[Brasil, Religião e Poder]

O complexo de Gabriela e uma aposta no futuro (sobre Lula e os evangélicos)

| 17 Jun 2023

Presidente Lula entre as “pautas do costume” e a realidade virtual. Foto © Fotos Públicas/Brasil

Presidente Lula entre as “pautas do costume” e a realidade virtual. Foto © Fotos Públicas/Brasil

Não nos resta dúvida de que a população brasileira vivenciou grandes tormentos de 2019 a 2022 com o governo Bolsonaro. E, embora estivéssemos todos devastados por dentro, muito de nós não tiveram a escolha de lidar com os medos e as inseguranças que a covid-19 impunha, senão fora de casa. A covid-19 destapou os problemas sociais com os quais nós, brasileiros, convivemos desde o nascimento e, exatamente por essa razão, muitas vezes, nos habituamos a eles, forjando o nosso país no complexo de Gabriela. O complexo de Gabriela aparece em um dos mais célebres romances de Jorge Amado, intitulado Gabriela, Cravo e Canela. O baiano Dorival Caymmi que, por sua vez, buscou inspiração na obra de Jorge Amado, e compôs a canção Modinha para Gabriela, cuja beleza – ainda mais quando interpretada por Gal Costa – nos faz esquecer que se trata, na verdade, de um complexo negativo, evidenciado no refrão “Eu nasci assim, eu cresci assim, eu vivi assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim, Gabriela.” 

Entretanto, mesmo com uma estrutura social resistente à mudança, viver sob o governo de Bolsonaro colocou o povo brasileiro em rota contrária; muitos eleitores de Lula, deixaram suas diferenças ideológicas de lado e apostaram em um futuro melhor. Esse foi o caso de parte dos evangélicos. Contudo, o Governo está negligenciando o diálogo com esse grupo; mesmo lideranças evangélicas progressistas criticam a falta de diálogo e falam de preconceito por parte de alas mais radicais da esquerda. 

O Presidente tem evitado discutir sobre as chamadas “pautas do costume”, também não compareceu a um dos mais importantes eventos dos evangélicos, a Marcha para Jesus, e, até o momento, não implementou nenhuma medida concreta em prol desse grupo. Por outro lado, o ministro da pasta dos Direitos Humanos e da Cidadania, Silvio Almeida, tem sido incisivo ao defender a descriminalização da maconha e os interesses do grupo LGBTQIA+. O que percebemos, portanto, é que o Governo tem a difícil, mas necessária tarefa de equilibrar os interesses dos grupos que compõem a esfera pública. 

Negligenciar 31% da população brasileira certamente não é uma estratégia inteligente, sobretudo porque as transformações que a sociedade brasileira precisa dependem de inclusão, não exclusão. Embora seja um grande desafio, o Governo deve se esforçar para dialogar com todos os grupos, ainda mais com aqueles que são diametralmente opostos. Do contrário, escolherá silenciar um em detrimento do outro, e isso também não é democrático. 

Maria Angélica Martins é socióloga e mestra em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Brasil. Pesquisa a relação entre fenómeno religioso e política com ênfase para o protestantismo histórico e o neocalvinismo holandês.

 

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