Na última quarta-feira, 26 de Janeiro, o Desconcerto, espectáculo em cena no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, até este domingo à noite, teve a participação do padre Patrício Oliveira, pároco da Marinha Grande que, chamado ao palco, interagiu com César Mourão e os músicos intervenientes: António Zambujo, Luísa Sobral e Miguel Araújo. O 7MARGENS pediu ao padre Patrício uma reflexão sobre este episódio, que a seguir se publica.

O padre Patrício Oliveira no palco do Desconcerto: “Vim com a certeza crescente que devo arranjar forma de me cruzar mais no palco das vidas dos que me são confiados.” Foto © Pedro Barbosa, cedida pelo autor.
A prenda deste Natal veio uns meses adiantada, com a promessa de cuidar da minha saúde mental e de me permitir distrair e ter um serão sem preocupações e pensamentos pastorais – foi a condição para a oferta de bilhete para o Desconcerto de Janeiro de 2022. Fã dos músicos, não me foi difícil aceitar, mesmo sem estar muito certo do conceito; a perspetiva de música boa ao vivo e um serão diferente foram suficientes para me levarem ao Coliseu dos Recreios.
E de facto, o César Mourão prometeu e cumpriu: um belíssimo serão e uma demonstração admirável da cultura que temos hoje em dia ao nosso dispor. Para o último momento era necessário um voluntário: homem e solteiro. Não seriam muitos pois, ao contrário do resto da noite, não havia mãos no ar. De tão descontraído e sorridente, levantei a mão sem pensar que me podia calhar. Fui chamado. Só quando cheguei ao palco, e chamam uma solteira, é que me ocorreu que talvez tivesse sido má ideia. O exercício de improviso implicava recolher informação de dois estranhos e criar uma música de amor inspirada em dois estranhos.
Pensei imediatamente: “Como é que eu explico ao César Mourão que sou padre?” Ocorreu-me desistir e explicar que não tinha o perfil adequado para aquele momento. Mas ao mesmo tempo pensei: “Não senhor, é improviso, vamos ver como é que se podem desenvencilhar desta.” Ocorreram-me também as notícias dos escândalos e que me estava a sujeitar a ser cilindrado à frente de 3000 pessoas e ter que me rir.
Do fundo do coração, uma voz tímida dizia que era bom que vissem que há um lado diferente e que havia ali uma oportunidade de um testemunho positivo e bem-disposto.
A oportunidade de associar o padre à piada fácil das criancinhas veio imediatamente. Tremi. Vi os protagonistas tremerem perante a oportunidade óbvia, mas fácil. Optaram por ser elegantes e passaram adiante. Manifestaram ainda resquícios de uma deferência diante do clero, que, penso agora, será mais derivada da falta de contacto com padres.
Ao mesmo tempo, por mero acaso, o serão tinha trazido algumas referências cristãs: a fila da comunhão, o funeral de alguém próximo, uma familiaridade que convive com a ideia de que isso “era antes, quando eramos miúdos, agora já não faz sentido”.
Agora que penso neste episódio, ainda a receber comentários muito inesperados, penso no quão estranho é tantas pessoas nunca terem falado com ou conhecerem um padre. Penso no desafio do Papa Francisco de pastores com cheiro a ovelha e no quanto falta fazer nesse sentido. É bem mais fácil uma postura mais institucional ou atarefada de corre-corre entre missas, que não nos permite estar, apenas estar, com as pessoas. Ouvir, perceber o que pensam, como pensam, como falam e como vêem realidades que para nós são tão óbvias e básicas que nos fazem cair no erro de presumir que todos sabem perfeitamente do que estamos a falar.
Aquela surpresa em palco não foi só pelo facto de ser difícil fazer uma história de amor com um celibatário; virá também da surpresa de ser um padre. Imagino que talvez estivéssemos os dois na mesma situação: diante de alguém que só vemos ao longe ou na televisão ou atrás de um altar, mas que na verdade parece viver num mundo diferente do nosso e, por isso mesmo, não é como eu, não tem nada que ver comigo.
Não deixo de pensar que grande parte do problema, que faz com que a Igreja aparente ser cada vez mais desfasada do mundo, seja em boa parte um problema de comunicação. Cheirar a ovelha, falar como ovelha e aprender a ver o mundo como ovelha em ordem a sermos capazes de uma linguagem que traduza os valores e a visão do Evangelho de uma forma que seja realmente compreensível e que faça a diferença na vida de quem a escuta.
Esta experiência de 12 minutos com os “famosos” faz-me pensar que afinal não somos tão diferentes quanto pensamos; que a Igreja vivendo no mundo, mas não sendo do mundo, está talvez desencontrada. Tão desencontrada quanto me sinto muitas vezes diante dos nossos adolescentes, teimando dar respostas a perguntas que eles não colocam, pelo que contorcionismo metodológico algum nos faz chegar a eles.
Penso na simplicidade das parábolas de Jesus, que falavam de pastores e trigo, penso na Samaritana e no encontro com Jesus no poço, casual e tão oportuno para conhecer o outro, uma oportunidade que cria uma ponte entre duas pessoas que permite acolher o Outro e a partir daí, criar espaço para construir o reino como nos foi pedido.
Vim com a certeza crescente que devo arranjar forma de me cruzar mais no palco das vidas dos que me são confiados.
Patrício Oliveira é padre católico e pároco da Marinha Grande (Leiria-Fátima)