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autores - Margarida Rocha e Melo

[Entre Margens]

O «denominador comum» e o caminho espiritual de Einstein

 

O «denominador comum» é um número múltiplo comum aos denominadores de duas ou mais frações, utilizado para igualá-los, facilitando operações de adição, subtração e comparação. A minha referência à matemática irá mesmo ficar por aqui, mas, esta expressão «denominador comum» é algo de que me tenho socorrido diversas vezes quando quero falar daquilo que, para mim, são as diversas religiões, práticas e denominações que os povos foram desenvolvendo ao longo dos séculos e aquela que é a essência inominável por trás de todas elas.

Estou a ler uma obra fascinante, ainda não traduzida para português, que, sob o título I Am a Part of Infinity: The Spiritual Journey of Albert Einstein (“Sou parte do infinito: o caminho espiritual de Albert Einstein”) relata o percurso vivido por Albert Einstein no que se refere à espiritualidade.

“Nesta obra, o autor, Kieran Fox, explica que Einstein via o desenvolvimento espiritual dos seres humanos em três tipos (ou fases) de religião ou conhecimento religioso, baseando-se, especialmente, num ensaio de Einstein de 1930 intitulado Religion and Science.”

Nesta obra, o autor, Kieran Fox, explica que Einstein via o desenvolvimento espiritual dos seres humanos em três tipos (ou fases) de religião ou conhecimento religioso, baseando-se, especialmente, num ensaio de Einstein de 1930 intitulado Religion and Science.

A primeira fase, seria – ou teria sido – a religião do medo. Esta seria a forma mais antiga e primitiva de religião, que surgiu como resposta ao medo humano diante de forças naturais poderosas e inexplicáveis. Os seres humanos projetavam espíritos ou deuses temíveis para explicar esses perigos e buscavam apaziguá-los por meio de rituais e sacrifícios.

A segunda fase corresponderia à religião moral. Esta segunda fase desenvolve-se com religiões históricas que enfatizam normas éticas, a ideia de um Deus pessoal que recompensa e pune, e a vida moral organizacional. É o tipo de religião que predomina nas tradições religiosas institucionais conhecidas (como judaísmo, cristianismo, islão, etc.).

A terceira fase corresponderia a uma religião cósmica. Para Einstein, esta seria a forma mais elevada de prática ou crença religiosa. Não se baseando no medo nem numa divindade pessoal, mas num sentimento de reverência diante da ordem, harmonia e imensidão do universo, num sentido de conexão profunda com o cosmos. Esta “religião cósmica” não depende de dogmas, rituais ou autoridade religiosa, mas surge do assombro pela realidade e do desejo de compreendê-la como um todo unificado.

Essas três fases – medo, moral e cósmica – representam a trajetória que Einstein via como o percurso espiritual da humanidade e o tipo de religiosidade que ele próprio mais valorizava: a reverência cósmica pela ordem racional do universo.

Por vezes e, repito, ainda que atravessando tantas tormentas e dificuldades – o Buda chamou a este nosso estádio existencial o reino do Samsara, não por acaso – por vezes, dizia, vejo vislumbres desta era. Uma era em que o espanto pela maravilha da terra e pelas maravilhas que o ser humano pode criar, nos eleva o olhar, precisamente para o cosmos e o universo que nos rodeia e, em simultâneo, para o aqui e agora, e que nos deixa observar como a água corre igual a refrescar uns e outros qualquer que seja o nome que lhe chamemos; que a terra que pisamos por baixo dos nossos pés é a mesma, quaisquer que sejam os mapas que lhe risquemos por cima; que o carinho, o amor e a compaixão são nomes para estádios emocionais e espirituais e que, esses, sim quando vividos genuinamente, são universais e nos levam a abandonar os muros que erigimos por causa das denominações; um espanto que nos leva a concluir que as denominações não são mais que caminhos para algo tão maior que nós, que é inominável, e que é, afinal, o nosso denominador comum.

“A terceira fase corresponderia a uma religião cósmica. Para Einstein, esta seria a forma mais elevada de prática ou crença religiosa.” Foto © Miriam Espacio / pexels

 

Margarida Rocha e Melo é jornalista agora dedicada ao ensino; budista, mantém o respeito pela sua herança cristã, esperando poder contribuir para o encontro de religiões, de mentes e de seres humanos.

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