Leituras de Páscoa (2)

“O Cristo Interior”

| 28 Mar 2024

 

Nas últimas semanas, o 7MARGENS publicou um “Diário de Caminho” de Cláudio Louro, como peregrino de Santiago, e iniciámos a publicação do “Diário de um jejuador”, da autoria de Khalid Jamal, como propostas para a reflexão a propósito de tempos fortes para os cristãos (a Quaresma) e para os muçulmanos (o Ramadão) respectivamente. Hoje, 28 de Março, os cristãos celebram Quinta-Feira Santa, o início do Tríduo Pascal que culmina no Domingo de Páscoa. 

Tendo em conta a centralidade e importância da Páscoa no calendário cristão (os ortodoxos celebram-na, este ano, apenas no início de Maio, uma vez que seguem o calendário juliano), o 7MARGENS pediu a colaboração de duas editoras, Editorial AO e Paulinas, no sentido de podermos publicar excertos de algumas obras que ajudem à reflexão para e sobre estes dias, sempre na relação com o tempo histórico que estamos a viver. Em resultado da escolha feita, aqui reproduziremos diariamente excertos de dois livros, até Domingo, agradecendo desde já a disponibilidade das editoras para esta iniciativa. 

 

O Cristo Interior, de Javier Melloni.

A capa de O Cristo Interior, de Javier Melloni.

Uma viagem dentro de si

“Conhecer alguém por dentro é deixar-se tocar interiormente pela alegria e sentido que essa presença nos traz! Isso mesmo nos é oferecido pela bela prosa poética de Javier Melloni, com a originalidade e a autenticidade de uma «cristologia orante». Certamente que o desejo mais profundo do autor não andará longe das palavras que São Paulo endereçou aos cristãos de Éfeso: «que Cristo habite, pela fé, nos vossos corações»”. 

Estas palavras do padre jesuíta Miguel Gonçalves Ferreira, na apresentação de O Cristo Interior sintetizam da forma feliz o que o leitor pode esperar deste livro: uma viagem intensa dentro de si, único “lugar” onde pode encontrar-se pessoalmente com Cristo, para lá de doutrinas e dogmas que, apesar de importantes, são apenas sinais para algo maior e mais belo.

 

Cristo de Dalí, Arkangel, CC BY-SA 2.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0>, via Wikimedia Commons.

La Cristo de Dalí, por Arkangel, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.

 

Interior não significa alheia ao mundo, mas revelação do que o mundo alberga. Brota de dentro das coisas e das pessoas, não como um esforço, mas como o desenvolvimento de uma semente

“«A realidade é Cristo» (Cl 2, 17) e é-o enquanto re­conhecemos n’Ele a unificação do divino, do humano e do cósmico num máximo de diafania. Esta diafania procede da transparência de um modo de ser totalmente descentrado de si, que permite estabelecer a verdadeira comunhão com Deus, com as pessoas e com as coisas.

O que identificamos em Jesus está chamado a ser vivido por cada ser humano. Quem opera esta transformação é o Espírito Santo, a dynamis divina que se derramou em Jesus, o Cristo – o «Ungido» –, desde a sua conceção e que está presente em cada pessoa a partir do instante mesmo da sua aparição, pelo simples facto de existir. Na medida em que nos abrimos a esta unção, ela vai-nos cristificando, vai-nos transformando em alter Christus.

Embora haja uma cristologia descendente e outra ascendente, também podemos falar de uma cristologia interior. Interior não significa alheia ao mundo, mas revelação do que o mundo alberga. Brota de dentro das coisas e das pessoas, não como um esforço, mas como o desenvolvimento de uma semente (Lc 13, 19), como a germinação de um núcleo oculto mas sempre presente em tudo. Viemos à vida para acolher o dar-se de Deus e para nos convertermos em matrizes do seu apresentar-se no mundo.

Cada tradição religiosa é um caminho para o desvelar do Real. Somos, os cristãos, os que fomos seduzidos por Jesus de Nazaré, que de tal modo viveu aberto ao Outro de si, que descobriu que esta Alteridade constituía a sua mais profunda e íntima mesmidade. Através d’Ele, acedemos à revelação do que somos, assim como somos atraídos para que a nossa existência seja a ocasião da sua transparência.

As presentes páginas têm como primeiro suporte outras páginas: os Evangelhos, que nos relatam a vida de Jesus, o Nazareno, confessado como Cristo, o filho de Deus, pelos seus seguidores. Ao falarem de um perso­nagem histórico, remetem para uma exterioridade, distante no espaço e no tempo e, como tal, inacessível; mas, como manifestação do eterno dar-se de Deus, somos seus contemporâneos. Cada geração é equidistante de Cristo e é capaz de Cristo. Por meio desta contemporanei­dade, não só acedemos ao seu exterior, mas habitamo-lo e somos habitados por Ele. A passagem do exterior ao interior acontece pela contemplação e pela meditação assídua desses textos. Chegam-nos notícias suas através de palavras escritas e, por isso, consideramo-las sagradas, porque recolhem os ensinamentos e os relatos de um caminho vivido antecipadamente por Ele. A sacralidade do texto atinge a sua culminação quando transforma aquele que o lê.

 

Cristo preso à coluna, de Alessandro Turchi (1578–1649)

Cristo preso à coluna, de Alessandro Turchi (1578–1649), Domínio público, via Wikimedia Commons.

Recorremos aos Evangelhos, assim como para outros caminhos existem outros textos. Nestas páginas vamos entrar em alguns dos nossos. São textos iniciáticos, que crescem com quem os lê, tal como terá dito Gregório Magno. Crescer significa aqui abrir-se e deixar-se configurar pela forma crística, da qual Jesus é pauta e modelo arquétipo. Mysterium coniunctiones do passado, do presente e do que está para vir, que já está a vir neste ir e vir para Ele através dos textos e da vida.

Conjunção de exterioridade e de interioridade que vai transformando a existência e vai propiciando a transparência das palavras, dos atos e dos gestos, para nos conduzir a um estado a que chamamos santidade. Assim, através da vida de Jesus e dos relatos que no-la transmitem, a forma excede a forma ao mesmo tempo que a concretização é a oportunidade para que se mostre o Imanifestado. Como cristãos, acedemos à Origem de tudo o que é através da pessoa de Jesus. A interiorização de Cristo em cada um converte-se na sua encarnação contínua, como contínuo é também o ato criador de Deus. Disto falou um frade dominicano há alguns séculos, Eckhart de Hochheim, mestre não só das letras, mas sobretudo da vida; contudo, alguns da sua geração não suportaram os seus exageros. Também Juliana, eremita de Norwich, disse que Cristo era mãe, que nos gerava no seu sangue, e que as suas chagas eram a abertura da sua matriz. E João, o da Cruz, aquele frade pequenino, mourisco de Fontiveros, disse que quando à alma, estando enamorada, lhe falta o natural, infunde-se nela o divino, natural e sobrenaturalmente, para que não aconteça um vazio na natureza.

A Igreja é um jardim de surpresas onde germinam sementes antigas que não germinaram na sua altura, mas não morreram, e onde árvores de outrora são hoje lenha esquecida. A Igreja é maior que ela própria, mas não o sabe. Põe limites às suas possibilidades. Sempre o fez e continua a fazê-lo. Mas as sementes do Evangelho não sabem destas demarcações e por isso há Igreja para lá da Igreja, como há Evangelho para lá do texto e há Cristo a nascer em todo o coração desalojado de si mesmo.

O Cristo nascente está albergado em cada interior humano. Há sementes de divindade – o chamamento a viver a existência como plenitude do receber e do dar-se, tal como acontece no interior de Deus – espalhadas por toda a parte. Jesus de Nazaré veio despertar-nos e, desde então, estamos a amanhecer, apesar de tanto adormecimento nosso.

O Cristo Interior, de Javier Melloni
136 pág., Editorial AO

 

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