O coração inebriado de Agostinho, na leitura das “Confissões”

| 26 Ago 19 | Cultura e artes - homepage, Newsletter, Teatro / Dança / Coreografia, Últimas

Philippe de Champaigne, Santo Agostinho

 

No início, logo depois da primeira peça musical de Rão Kyao, um dos actores declamará: “Quem me fará repousar em ti? Quem fará com que venhas ao meu coração e o inebries para eu esquecer os meus males e te abraçar a ti, meu único bem? Que és tu para mim? Tem piedade de mim e deixa-me falar. Será pequena desgraça se eu não te amar? Ai de mim! Pela tua compaixão, Senhor meu Deus, diz-me o que és para mim. Diz à minha alma: eu sou a tua salvação. Diz de forma que eu ouça.”

No dia que a liturgia católica dedica a Agostinho de Hipona, 28 de Agosto, no antigo convento de Santo Agostinho, hoje transformado em Museu de Leiria, o Teatro Maizum produz, a partir das 22h, uma leitura encenada das Confissões. O livro é o primeiro registo autobiográfico da história da literatura e um dos mais densos textos espirituais do pensamento ocidental.

O espectáculo, com entrada gratuita mas condicionada à lotação do espaço, decorre no claustro do convento e será antecedido de uma visita ao convento, a partir das 21h. Incluirá, intercalada com a declamação dos textos, cinco peças musicais da autoria e executadas pelo músico Rão Kyao. Os excertos do texto são retirados da mais recente e completa edição das Confissõesem português: a tradução de Arnaldo do Espírito Santo, João Beato e Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel (com notas de âmbito filosófico de Manuel Barbosa da Costa Freitas e José Maria Silva Rosa), editada em 2000 e com uma segunda edição em 2004.

Claustro do antigo convento de Santo Agostinho, hoje Museu de Leiria, onde decorre a encenação. Foto: Direitos reservados

 

No percurso dramatúrgico, serão apresentados excertos que falam do percurso de Agostinho, quer em termos biográficos, quer do seu pensamento: a infância e juventude, a sua paixão pelo teatro, o ensino de retórica a que se dedicou, a sua ligação a uma concubina, a doença e morte de um amigo e o modo como isso marcou a sua vida – que o leva, aliás, a partir para Cartago:

“E assim angustiava-me, suspirava, chorava, perturbava-me, e não havia repouso nem conselho. Porque trazia a minha alma despedaçada e ensanguentada, incapaz de ser levada por mim, e não encontrava onde colocá-la”, como ele escreve no livro VII das Confissões, a propósito desse acontecimento.

Mais tarde, será a sua aproximação e, depois, o abandono do maniqueísmo, bem como a sua ligação ao bispo Ambrósio, de Milão, que será decisivo na sua conversão, apesar das hesitações, e que culminará com o seu baptismo. Finalmente, outro acontecimento decisivo da sua vida, a morte de Mónica, sua mãe: “Porque me abandonava o seu tão grande amparo, a minha alma estava ferida, e como que se me dilacerava a vida, que, da minha e da dela, se tinha tornado numa só.”

O trajecto do seu pensamento passa por indicar os seus temas preferidos, pela providência e eternidade de Deus, pelo amor, pela filosofia, pela esperança e alegria ou a busca de Deus e da beleza, onde surge o conhecido parágrafo: “Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! E eis que estavas dentro de mim e eu fora, e aí te procurava, e eu, sem beleza, precipitava-me nessas coisas belas que tu fizeste. Tu estavas comigo e eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti aquelas coisas que não seriam, se em ti não fossem. Chamaste, e clamaste, e rompeste a minha surdez; brilhaste, cintilaste, e afastaste a minha cegueira; exalaste o teu perfume, e eu respirei e suspiro por ti; saboreei-te, e tenho fome e sede; tocaste-me, e inflamei-me no desejo da tua paz.”

Finalmente, outros dos temas serão o poder da memória, a súmula das obras da criação e as suas reflexões sobre o tempo, outro dos capítulos intensos do livro: “Não houve, pois, tempo algum em que não tivesses feito alguma coisa, porque tinhas feito o próprio tempo. (…) O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, sei o que é; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não sei.”

Agostinho nasceu em Tagaste (actual Argélia) a 13 de novembro de 354 e morreu em Hipona, a 28 de agosto de 430. Ensinou gramática e retórica em Roma e Milão, converteu-se ao cristianismo por influência da mãe e viria a ser bispo de Hipona. A Cidade de Deuse Confissõessão duas das suas principais obras, que se tornariam fundamentais para o desenvolvimento da filosofia ocidental e do cristianismo. Foi proclamado “Doutor da Igreja” e é considerado um dos mais importantes filósofos do início do cristianismo.

 

Confissões de Santo Agostinho

Leitura encenada com música ao vivo de Rão Kyao

 

Convento de Santo Agostinho/Museu de Leiria

28 de Agosto, 22h (visita ao convento/museu às 21h)

Entrada livre, sujeita à lotação do espaço

 

Direção Artística: Júlio Martín da Fonseca
;

Música: Rão Kyao

Dramaturgia: Silvina Pereira

Interpretação: Augusto Portela, Helena Reis, Íris Martín Pereira e Júlio Martín Direcção Técnica: José Carlos Nascimento

Artigos relacionados

Um ano de 7MARGENS

Um ano de 7MARGENS

Hoje, 7 de Janeiro de 2020, o 7MARGENS completa o primeiro ano de publicação. Garantir a pertinência diária de uma publicação deste tipo, única no panorama da informação religiosa, pela abrangência que marca o seu fluxo noticioso não foi tarefa fácil. Mas, com o apoio, a solidariedade, o contributo e o incentivo de muitas pessoas foi possível corresponder ao que de nós esperavam os que acreditaram neste projeto.

Apoie o 7 Margens

Breves

A mulher que pode ter autoridade sobre os bispos novidade

Francesca di Giovanni, nomeada pelo Papa para o cargo de subsecretária da Secção para as Relações com os Estados, considerou a sua escolha como “uma decisão inovadora [que] representa um sinal de atenção para com as mulheres.

Henrique Joaquim: “Assistencialismo não tira da rua as pessoas sem-abrigo”

“O assistencialismo não tira a pessoa da rua, não resolve o problema; ainda que naquela noite tenha matado a fome a uma pessoa, não a tira dessa condição”, diz o gestor da Estratégia Nacional de Integração dos Sem-abrigo, Henrique Joaquim, que esta quinta-feira, 2 de Janeiro, iniciou as suas funções.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro

A viagem começou a 3 de Fevereiro, diante da Sé do Porto: “Quando estacionámos o jipe em frente à catedral do Porto, às 15h30, a aragem fria que fustigava o morro da Sé ameaçava o calor ténue do sol que desmaiava o seu brilho no Rio Douro.” Terminaria doze dias depois, em Bissau: “Esta África está a pedir, em silêncio e já há muito tempo, uma obra de aglutinação de esforços da comunidade internacional, Igreja incluída, para sair do marasmo e atonia de uma pobreza endémica que tem funestas consequências.”

É notícia

Entre margens

Cultura: novas histórias e paradigmas… novidade

“Torna-se necessária uma evangelização que ilumine os novos modos de se relacionar com Deus, com os outros e com o ambiente, e que suscite os valores fundamentais” – afirma a exortação pastoral Evangelii Gaudium. Na mesma linha em que o Papa João XXIII apelava ao reconhecimento da importância dos “sinais dos tempos”, o Papa Francisco afirmou que: “É necessário chegar aonde são concebidas as novas histórias e paradigmas, alcançar com a Palavra de Jesus os núcleos mais profundos da alma das cidades.

Um imperativo de coerência

Ao renunciar, num ato de humildade e, seguramente, após longa reflexão, Joseph Ratzinger declarou não se encontrar em condições físicas compatíveis com o exercício das funções de Papa. Após a renúncia, o colégio dos cardeais eleitores escolheu Jorge Mario Bergoglio, o atual Papa Francisco, alguém que tem procurado atender as necessidades da Igreja, ouvir os fiéis e responder às suas inquietações. Revelou-se uma feliz surpresa para a Igreja, apesar dos movimentos de contestação que surgem em várias frentes.

Esquecer Simulambuco

Como português que sou senti-me um pouco comprometido em Simulambuco, quando visitei Cabinda no mês passado. Portugal falhou aos cabindas talvez porque o que tem de ser tem muita força. É o caso do petróleo.

Cultura e artes

Que faz um homem com a sua consciência? novidade

Nem toda a gente gosta deste filme. Muitos críticos não viram nele mais do que uma obra demasiado longa, demasiado maçadora, redundante e cabotina. Como o realizador é Terrence Malick não se atreveram a excomungá-lo. Mas cortaram nas estrelas. E no entanto… é um filme de uma força absolutamente extraordinária. Absolutamente raro. Como o melhor de Mallick [A Árvore da Vida].

Sete Partidas

Guiné-Bissau: das “cicatrizes do tempo” ao renascer do povo

Este mês fui de visita à Guiné. Uma viagem de memória para quem, como eu, não tinha memórias da Guiné. Estive em Luanda ainda em criança, mas as memórias são as próprias da idade. Excepção à única em que o meu pai me bateu. Às cinco da tarde saí de casa e às dez da noite descobriram-me a assistir, divertida, ao baile no clube. Uma criança de cinco anos, branca e loura, desaparecida na Luanda dos anos 1960 não augurava coisa boa, o que gerou o pânico dos meus pais. Daí a tareia…

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Jan
21
Ter
Viagem pela Espiritualidade – Conversa com Luís Portela @ Fund. Engº António de Almeida
Jan 21@18:15_19:15

Conversa em torno do livro Da Ciência ao Amor – pelo esclarecimento espiritual, de Luís Portela, com apresentação de Guilherme d’Oliveira Martins e a participação de Isabel Ponce de Leão, Luís Carlos Amaral, Luís Miguel Bernardo, Luís Neiva Santos,
Manuel Novaes Cabral e Manuel Sobrinho Simões

Jan
23
Qui
Encontros de Santa Isabel – “Jesus, as periferias e nós” @ Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa
Jan 23@21:30_23:00

Conferência sobre “Periferias”, com Isabel Mota, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian

Jan
30
Qui
Encontros de Santa Isabel – “Jesus, as periferias e nós” @ Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa
Jan 30@21:30_23:00

Debate sobre “Aqui e agora”, com Luís Macieira Fragoso e Maria Cortez de Lobão, presidente e vice-presidente da Cáritas Diocesana de Lisboa

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco