E ao segundo dia da sua primeira viagem apostólica, Leão XIV viu com os próprios olhos, escutou com os seus ouvidos e sentiu na pele a mensagem que levava preparada – “a lógica da pequenez é a verdadeira força da Igreja” – tamanha foi a alegria com que a minúscula comunidade de católicos o recebeu em Istambul.
De facto, pela quantidade de pessoas que se juntou para o receber na Catedral do Espírito Santo, na manhã desta sexta-feira, 28 de novembro, ninguém diria que os católicos correspondem a apenas cerca de 0,05% da população Turca, num total de 85 milhões de habitantes.
O encontro previsto era de oração com os bispos, padres, diáconos, consagrados, consagradas e agentes de pastoral, mas cá fora havia centenas de leigos, e entre eles muitos jovens e crianças, ansiosos por verem passar Leão XIV e, se possível, cumprimentá-lo, e que não se cansavam de gritar “Viva o Papa!”, num ambiente claramente contrastante com a atmosfera mais fria (e mesmo belicista) que caracterizou a receção do dia anterior por representantes políticos e da sociedade civil em Ancara [ver 7MARGENS].

O encontro previsto era de oração com os bispos, padres, diáconos, consagrados, consagradas e agentes de pastoral, mas cá fora havia centenas de leigos, e entre eles muitos jovens e crianças. © Vatican Media
Visivelmente emocionado com o efusivo acolhimento, o Papa dirigiu-se assim aos que enchiam os bancos da catedral: “A lógica da pequenez é a verdadeira força da Igreja. Efetivamente, esta não reside nos seus recursos e nas suas estruturas, nem os frutos da missão da Igreja derivam do consenso numérico, poder econômico ou relevância social. Em vez disso, ela vive da luz do Cordeiro […] e é novamente chamada a sempre confiar na promessa do Senhor: ‘Não temais, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o Reino’.”
Leão XIV reconheceu que a comunidade católica na Turquia é numericamente pequena, mas insistiu que ela permanece “fecunda como semente e fermento do Reino”. Por isso, convidou todos a testemunhar o Evangelho com “alegria e esperança confiante”, observando que já hoje surgem sinais promissores, como o crescente número de jovens que procuram a Igreja.

Leão XIV convidou todos a testemunhar o Evangelho com “alegria e esperança confiante”. © Vatican Media
O Papa indicou depois aqueles que considera ser os âmbitos fundamentais para a missão da Igreja na Turquia: o diálogo ecuménico e inter-religioso, a transmissão da fé à população local e o serviço pastoral aos refugiados e migrantes. Ao mesmo tempo, encorajou a perseverança no trabalho catequético, especialmente no acompanhamento dos muitos jovens que procuram a Igreja com perguntas e inquietações.
Sobre a pastoral relacionada aos migrantes e refugiados, o Papa destacou que a presença muito significativa de pessoas deslocadas no país interpela diretamente a comunidade católica, chamada “a acolher e servir aqueles que estão entre os mais vulneráveis”. Recordou ainda que muitos agentes pastorais vêm de outras nações, o que torna essencial o esforço “especial e decidido de inculturação”, para que a fé seja comunicada de modo enraizado na língua, nos costumes e na sensibilidade do povo turco. Essa inculturação, afirmou, é condição para um anúncio verdadeiramente fecundo do Evangelho.
E agradecendo a Deus por lhe permitir, na primeira viagem apostólica, “visitar esta ‘terra santa’ que é a Turquia, onde a história do povo de Israel se encontra com o cristianismo nascente, o Antigo e o Novo Testamento se abraçam, e se escrevem as páginas de numerosos Concílios”, Leão XIV recordou a figura de São João XXIII, que serviu na Turquia e demonstrou profundo afeto pelo país e seu povo. Inspirado por esse exemplo, o Papa exortou a Igreja local a manter viva a alegria: “Desejo que sejam animados por esta paixão, que conservem a alegria da fé, que trabalhem como pescadores intrépidos no barco do Senhor”.
“Antes de ser para os outros, ser com os outros”

“Os idosos são a sabedoria de um povo, uma riqueza para os netos, para as famílias e para toda a sociedade”, disse Leão XIV aos residentes da casa de acolhimento das Irmãzinhas dos Pobres, em Istambul. Foto © Vatican Media
É animadas por essa paixão que diariamente trabalham as Irmãzinhas dos Pobres na sua casa de acolhimento para idosos em Istambul, que o Papa fez questão de visitar após o encontro na catedral e onde foi também calorosamente acolhido.
Um acolhimento que “é o dom desta casa! Um dom que vem de Deus e que, na convivência diária, é feito frutificar pelas Irmãzinhas dos Pobres, pelos colaboradores e benfeitores, e também por todos os residentes. Obrigado a todos!”, disse o Papa na sua saudação.
Depois, falando particularmente às Irmãs, destacou que o nome da sua congregação é “belíssimo” e “faz-nos pensar”. “Sim, o Senhor não vos chamou apenas para assistir ou ajudar os pobres. Ele chamou-vos para serem suas ‘irmãs’! Como Jesus, que o Pai nos enviou não apenas para nos ajudar e servir, mas para ser nosso irmão”, enfatizou Leão XIV. E assegurou: “Este é o segredo da caridade cristã: antes de ser para os outros, ser com os outros, numa partilha baseada na fraternidade”.
Em seguida, as suas palavras foram para as pessoas acolhidas no lar, muitas delas não católicas mas nem por isso menos emocionadas por estar diante do Papa: “Vocês são idosos. E esta palavra, ‘idoso’, corre hoje o risco de perder o seu verdadeiro significado: em muitos contextos sociais, onde predominam a eficiência e o materialismo, perdeu-se o sentido de respeito pelas pessoas idosas. Em vez disso, a Sagrada Escritura e as boas tradições ensinam-nos que – como o Papa Francisco gostava de repetir – os idosos são a sabedoria de um povo, uma riqueza para os netos, para as famílias e para toda a sociedade!”.
A saudação do Papa terminou com a bênção apostólica e um duplo agradecimento: a quem acolhe, em nome da fraternidade, e por fazê-lo com pessoas idosas, porque “sabemos que isso não é fácil e requer muita paciência e oração”.
No livro de honra do lar, ficaram registadas as suas palavras afetuosas: “Abençoo calorosamente esta casa com todos os seus residentes e, de maneira especial, as Irmãzinhas dos Pobres pelo seu serviço aqui e pelo seu testemunho a todos”, na Turquia e no mundo.










