O corneto, a Fénix renascida e uma luz na noite de Sintra

| 9 Mai 19 | Cultura e artes, Música, Últimas

Jean Tubéry, director do Ensemble La Fenice, num momento do concerto de sábado. Foto © PSML/Pedro Lopes.

 

À quarta peça, dedicada a São Marcos, os músicos dividem-se e colocam-se nos dois extremos da sala e o efeito na Sala dos Cisnes do Palácio de Sintra soa como uma estereofonia: o som preenche todo o espaço a partir dos seus extremos, o jogo melódico parece amplificar o tamanho da sala. No início da segunda parte, o efeito é semelhante: uma parte do agrupamento La Fenice está dentro da sala, a restante coloca-se no pátio exterior, depois de abertas portas e janelas e, tocando a peça em simultâneo, os de fora concluem cada frase numa resposta em eco aos músicos de dentro da sala.

O modo de apresentação formal foi apenas um dos pormenores que fez a riqueza do concerto de sábado passado, 4 de Maio, no Palácio Nacional de Sintra, dedicado à música veneziana do século XVI, através de algumas obras de Andrea Gabrielli (1533-1585) e do seu sobrinho Giovanni (1557-1612). Com o título Coroação do Doge em Veneza, o concerto do La Fenice, dirigido por Jean Tubéry, foi o primeiro do ciclo que inclui ainda os três restantes sábados de Maio.

No dia da coroação, explicava o programa do concerto, os venezianos tinham Festa Maggiore, com a ida à Basílica de São Marcos atrás da Andata in trionfo, a procissão triunfal que incorporava o novo titular do poder. Trompetes de prata, missa de pompa, a cappella musicale completa com cantores e instrumentistas.

Foi esse ambiente que o ensemble dirigido por Tubéry soube recriar na Sala dos Cisnes, não só pela qualidade estética da sua execução, mas pela interioridade e festividade que cada músico e cantor imprimia à sua prestação – vozes e instrumentos (corneto, violinos barrocos, sacabuxas, fagote, órgão e cravo) conjugados em profunda harmonia.

Ensemble La Fenice na Sala dos Cisnes. Foto © PSML/Pedro Lopes.

 

Em Veneza, na cerimónia da coroação, a liturgia tinha um rito próprio, diferente do romano, nomeadamente no que dizia respeito à música – e assim se manteve até 1797, quando a República caiu.

O programa do concerto de sábado celebrava essa especificidade, com os motetos cantatas escritos para São Marcos e que, no caso do Laudate Dominum, com um dueto a meio da sala e o cravo, evocavam a vitória na batalha de Lepanto. No final da missa solene, ia-se ainda no programa, o dogedirigia-se à varanda do palácio junto da basílica. Diante do Adriático, atirava uma aliança ao mar, como símbolo do seu casamento com a população de Veneza.

A interioridade foi, no concerto, uma linha contínua, que nem sequer nos interlúdios das movimentações se quebrava, pois o órgão, tocado por Aki Noda, assumia o papel de ligação permanente entre as diferentes peças.

Na segunda parte, a Sala dos Cisnes pareceu transformada na Sala delle quattro porte do Palácio Ducal. Num ambiente musical íntimo, mas não menos festivo, passaram madrigais profanos e espirituais, além de um moteto “metafórico da independência veneziana”, símbolo da “ambivalência do poder político-religioso” que o dogeassumia.

Uma última palavra para o corneto (corneta com pequena curva), o instrumento tocado por Jean Tubéry, profusamente utilizado no século XVI, que introduz na música uma importante nota de delicadeza. Qual fénix renascida, como evoca o nome deste ensemble, o corneto merece, só por si, uma atenção redobrada. Sobre ele se lia na obra Harmonie Universelle, de Mersenne, publicada em Paris em 1636: “É como um raio de sol atravessando as sombras ou a escuridão, quando é ouvido entre as vozes em igrejas, catedrais ou capelas.”

O concerto de La Fenice foi uma luz atravessando a noite de Sintra.

O Ensemble La Fenice em Sintra, num outro momento do concerto. Foto © PSML/Pedro Lopes.

 

[O programa dos próximos concertos desta temporada inclui três outros momentos obrigatórios com (dia 11) o Ensemble Clément Janequin a executar polifonia do século XVI, com destaque para o compositor que dá nome ao agrupamento; a música de Claudio Monteverdi e Sigismondo d’India com o Ensemble Arte Musica (dia 18); e o incontornável Marco Beasley a dirigir (e a cantar com) um grupo de músicos que executará temas tradicionais do sul de Itália do século XVI. O programa completo pode ser consultado aqui; mais informações aqui.]

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