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autores - Phyllis Zagano (1)

Entre Margens

O custo do catolicismo seletivo

| 28/09/2025

 

O Presidente Donald Trump culpou os seus adversários políticos pelo assassinato do activista conservador Charlie Kirk, dizendo que “a violência política da esquerda radical feriu muitas pessoas inocentes e tirou muitas vidas”. E também disse: “Já é mais do que tempo de todos os americanos e os média enfrentarem o facto de que a violência e o assassinato são a consequência trágica de demonizar aqueles de quem se discorda dia após dia, ano após ano, da maneira mais odiosa e desprezível possível.”

As palavras de Trump são um bom lembrete de que odiamos nos outros o que mais odiamos em nós mesmos.

A morte violenta de Kirk, de 31 anos, um cristão evangélico, é uma tragédia inconfundível. O facto de isso criar mais uma oportunidade para o Presidente dos EUA culpar com raiva os membros do Partido Democrata e outros que ele rotula de “esquerda radical” encaixa-se bem na agenda dos comentadores católicos mais severos.

Tomemos, por exemplo, a CatholicVote.org, a organização política nominalmente católica fundada por Brian Burch, agora embaixador dos Estados Unidos no Vaticano, e Joshua Mercer, que permanece baseado em Wisconsin como apresentador do podcast da organização e editor do seu boletim informativo diário por e-mail, The LOOP.

Os escritores da CatholicVote fazem ouvir as suas vozes sobre várias questões católicas conhecidas – aborto, pornografia e investigação com células estaminais embrionárias – mas não parecem abraçar outros ensinamentos católicos.

Por exemplo, os oradores do recente vídeo LOOPcast culpam sarcasticamente o Black Lives Matter, o DEI [Diversidade, Igualdade, Inclusão, da sigla em inglês] e a fiança sem dinheiro pelo recente esfaqueamento de uma imigrante ucraniana na Carolina do Norte, enquanto designam os média tradicionais como malignos e apoiam as actividades de Elon Musk e Trump.

Paula White (à direita, de branco) e outros membros da Administração Trump numa oração pelo Presidente. Foto © White House

Membros da Administração Trump numa oração pelo Presidente, em fevereiro de 2025. Foto © White House

A direita católica concede pouca ou nenhuma atenção ao ensino social católico. A opção preferencial pelos pobres (incluindo imigrantes) e o cuidado com a criação não fazem parte da agenda. Enquanto alguns bispos católicos e outros clérigos acompanham imigrantes a audiências de imigração e outros lembram às suas comunidades os ensinamentos pontifícios sobre o ambiente, muitos católicos de direita descartam essas questões como “política radical de esquerda”.

É difícil entender como um interesse intenso pelas questões da vida não se estende às situações insustentáveis criadas pela destruição ambiental. O desrespeito pela vida do planeta cria, sem dúvida, situações das quais a direita política se queixa: imigração e ilegalidade criadas pela pobreza.

A doutrina social católica defende a dignidade da pessoa humana e, nesse sentido, coincide de forma mais óbvia com as questões da vida apresentadas pela direita católica. Mas a doutrina social católica também apoia o bem comum e a noção de solidariedade – ou seja, ensina que estamos todos juntos.

É difícil ver indivíduos ostensivamente religiosos e autoproclamados católicos apoiarem temas apresentados pelo presidente talvez mais irado e menos qualificado da história dos Estados Unidos, que ataca regularmente os princípios da doutrina católica, apesar de uma vez ter segurado uma Bíblia, virada ao contrário, ao apresentar as suas políticas.

A actual administração condena-se a si própria ao falar das centenas de milhares de indivíduos que agora procura algemar e deportar. Muitas pessoas viajaram centenas, até milhares de quilómetros porque estavam famintas e pobres, algumas temendo a violência onde quer que vivessem. Tal como os imigrantes antes delas, esperavam um futuro em liberdade. Legalidades à parte, são seres humanos.

Se é uma política de “esquerda radical” pedir que sejam tratados com dignidade e respeito, que assim seja. Mas palavras duras, comentários mordazes e uma atitude sarcástica em relação aos outros semeiam a violência que se espalha e torna-se uma realidade quotidiana.

 

Phyllis Zagano integrou a Comissão para o Estudo do Diaconado das Mulheres (em 2016-2018). É investigadora na Universidade de Hofstra, Hempstead, Nova Iorque, e o seu livro mais recente é Just Church: Catholic Social Teaching, Synodality, and Women (Paulist, 2023) [Igreja justa: ensino social católico, sinodalidade e mulheres]. Este texto foi inicialmente publicado em Religion News Service.

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