
“Recuperar a fé que centra o seu sentido no meu próximo, nas suas necessidades.” Ilustração: Ir. Eric de Taizé, Jesus alimenta a multidão (detalhe). Foto © Maria do Carmo Marques Lito.
Falar acerca do que temos aprendido ao longo desta pandemia fez-me pensar essencialmente naquilo que muitas vezes não consegui aprender noutras circunstâncias diferentes da atual crise que estamos a atravessar. Jamais experienciei situações que obrigassem a mudanças drásticas e dramáticas no nosso estilo de vida, nos relacionamentos de uns com os outros e até na maneira como nos vemos a nós próprios.
Grandes crises potenciam obviamente grandes oportunidades de mudança. Se até então, mergulhados nesta sociedade hedonista, consumista e individualista, muito da nossa vida tem sido muitas vezes focada no atingir determinadas metas padronizadas de bem-estar – tal como nos é propagado e ensinado pela vigente doutrina económica neoliberal – a atual crise pandémica expôs a nu muitas das fragilidades da nossa sociedade, inclusive a da nossa existência humana.
Como cristão, este tempo tem sido propício a grandes reflexões e até a mudança de pensamento. De uma fé tantas vezes individualista, tenho procurado recuperar aquela que centra o seu sentido na vida do meu próximo, nas suas necessidades e fragilidades.
Extrapolando até o uso restrito da palavra liturgia, que remete muitas vezes para o serviço público do culto dentro de um espaço delimitado, relembro agora muitas vezes que, no entender do apóstolo Tiago, a verdadeira religião é, antes de mais, atender às necessidades do meu próximo (Tiago 1:27). Não terá sido sempre esse o pulsar e o sentir do coração amoroso de Deus? Não foi essa a ética que Jesus nos deixou e que constitui uma das grandes marcas do Seu discipulado?
Relembro as palavras do Papa Francisco em discurso proferido no início deste mesmo ano, de que a atual pandemia mostrou ao mundo a necessidade de nos interessarmos pelos problemas dos outros, compartilharmos as suas preocupações, de cuidarmos uns dos outros. A fé da Igreja só faz sentido se vivida numa ótica comunitária, na qual todos os seus membros, além de estarem ao serviço uns dos outros, têm também como vocação servir em amor todos quantos nos rodeiam.

“A pandemia mostrou a necessidade de cuidarmos uns dos outros.” Foto: Protesto contra o racismo na Avenida dos Aliados, Porto, em Junho de 2020. © Catarina Soares Barbosa.
Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona.






