O confinamento ou o retorno à espiritualidade

| 9 Jun 20

Quem está habituado a ver em tudo a mão de Deus e a procurar em tudo o Seu rosto não pode estranhar o confinamento nem todas as suas consequências. Pelo contrário, a visão espiritual dos acontecimentos parte sempre, em primeiro lugar, da sua aceitação integral como mistério.

Resmungar dos acontecimentos, queixar-se, equivale à atitude do povo eleito no deserto bradando contra Moisés e construindo bezerros de ouro. Quem se queixa dos acontecimentos não está aberto ao dom, antes está atado a idolatrias de que convém desprender-se.

Estamos de facto reduzidos a essencialidades: um espaço contingente e as pessoas mais próximas das próximas – a pequena família. Se juntarmos a isto algumas privações e os medos das incertezas, temos reunidos todos os ingredientes dos êxodos do Antigo Testamento, aqueles que exatamente confirmaram o povo eleito e os fizeram voltar para o Seu Senhor.

Para quem segue Cristo, este é um caminho necessário e inevitável. A pureza da fé depende exatamente disso.  

O confinamento trouxe-nos, pois, essa enorme oportunidade de largarmos tudo o que não é de Deus nem a Ele conduz, o que inclui uma certa ilusão de virtude baseada mais em práticas de culto do que na procura incessante do Seu rosto a partir do rosto dos irmãos, “pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê.” (1 Jo 4:20)

Os nossos bezerros de ouro podem muito bem ser uma ideia de Deus que temos como certa (quando Deus será sempre para nós, criaturas, essencialmente mistério), um domínio de Deus que temos como garantido ou umas práticas que consideramos santificantes por si mesmas (o que não passa de uma idolatria).

Este é, pois, o tempo oportuno para nos deixarmos olhar por Deus e para nos limparmos de tudo o que não é Dele. Como nas nossas casas, trata-se de tirar, de deitar fora, de ficar apenas com o essencial. Há muita coisa não essencial na nossa vida de fé e este é um bom momento para o avaliar.

Resultará bastante evidente onde colocamos as nossas maiores energias, onde estão as nossas prioridades, quais são as erosões das nossas rotinas. Veremos bem onde está o nosso tesouro, pois aí está também o nosso coração.

Se, de facto, vivermos apenas de Deus e para Ele, reencontrá-Lo-emos em todo o lado: no ar que respiramos, no sol e na lua, nas árvores, na chuva e nas flores, no rosto do nosso marido|mulher e de cada um dos filhos, pois efetivamente “nEle vivemos, e nos movemos, e existimos”. E veremos o quão longe estamos de sermos “mansos e humildes” como Cristo, o único Modelo. E pobres. E misericordiosos.

No retorno à vida sacramental depois do tempo da prova, sejamos já outros a receber Cristo. Abramos, entretanto, mais e mais espaço para Ele, retirando tudo o que é estorvo à Sua presença em nós.

 

Dina Matos Ferreira é consultora e docente universitária