
Cartaz a pedir o fim dos combustíveis fósseis na COP28, que decorreu no Dubai em Novembro de 2023. Foto © COP28 / Stuart Wilson
Uma noite de debate sobre “A Cimeira do Clima e nós”, nesta terça-feira, 12 de Novembro, e uma semana a “Despertar a manhã e a cidade cantando com a criação”, de 18 a 22 de Novembro – tais são as propostas do grupo Cuidar da Casa Comum em Santa Isabel, a propósito da COP29 sobre o clima, que nesta segunda-feira se iniciou em Bacu (Azerbaijão).
Às 21h deste dia 12, no Resvés (R. Saraiva de Carvalho 1C), em Campo de Ourique (Lisboa), Francisco Ferreira (presidente da Zero) e Maria Ressano Garcia (da comunidade Casa Velha – Ecologia e Espiritualidade) irão debater o que se pode esperar da Cimeira do Clima (COP29) que se prolonga até ao dia 24.
Sabe-se já que vários líderes mundiais decisivos para a questão do clima não estarão na Cimeira de Bacu. É o caso da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o chanceler alemão Olaf Scholz, os presidentes dos EUA Joe Biden, da Rússia, e do Brasil, Lula da Silva, este último a recuperar de um traumatismo. Luís Montenegro também não estará no Azerbaijão, o que significa que pela primeira vez desde 2015, o primeiro-ministro português não irá à cimeira ambiental.
“Como podemos fazer para que nela os governantes de todo o mundo tomem decisões concretas para salvar o planeta e defender a vida? Como viver procurando cuidar da Casa Comum e reforçar a fraternidade humana?”, perguntam os organizadores do debate, tentarão responder os intervenientes.
Será uma “conversa aberta” sobre aquelas e outras questões relacionadas com as alterações climáticas, na iniciativa proposta pelo grupo Cuidar da Casa Comum em Santa Isabel.
Como pano de fundo para a conversa, estarão os mais recentes relatórios sobre o aquecimento global do planeta, que “mostram serem necessárias decisões arrojadas” para manter o aumento do nível médio da temperatura do planeta no máximo de 1,5º em relação à era pré-industrial. Também serão referência os pronunciamentos do Papa Francisco a pedir compromissos “eficientes, vinculativos e facilmente monitoráveis” em “quatro áreas: a eficiência energética; as fontes de energia renováveis; a eliminação dos combustíveis fósseis; e a educação para estilos de vida menos dependentes destes últimos”.
A partir de dia 18 (segunda-feira da próxima semana), no adro da Igreja de Santa Isabel, a proposta é ouvir às 7h30 de cada manhã, até dia 22, o Cântico das Criaturas cantado por João Maria Carvalho.
Todos os dias “despertaremos a manhã e a cidade louvando com a Criação, cantando a nossa proximidade e dependência de todas as criaturas”, propõe ainda o grupo Cuidar da Casa Comum, em associação com a Casa Velha.
“Queremos reforçar a nossa convicção de quanto temos de alterar, pessoal e coletivamente, para salvar o planeta, defender a vida e a biodiversidade e responder de forma consistente ao clamor dos mais vulneráveis.”
Por isso se irá cantar: “Porque acreditamos que uma outra forma de estar sobre a Terra – mais justa, mais fraterna – é possível. Cantamos por todos aqueles a quem foi tirado o direito a cantar. Enquanto tudo o que existe não puder louvar, não deixaremos de o fazer.”
Apelos do Papa, bispos, Conselho Mundial e organizações católicas
Foram várias as entidades religiosas a pronunciar-se sobre a cimeira nos últimos dias. No domingo, perante os fiéis reunidos na Praça de São Pedro, em Roma, após a recitação do Ângelus o Papa Francisco afirmou que esperava “um contributo eficaz” da cimeira para proteger a “nossa casa comum”.
O Conselho Mundial de Igrejas (CMI) promete pelo seu lado levar “uma forte voz moral à COP29”, diz um comunicado da organização que junta 350 igrejas e comunidades protestantes e ortodoxas. “Neste encontro crucial, o CMI defenderá uma ação climática centrada na justiça, apelando a um financiamento climático significativo, à proteção das comunidades mais afectadas pelas alterações climáticas e a uma rápida transição para longe dos combustíveis fósseis.
Jerry Pillay, secretário-geral do CMI, afirmou a propósito: “Como pessoas de fé, acreditamos que enfrentar a crise climática não é apenas uma necessidade científica, mas uma profunda obrigação moral enraizada nos valores cristãos de justiça e compaixão. Instamos as nações desenvolvidas a liderar pelo exemplo, reconhecendo sua responsabilidade histórica e apoiando uma resposta global que atenda às necessidades dos mais vulneráveis, honrando a criação de Deus e mantendo o nosso compromisso de cuidar uns dos outros.”
O CMI, diz uma nota do serviço informativo do Conselho, irá pedir que os países mais desenvolvidos reduzam drasticamente as emissões de combustíveis fósseis e aumentem o financiamento climático para ajudar as regiões que enfrentam os mais graves impactos climáticos, particularmente as que têm menos recursos. E também quer que os líderes mundiais abordem impactos não económicos das alterações climáticas, como a perda cultural e o trauma, que afetam profundamente os povos indígenas e outras comunidades vulneráveis.
Na abertura da assembleia plenária do episcopado, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) referiu-se também à cimeira. Recordando a “tremenda tempestade” de há duas semanas na região de Valência (Espanha), o também bispo de Leiria-Fátima referiu “os ataques ao equilíbrio ecológico”, que trazem cada vez maior frequência e força destruidora dos desastres naturais, com “níveis que fazem temer a irreversibilidade dos danos”.
“Perante este quadro assustador, a comunidade internacional parece cada vez mais frágil e incapaz de deter as armas e interesses corporativos, para encontrar solução para os conflitos e para o negacionismo cego da situação crítica da Terra”, afirmou o bispo José Ornelas. “A frequência e dramaticidade deste séquito de morte parece ter deixado de nos emocionar, revoltar e exigir justiça e esforços reais de paz e humanismo, incapazes de dizer ‘basta!’”, acrescentou, prometendo que os bispos irão estudar “modos concretos” de “ir ao encontro de quem tanto está a sofrer”.
“Uma oportunidade para os líderes serem mais ambiciosos”

Ana Cordovil, Todos e cada um.
Também a Fundação Evangelização e Culturas (FEC) considera a cimeira como “a oportunidade que os líderes mundiais têm para assumir compromissos mais ambiciosos no combate às alterações climáticas”. A relação da ação climática com a redução da pobreza e o desenvolvimento sustentável e inclusivo, com a melhoria das condições de vida, o trabalho digno, a equidade e coesão social e os direitos humanos é também destacada por esta organização católica de cooperação, filiada na CIDSE, Cooperação Internacional para o Desenvolvimento e a Solidariedade, uma rede internacional de organizações católicas de justiça social.
Justiça ambiental e justiça social devem andar de mãos dadas, diz a FEC numa nota à imprensa sobre a COP29, na qual enumera algumas recomendações: a eliminação urgente dos combustíveis fósseis e a aceleração de “uma transição energética justa para energias renováveis, que contrarie a “realidade das políticas e práticas” ainda incoerentes com o caminho já definido; a concretização do Fundo Perdas e Danos destinado aos países mais vulneráveis; e a eliminação de práticas incoerentes com os objetivos que se pretendem atingir. A CIDSE acrescenta ainda, de acordo com o documento citado antes, “a importância da definição de uma ambiciosa Nova Meta Quantificada Coletiva de Financiamento Climático, que seja suficiente para enfrentar a escala e a urgência da crise climática”.
Mas a esperança do Papa e os desejos e apelos de muitas organizações religiosas não são partilhados por muitos. Não apenas porque a Cimeira do Clima terá lugar (pela segunda vez consecutiva) num país (Azerbaijão) que vive das exportações de petróleo, nem por causa da ausência da quase totalidade dos chefes de Estado e primeiros-ministros das nações mais responsáveis pelas alterações climáticas, mas sobretudo pela recente eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos da América.
“Não nos vamos preocupar mais com as emissões” de gases com efeito de estufa, disse Myron Ebell, ex-membro do Competitive Enterprise Institute, uma organização que liderou a formação da equipa de transição no primeiro mandato de Trump. Citado pelo New York Times nesta segunda-feira, 11 de novembro, Ebell, que terá de novo peso nas escolhas do Presidente eleito, acrescentou: “Os Estados Unidos, sob a administração Trump, conduzirão o mundo a um futuro melhor e quanto mais cedo esquecermos toda esta conversa sobre a redução de emissões, melhor.”
Entretanto, já à noite (hora de Lisboa), soube-se que Trump nomeou Lee Zeldin, um dos seus amigos mais próximos e antigo representante do Estado de Nova Iorque, para dirigir a Agência de Proteção Ambiental (EPA). “Vai garantir que são tomadas decisões de desregulação rápidas e justas que impulsionarão a força das empresas americanas, mantendo ao mesmo tempo os mais elevados padrões ambientais”, justificou o futuro Presidente republicano, de acordo com a Lusa, citada pela TSF.
O país mais rico do mundo não colabora

Horizontes fechados, para já, na cimeira de Bacu. Foto © WCC-CMI
A afirmação e a decisão traduzem de forma liminar aquilo que se pode esperar da política interna e da diplomacia dos EUA após janeiro de 2025: negacionismo das alterações climáticas; defesa da indústria petrolífera; criação de novos apoios para a exploração e queima de carvão; denúncia e abandono da convenção saída dos acordos de Paris; deixar cair quaisquer referências e ações de luta contra a crise climática; opção por se desvincular do financiamento aos países mais pobres a título de indemnização por causa de perdas e danos originados pelas alterações resultantes da poluição dos países mais ricos.
Para se ter uma ideia sobre a importância e o impacte desta inversão de políticas basta recordar que os EUA são o país mais rico do mundo, aquele que emite maior quantidade de gases com efeito de estufa e o maior exportador de combustíveis fósseis (gás, petróleo e dos produtos seus derivados).
Vista como “a COP das finanças”, por tentar responder à questão de como financiar as ações necessárias para aumentar drasticamente as ambições de controlo das alterações climáticas por parte de todos os países, a cimeira não pode contar com os EUA para ajudar a desbloquear os milhares de milhões de dólares para desenvolver as energias limpas e a adaptação climática. De resto, e como já aconteceu nos quatro anos da primeira administração Trump, a credibilidade dos EUA como parceiro fiável na luta contra as alterações climáticas está condenada a regressar ao grau zero absoluto.
A pergunta pessimista que muitos fazem é, portanto, para que servirá a cimeira de Bacu.











