[Os dias da semana]

O conhecimento do inferno

| 6 Jul 2023

Inferno

“Permissão dada, o bom cristão dirige-se ao inferno. Mal entra, um exército de demónios repugnantes agarra-o e coloca-o a grelhar. Como se não fosse suficiente, é ainda alvo de inimagináveis sevícias.” Ilustração: Sandro Botticelli, O mapa do Inferno de acordo com Dante (Biblioteca Apostólica Vaticana).

 

A história é conhecida. O protagonista é um bom cristão. Está no céu há já algum tempo. A eternidade, a partir de um certo momento, começa a exasperá-lo. Nunca acontece seja o que for de estimulante. É um tédio, tamanha bonomia e tranquilidade. A ideia de ir conhecer o inferno começa, então, a germinar. Seria uma visita pouco demorada, evidentemente, apenas para satisfazer a curiosidade. É isso que o bom cristão pede a S. Pedro, a autorização para uma pequena viagem ao inferno.

S. Pedro concede. Durante alguns dias, uma semana, no máximo, pode abandonar o paraíso. No inferno, fica surpreendidíssimo. Olha em volta e vê que todos fazem aquilo com que ele toda a vida sonhou. No inferno, tudo é, afinal, aprazível e excitante. Qualquer desejo é aí concretizável.

Ao fim de uma semana de entusiasmo, regressa ao paraíso. Após mais um pedaço de eternidade, enfadado, o bom cristão interpela S. Pedro sobre se não poderia ir para o inferno e ficar lá para sempre. O santo pede-lhe que amadureça a ideia e antecipa que a autorização seria possível se fosse essa a vontade definitiva. Era.

Permissão dada, o bom cristão dirige-se ao inferno. Mal entra, um exército de demónios repugnantes agarra-o e coloca-o a grelhar. Como se não fosse suficiente, é ainda alvo de inimagináveis sevícias.

Quase sem sentidos, desesperado, o bom cristão chama um demónio e questiona-o sobre o que se está a passar. Quer saber por que razão se transformou radicalmente o lugar agradabilíssimo que encontrara aquando da anterior visita. Ou seja: o que aconteceu ao sítio em que, como ele testemunhou, tudo era maravilhoso?

Com um sorriso escarnecedor, o demónio explica que nunca se deve confundir turismo com imigração.

A história, que tem diversas versões, mais ou menos sofisticadas, é recordada pelo escritor Daniel Pennac no semanário francês Le Un, de 21 de Junho, integralmente dedicado a uma constatação e denúncia: “Migrantes: nós já não somos humanos”. A acusação da falta de humanidade impunha-se após o naufrágio de uma traineira com 750 pessoas de diversas nacionalidades a bordo na costa da península do Peloponeso, na Grécia, naquela que é considerada a rota migratória mais perigosa do mundo. O afundamento ocorrido na noite de 13 para 14 de Junho provocou a morte de, pelo menos, 82 pessoas e o desaparecimento de centenas. O jornal Le Un considera que este drama é a demonstração “de uma impotência feita de demissões, de egoísmo, de cinismo e de fantasmas sobre a presumida perigosidade destes estrangeiros”.

Ao contrário do que sucede na história lembrada por Daniel Pennac, os imigrantes, de facto, não saem do paraíso. Fogem do inferno e a viagem é já, ela própria, infernal. Os barcos inseguros em que atravessam o Mediterrâneo partem sobrelotados e, frequentemente, como sucedeu na fatídica noite de meados de Junho, os tripulantes não usam sequer coletes salva-vidas. As mafias que lhes vendem as viagens convencem-nos de que não farão falta. A desumanidade começa cedo.

A exploração de quem é mais vulnerável não conhece limites, nem de tempo, nem de lugar. Em Portugal, não são raras as notícias sobre imigrantes vítimas de abusos variados. Na semana que passou, houve, por exemplo, notícias de intervenções da Polícia Judiciária e do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras contra um casal suspeito do recrutamento de cidadãos estrangeiros, explorados, a seguir, em obras e empresas de diversos países europeus, e contra um grupo acusado de enriquecimento à custa da emissão de falsos atestados de residência a migrantes.

Outra notícia, dada pelo Correio da Manhã na quinta-feira, dizia que diversos jovens, ouvidos pelo juiz de instrução do Tribunal de Penafiel no dia anterior, terão denunciado as condições “deploráveis” em que viviam, em Riba de Ave, na academia do até há pouco presidente da assembleia geral da Liga de Clubes: “Ficavam trancados no quarto a cadeado, a limpeza do espaço era deficiente e as janelas eram também trancadas, tornando muitas vezes os quartos irrespiráveis”. Os jovens sujeitavam-se a tudo porque acreditavam que o paraíso seria um grande campo de futebol onde, um dia, jogariam triunfantes. Não se pode confundir a publicidade com o paraíso.

 

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