Hoje em dia vivemos atolados em discursos sobre “igualdade de oportunidades”. É um dos slogans preferidos de políticos em campanha, de CEOs em conferências, de influencers, e até de coachers que vendem cursos de “sucesso garantido”.
A meritocracia tornou-se num detergente universal, um lava-tudo: lava a consciência aos privilegiados e deixa o chão escorregadio para os restantes. E o grande problema é que esta meritocracia é mais ficção do que realidade. É como acreditar que todos jogam o mesmo jogo só que uns trazem um joystick dourado e os outros pegam nos comandos partidos.
Dizem-nos: “basta trabalhar com afinco”, mas quem já nasceu com a rede de contactos, a escola privada e a herança invisível, não precisa de trabalhar arduamente, basta não estragar.
Dizem-nos: “a oportunidade é uma porta aberta”, mas esquecem-se de mencionar que alguns nem sequer têm mapa para chegar à porta, outros encontram a porta com trancas e cadeados – preconceito, pobreza, género, etnia – e, depois, há os espertos que entram pela janela que já sabiam estar aberta e os sorridentes que levantam o tapete da entrada onde o pai ou a mãe já lhes deixaram a chave.
E a hipocrisia manifesta-se…Manifesta-se quando celebramos exceções como se fossem regra, utilizando-as como propaganda. É falar de liberdade de escolha quando muitos nunca tiveram sequer opções. É como exibir um bilhete de lotaria premiado para convencer os compradores de que num sorteio há justiça.
Pensemos num exemplo: um jovem que, contra todas as probabilidades, chega à universidade. O que fazemos? Transformamos o jovem num símbolo de esperança, como se fosse prova de que o sistema funciona, só que esse símbolo vem mascarar a realidade, pois a maioria continua sem acesso, sem mapa, sem porta, aliás, se temos necessidade de celebrar exceções, é porque a regra continua a ser a desigualdade.
A meritocracia funciona demasiadas vezes, e perigosamente, como máquina de culpabilização:
– Não consegues? Não tentaste o suficiente!
-Não tens sucesso? Se calhar é porque não tens talento!
É o discurso aligeirado e cruel a transformar vítimas em culpados e privilégios em virtudes, é como pedir a alguém que corra uma maratona com pedras nos sapatos e depois acusá-lo por não ter sido rápido.
No mundo empresarial, a palavra mérito é usada como selo de qualidade, mas por trás das promoções e dos prémios, há muitas vezes o velhinho truque: quem conhece quem, quem janta com quem, quem já nasceu no círculo certo. É o “mérito verniz” a (en)cobrir o nepotismo.
Enquanto confundirmos privilégio com mérito, estaremos a viver uma comédia de enganos. A meritocracia, tal como é vendida hoje, como se fosse um produto milagroso, é cinismo travestido de esperança e hipocrisia mascarada de justiça, é o detergente que promete limpar, mas só espalha espuma.
O futuro exige coragem para desmontar esta encenação e construir uma sociedade onde as oportunidades não são slogans. O futuro exige menos aplausos às exceções, menos medalhas e louvores e mais realidades tangíveis, acessíveis e universais.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










