O coração no meio da escuridão

| 25 Mai 2021

Fátima 12 Maio 2020

“Os acontecimentos de Fátima têm de ser histórica e culturalmente interpretados.” Foto: Fátima, 12 Maio 2020. © Santuário de Fátima

 

Fátima nunca será um tema consensual. Uns veem-na como crendice popular sem sustento, outros encaram-na como algo politicamente conveniente, outros ainda, têm em Fátima a história da sua conversão pessoal. Na diversidade (e antagonismo, em determinados casos), haverá verdade. Os acontecimentos da Cova da Iria deram azo à maior variedade de posições e interpretações e talvez esse facto constitua também uma riqueza.

Tudo em Fátima causa perplexidade. Desde os destinatários da mensagem, crianças a quem Nossa Senhora aparece numa aldeia do interior de Portugal – país no extremo da Europa que se digladiava com a instabilidade política de uma república recém imposta e o trauma de uma Guerra Mundial. Os acontecimentos relatados: um anjo que aparece aos pequenos pastores, numa anunciação; “uma senhora vestida toda de branco, mais brilhante que o sol” que pede orações para alcançar a paz e a conversão dos que andavam perdidos, anuncia tempos de sofrimento e dor, mostra o inferno às crianças, pede a consagração da Rússia mas termina com o anúncio de esperança: o triunfo do seu coração imaculado. Como se tudo isto não fosse suficientemente inverosímil, surge o epifenómeno do milagre do sol.

De todas as perguntas que nos assaltam ao ouvir estes relatos, destacaria, em primeiro lugar, a aparente crueldade dos anúncios de Nossa Senhora. Com o olhar dos nossos dias, imaginar a referência maternal da Igreja a mostrar o inferno com demónios e fogueiras a crianças de dez, nove e sete anos, pedindo sacrifícios a crianças que viviam na miséria e anunciando fomes, guerras e sofrimentos, parece de uma enorme crueldade e ausência de sentido. O registo usado, uma linguagem de dor e sofrimento, choca a racionalidade da nossa visão centrada na fé num Deus de amor que quer que vivamos em plenitude.

Esta dureza de linguagem só poderá ser compreendida se atendermos ao contexto histórico e às inerentes referências religiosas desta altura. À época dos acontecimentos de Fátima, as referências religiosas e culturais eram diametralmente diferentes das atuais. A título de exemplo destaque-se o facto de ocorrerem antes do Concílio do Vaticano II [1962-65], quando a celebração da missa era ainda em latim, a taxa de analfabetismo era altíssima, a imagem de um deus juiz e executor estava ainda muito presente, viviam-se tempos de fome e guerra. Se fosse nos dias de hoje, provavelmente o registo usado seria diferente, de acordo com as referências culturais contemporâneas. Os acontecimentos de Fátima têm de ser histórica e culturalmente interpretados.

Por outro lado, nesta leitura de conjunto, cumpre atender às constantes mensagens de confiança e esperança deixadas por Nossa Senhora. A chave interpretativa de Fátima é: “Por fim, o meu coração imaculado triunfará.” Tem tanto de enigmático, como de surpreendente. O triunfo é de um coração.

No enigma que esta frase deixa, importa salientar o horizonte apontado. Não é dito: agora, neste momento, todo o sofrimento acaba. Mas antes: com tudo o que esteja por vir, tenham a absoluta confiança que o bem triunfará. Fátima não aconteceu para anunciar tragédias e fomes, mas para anunciar que o Coração imaculado triunfará no meio da escuridão.

Outra perplexidade para a nossa racionalidade são os sacrifícios pedidos em reparação dos pecados. Perceber e integrar o sofrimento é uma tarefa árdua e pessoal, remete para a consciência, história e circunstâncias de vida de cada um. O dilema inultrapassável do sofrimento dos inocentes continuará a deixar-nos sem respostas, e talvez seja necessário aceitar que não chegaremos nunca a compreender. Integrar o sofrimento na vida é uma peregrinação que cada um tem de fazer. O sofrimento é uma inevitabilidade e, ousaria dizer, uma consequência de estar vivo. Uma vida sem sofrimento está anestesiada. Sabendo isso há que encontrar modo de saber viver com ele. Aprendendo a relacionar-nos com as nossas dores em modo de diálogo e de aceitação, sem que esta se transforme em autocomiseração e resignação. Nesta peregrinação que cada um percorre, a fé guia-nos e faz-nos perceber que o sofrimento não é um fim em si mesmo. A vida a que somos chamados é uma vida em plenitude, e a plenitude implica integrar o sofrimento e saber viver com ele.

O filme No coração da escuridão (First Reformed, no original, com realização e argumento de Paul Schrader) retrata um pastor de luto pela morte do filho que a questiona a sua fé em relação a Deus. No seu caminho, encontra um homem em desespero que, não encontrando forma de solucionar os problemas que o planeta atravessa, acha imoral trazer um filho ao mundo. Numa conversa com o pastor Toller, este diz-lhe uma frase que nos guia: face ao desespero a razão não nos dá respostas, só a coragem responde ao desespero.

As aparições de Fátima deixam-nos as mãos com vários enigmas, mas na procura do lugar que cada um poderá encontrar para estes acontecimentos na sua vida interior, importa reiterar o núcleo essencial da mensagem: conversão de coração, oração e esperança.

 

Sofia Távora é jurista e voluntária no Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa do Hospital Dona Estefânia.

 

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