento que, ainda hoje, a estrutura eclesial que temos permite que aconteça.

No entanto, por mais estranho e doloroso que pareça, há dioceses onde a máxima, quando se descobre um possível caso de um dos seus padres, é “que isto não venha a público porque é um dos nossos”. Trata-se de uma perversão absoluta porque voltamos aos tempos – ou talvez nunca tenhamos saído deles – do ocultamento a qualquer preço, mesmo que seja à custa da vida da vítima em algumas ocasiões. O mais triste é que se considere o abusador como “um dos nossos” e não se tenha em conta as vítimas. Que vítima pode sentir-se com ânimo para denunciar perante este panorama? Que credibilidade pode pretender ter a Igreja particular onde isso acontece? De quem pode sair essa ordem na diocese ou quem permite que se diga? É claro que também seria necessário perguntar: quanto está a ser ocultado numa diocese onde se segue essa máxima?

Ocultar não adianta nada, porque a verdade acaba por vir à tona. Uma das lições que estamos a aprender no âmbito eclesial, muito mais lentamente do que deveríamos, é que a negação só serve para ampliar o problema e causar ainda mais danos às vítimas. O Papa Francisco repetiu isso em várias ocasiões.

 

Precisamos de permissão para tudo? Onde está o sensus fidei?

Jean-Paul Sartre dizia que o homem tende a contar a sua vida mais do que a vivê-la. Ele vê tudo através do que conta e pretende viver a sua vida como se fosse uma história. Mas temos de escolher entre viver a nossa vida ou contá-la.

Há pessoas que não conseguem viver a sua vida, nem contar a vida que os outros as fazem viver. É preciso muito tempo – e nem todos o conseguem – para poder agarrar com mãos trémulas o leme da sua vida e rumar a um porto seguro. Por vezes, o farol que indica o porto seguro também não é garantia de navegar por um mar calmo.

Está mais do que provado que a realidade dos abusos é universal e estrutural. Os primeiros casos em Boston, Irlanda, Austrália e Chile foram o prelúdio do que temos agora, em toda a parte, nas suas formas mais variadas, através da teia de aranha que se cria a partir do abuso de poder. Embora haja continentes inteiros que se recusam a admitir os abusos no seu território, estes existem e acabarão por vir à luz. Como em toda a parte.

Desta situação, ainda negada por muitas pessoas dentro da Igreja, só se pode sair como comunhão, não como instituição. Ou seja, envolvendo-nos todos como responsáveis. Se é importante aperfeiçoar as leis canónicas que temos, é igualmente ou mais importante tomar consciência como povo de Deus. O que posso fazer perante esta realidade? Como posso envolver-me se, por vezes, nem sabemos que há casos de abusos nas dioceses ou numa congregação, movimento, associação ou obra? É verdade que isto acontece, mas, se olharmos friamente, é como uma pescada de rabo na boca e, em muitas ocasiões, não sabemos o que se passa porque, na realidade, não nos esforçamos para saber o que se passa.

O Documento Final do Sínodo da Sinodalidade, nos seus números 95-102, fala de transparência, prestação de contas e avaliação. A situação dos abusos em cada diocese entra plenamente na transparência, na prestação de contas e na avaliação. E temos o direito e a obrigação moral de perguntar e de nos interessar porque, na dinâmica abusiva, o silêncio é a ferramenta mais importante para que o abuso cresça. O nosso silêncio ao não perguntarmos e ao não nos interessarmos torna-nos cúmplices, pois permitimos que o facto continue a ser ocultado e até negado. Isto, longe de ser “apenas” silêncio, faz com que a brecha na credibilidade da Igreja se torne maior e mais profunda. Escusado será dizer que, além disso, revitimizam as vítimas repetidamente.

Papa Francisco lê discurso de conclusão da assembleia do Sínodo dos Bispos, 26 outubro 2024. Foto Vatican Media

Papa Francisco lê o discurso de conclusão da assembleia do Sínodo dos Bispos. “O Documento Final, nos seus números 95-102, fala de transparência, prestação de contas e avaliação.” Foto © Vatican Media

Falar e aprofundar o sensus fidei não é falar e aprofundar uma expressão latina cujo significado ninguém sabe, mas sim descobrir o que nos convida e compromete. O sensus fidei compromete-nos, entre outras coisas, na missão profética da Igreja e, neste momento, vendo que os abusos, em vez de desaparecerem, estão a tornar-se mais presentes e mais enraizados na Igreja, devemos envolver-nos na sua denúncia.

Por trás dos abusos há uma ideologia perversa que destrói a pessoa, privando-a da liberdade que Deus lhe deu e submetendo-a a um estado de submissão contrário ao evangelho. Nos casos de abuso de poder, ocorre que a vítima esteja ciente de sofrer esse abuso desde o início, mas, por várias circunstâncias, não possa denunciá-lo. Muitas vezes, o carisma do abusador e a cumplicidade da instituição tornam impossível qualquer tentativa de informar quem deveria intervir na situação e, além disso, trazem consequências muito negativas para a vítima.

Mas – dizem algumas pessoas, e com razão – se tentarmos falar com o pároco, o vigário da zona, o chanceler, o vigário-geral ou o bispo e eles não nos derem ouvidos… Então, precisamos de permissão para tudo? Não, não precisamos de permissão para tudo, porque devemos agir como adultos na fé. Podemos recorrer a outras instâncias como povo de Deus. A nunciatura ou o dicastério correspondente podem receber não uma denúncia, mas um relato do que está a acontecer. Sempre assinado, é claro. Assim, pelo menos, eles saberão. Na falta de resposta, sempre restam os meios de comunicação. O que faríamos sem eles!

Porque, em alguns casos, o facto de as vítimas poderem sair de onde estão presas e viver a sua vida e contar a sua história, vai depender de que levemos a sério esse sensus fidei que nos convida e compromete na missão profética da Igreja.

Francisco, na Carta ao povo de Deus peregrino no Chile, diz: “A cultura do abuso e do encobrimento é incompatível com a lógica do Evangelho, pois a salvação oferecida por Cristo é sempre uma oferta, um dom que reclama e exige a liberdade […] Convido todos os centros de formação religiosa, faculdades teológicas, institutos terciários, seminários, casas de formação e de espiritualidade a promover uma reflexão teológica que seja capaz de estar à altura do tempo presente, promover uma fé madura, adulta e que assuma o húmus vital do Povo de Deus com as suas buscas e questionamentos. E assim, então, promover comunidades capazes de lutar contra situações abusivas, comunidades onde a partilha, a discussão, a confrontação sejam bem-vindas. Seremos fecundos na medida em que potenciarmos comunidades abertas a partir do seu interior e assim se libertarem de pensamentos fechados e autorreferenciais, cheios de promessas e miragens que prometem vida, mas que, em última análise, favorecem a cultura do abuso.”

Todo o povo de Deus, e sublinho, todo o povo de Deus precisa, ainda hoje, de sensibilizar-se para a realidade dos abusos. E fazê-lo abordando-a com a ajuda das ciências humanas, porque não é apenas uma questão teológico-moral. Por isso, agora que podemos e devemos fazer propostas nas assembleias diocesanas – esperemos que as haja em todas as dioceses –, por que não pedir uma formação, igual para todos, para todo o povo de Deus, que nos ajude a compreender o contexto da crise dos abusos e a importância de não deixar de falar sobre eles?

Sejamos profetas! As vítimas, sempre as primeiras, esperam a nossa ajuda. Depois, os agressores, vítimas de si mesmos e de uma instituição esclerosada.

 

Notas:
* Todos os casos são autênticos. Não refiro os nomes das cidades e dos locais porque fazem parte das histórias das vítimas e para evitar qualquer possível identificação.
[1] O diretor espiritual foi expulso do ministério sacerdotal, e a superiora também abandonou a congregação. Ambos receberam apoio psicológico da diocese e da congregação, respetivamente. A congregação está a passar por um processo de cura.
[2] Casos semelhantes e até piores podem ser lidos em Cernuzzio, S., O Véu do Silêncio, San Pablo, Madrid 2024.
[3] Cfr. https://www.aiiap.org/la-victimizacion-en-las-instituciones-totales-eclesiales-con-derivas-sectarias/
[4] Assim a descreve Hugo Blaichmar: “A colonização emocional é o processo psicológico intersubjetivo pelo qual alguém passa a pensar, sentir e agir sob a influência de outro, o colonizador, que lhe impõe a sua subjetividade sem que o colonizado tenha consciência disso, vivendo assim o seu estado como se fosse seu e não inoculado pelo outro.”

 

Cristina Inogés Sanz é teóloga e foi membro do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade por nomeação do Papa Francisco, depois de ter integrado a comissão metodológica de preparação. Autora do livro A Sinfonia Feminina (Incompleta) de Thomas Merton (Paulinas Editora). O texto que aqui se reproduz com a devida autorização da autora e da revista, foi originalmente publicado na Vida Nueva.

 

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Arquidiocese no Missouri leva práticas do ICE a tribunal

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Arquidiocese no Missouri leva práticas do ICE a tribunal novidade

A arquidiocese de St. Louis, no Missouri (EUA), intentou uma ação contra o Governo federal por ver os seus padres impedidos de distribuir a comunhão e ouvir em confissão os detidos pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, no acrónimo em inglês) internados no Centro de Detenção do Condado de Ste. Genevieve.

“Depressa passas de bestial a besta”

[Lugar (in)comum]

“Depressa passas de bestial a besta” novidade

“Na era dos ecrãs e da comunicação imediata, construímos expectativas irrealistas, esperando infalibilidade de quem está sob o holofote. Chega a ser irónica a facilidade com que se eleva alguém a um estatuto quase divino para em seguida lhe ser exigido um comportamento humanamente irrepreensível.” [Texto de Júlia Costa]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber

[Entre Margens]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber novidade

Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].

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