Cartaz gera polémica

O Cristo da Semana Santa de Sevilha deste ano é jovem, belo… e gay?

| 30 Jan 2024

Cartaz promocional da Semana Santa de Sevilha 2024. Foto reproduzida a partir do perfil de X @BlogPageNFound

Cartaz promocional da Semana Santa de Sevilha 2024. À direita, o autor e o filho, que serviu de modelo para a pintura, durante a apresentação da obra. Imagem reproduzida a partir do perfil de X @BlogPageNFound

 

Goste-se ou não, é difícil ficar indiferente ao cartaz promocional da Semana Santa de Sevilha 2024. Divulgada no passado sábado pela organização, a obra está a suscitar polémica em Espanha, e até em Portugal, com comentários a favor (e sobretudo contra) a multiplicarem-se nas redes sociais e uma petição a exigir a sua retirada imediata. O artista plástico Salustiano Garcia, autor da imagem, diz que só quis mostrar “o lado radiante da Semana Santa”, mas muitos consideram que o seu Cristo jovem e atraente, sem feridas ou sinais de sofrimento, tem uma estética “sexualizada”.

Salustiano confessa que, quando o Conselho de Irmandades de Sevilha lhe pediu para criar o cartaz da Semana Santa, ainda pensou em representar um tradicional Jesus Cristo morto na cruz. “Mas rapidamente abandonei essa ideia, Ganhei consciência de que, no meu trabalho, sempre me tinha posicionado do lado mais sereno e iluminado da vida e das coisas”, explica.

O autor sevilhano inspirou-se, então, na imagem do seu próprio filho, Horaciano – que lhe serviu de modelo -, e na do seu irmão, que faleceu aos 18 anos, tinha Salustiano apenas 12. ” A minha mãe pediu-me para ir até ao quarto onde o seu corpo descansava para me despedir dele. Fiquei apavorado, mas quando vi o seu rosto e o gesto sereno das suas mãos cruzadas sobre o peito, fiquei chocado, estremeci. Como pode um corpo jacente conter tanta beleza!”, recorda.

Ficou, por isso, muito surpreendido quando as críticas relativamente ao cartaz surgiram. O Instituto de Política Social, uma organização cívica que defende o “respeito pelos símbolos cristãos” e que se posiciona contra o aborto e a eutanásia, descreveu-o como “uma verdadeira vergonha e aberração”, ao apresentar um Cristo “efeminado”. A instituição pediu a remoção da obra e exigiu um pedido público de desculpas do seu autor, argumentando que esta representação não está de acordo com o espírito da Semana Santa e que Salustiano estava consciente disso.

O artista sublinha que estudou todos os cartazes feitos para o Conselho de Irmandades de Sevilha nos últimos dois séculos e garante que a sua intenção sempre foi “ser muito respeitoso”. À crítica de que pintou Cristo “seminu”, responde: “Como todos os Cristos crucificados e ressuscitados de Espanha e da Europa”. A quem diz que ele é “muito branco”, questiona: “O que é muito branco? Como todos os Cristos europeus, todos os Cristos góticos”. Quanto à alusão à homossexualidade que alguns veem no retrato (muitos lhe têm chamado “Cristo gay” ou “Cristo LGBT”), Salustiano Garcia remata: “Que Deus venha ver que em 2024 a homossexualidade será usada como arma de arremesso e que essas críticas virão dos cristãos… Estou convencido de que Jesus não ia gostar disto.”

O artista, que tem tido as suas obras expostas em museus, galerias e feiras internacionais de arte em todo o mundo, escolheu um fundo plano e monocromático, num vermelho forte, conhecido como “vermelho Salustiano”, comum a muitas das suas obras.

Sobre a imagem de Jesus, esclarece: “O meu Cristo é um Cristo clássico à maneira dos Cristos barrocos e renascentistas de Espanha e de Itália. Ao contrário dos germânicos e flamengos, ensanguentados e retorcidos pela dor, o meu é um Cristo sereno, cheio de majestade e doçura. Eles representam o homem que está em Cristo. Nós, os do sul da Europa, celebramos o Deus nele”. É por isso, acrescenta, que “dificilmente apresenta sinais da sua paixão e crucificação. Mostra apenas algumas feridas mínimas nas laterais e na mão, praticamente já curadas”.

E explica ainda: “O meu Cristo parece jovem e belo. Jovem, como metáfora da pureza: assim se mostrou a Virgem Maria na história da arte, quase como uma adolescente. E belo porque, remeto-me a Platão, beleza e bondade são a mesma coisa”.

A avaliar pelo número de pessoas que assinaram a petição para a retirada dos cartazes (nesta terça-feira, 30 de janeiro, eram já cerca de 13 mil), as explicações não são suficientemente convincentes. Mas há também quem recorde os cartazes anteriores e conclua: “o de 2024 é o melhor de todos, de longe” e só não vê isso quem tem “mentes retrógradas”.

A verdade é que o cartaz já tem, pelo menos, um enorme mérito, assinalam outros: o de colocar tanta gente a falar da Semana Santa de Sevilha.

 

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