O descanso como princípio de eternidade

| 12 Jul 2023

“Ficar assim, só a ser, ir calando aos poucos as vozes interiores, a avalanche de emoções, as feridas das memórias, das imaginações e de algumas realidades. Ficar só assim, a ser visto por Deus e a reconhecê-lo primeiro na criação e depois (assombrosamente) em nós mesmos.” Foto © Alex Seinet / Unsplash

 

A época revela-nos o cansaço, próprio e alheio. O cansaço da rotina, de todos os pesos que levamos sem nos apercebermos e sem questionarmos, e que, a dada altura, são tão pesados que nos fazem doer os ossos e a alma. “Vinde aqui e descansai um pouco” (Marcos 6, 31), diz Jesus.

Descansar um pouco, na linguagem de Deus, significa largar tudo, até as provisões mais básicas que nos sustentam a existência. Segui-Lo para descansar implica esse desprendimento de rigorosamente tudo, da obrigação mais pequena ao pensamento mais elaborado. Descansar para contemplar implica a simplicidade da criatura mais simples e mais desvalida, a quem Deus sustenta como a nós: “valeis muito mais do que muitos passarinhos”! (Mateus 10,31)

Trata-se de deixar também o mundo interior das impressões, conjeturas, análises, leituras, formas de ver a vida e formas de ver Deus, para apenas O encontrar em toda a existência à nossa volta. E perceber devagar essa bondade infinita que tudo sustenta e que se traduz num hino imenso à Sua glória, lamentavelmente invisível para nós, habitualmente perdidos no emaranhado interior que nos cega.

Ficar assim, só a ser, ir calando aos poucos as vozes interiores, a avalanche de emoções, as feridas das memórias, das imaginações e de algumas realidades. Ficar só assim, a ser visto por Deus e a reconhecê-lo primeiro na criação e depois (assombrosamente) em nós mesmos.

O reconhecimento de Deus em nós mesmos faz-nos chorar. Esse é o lugar do apaziguamento, da voz de Deus que nos abraça e nos confirma o seu amor, que é desde sempre e para sempre (Salmo 103), e nos sussurra: “Tu és meu” (Sl 2)! Não compramos o amor de Deus, e Ele não se compraz nos nossos méritos, compraz-se, sim, na nossa confiança, baseada precisamente na nossa incapacidade e não no nosso poder. Esquecemos com demasiada ligeireza que Ele nos amou “quando ainda éramos pecadores” (Carta aos Romanos 5,8). Não é a condição de pecadores que nos afasta de Deus. O que nos afasta de Deus é acharmos que podemos por nós mesmos alguma coisa, e que, com os nossos esforços, merecemos e compramos a nossa redenção.

Descansar, descer, largar, perceber em nós esse Deus infinito feito de amor desmonta todas as nossas conceções de religião e de vida. De educação. De trabalho, de mérito, de graça. Tudo é graça. Vermo-nos como a mais pequena criatura, como o mais pequeno girino que circula nos lagos ou a mais pequena cana agitada ao vento é o mais próximo da nossa real condição de criaturas, cuja única condição justa e bem-aventurada é o louvor do seu Deus.

Descansar é deixar correr as lágrimas no abraço de Deus, devagar ou em torrente, deixando ir tudo de nós. Aos gemidos interiores por todos os equívocos com que nos sobrecarregamos, enganados de ver neles supostas vontades de Deus, responde Ele com um abraço ainda mais longo. Tudo é restaurado, o passado esquecido, o caminho é limpo, a alma expurgada.

“Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada” (Lc 10, 38-42). Capitular diante de nós mesmos, tão voluntariosos e determinados, ou tão anónimos e mecanizados, para ficarmos assim, como Maria, esbugalhados diante de Deus, da Criação, dos outros e de nós mesmos. Numa contemplação que não devia terminar nunca, num rasto justo e que nos conduz ao Único que importa e ao Único que basta.

Bom descanso.

 

Dina Matos Ferreira é consultora e docente universitária. Contacto: dina.matosferreira@gmail.com

 

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