O desespero dos homossexuais atacados e o vídeo que impressionou Rick Foster

| 3 Out 19 | Cristianismo - Homepage, Igreja Católica, Newsletter, Últimas

Rick Foster, fotografado no Parque das Nações, em Lisboa, nos últimos dias de Setembro. Foto © Guilherme Lopes/7M

 

Rick Foster, jornalista e advogado norte-americano, recorda-se bem do que o levou a envolver-se neste trabalho: “Um dia, eu estava online e vi um vídeo, antes de ter sido removido do Facebook, que mostrava um transsexual de 17 anos a ser despido e atacado nas ruas de um país africano. Isso afetou-me.” Ficou a pensar se haveria uma forma de encontrar aquela pessoa. “Queria ter a certeza que ele ou ela estava viva e bem, e comecei a pesquisar em que parte de África o episódio tinha acontecido. Fiquei abalado quando percebi que estes incidentes acontecem em todo o continente.”

Com essa descoberta, há mais de seis anos, Foster passou a dedicar parte do seu tempo a encontrar testemunhos de casos do género e a enviar mensagens de encorajamento às vítimas desses ataques. Passou a corresponder-se, através da Internet, com algumas pessoas, descobrindo o desespero daquelas situações. Vários deles, exemplifica, eram queimados ou esfaqueados pelos familiares. Estes casos foram especialmente frequentes no Uganda durante a vigência da lei de 2014 que admitia a morte dos gays (lei que seria considerada inválida pelo Supremo Tribunal, meses depois de ter entrado em vigor) e que obrigava cada pessoa a relatar às autoridades atividades homossexuais.”

Desde então, Rick Foster, que se assume como católico, tem-se dedicado sobretudo à defesa dos direitos de refugiados da comunidade LGBT que querem sair dos seus países, nomeadamente africanos e asiáticos. De passagem por Lisboa, falou ao 7MARGENS sobre as suas motivações.

 

“Tenho muito orgulho em ser católico gay”

“Tenho muito orgulho em ser católico gay. Todos nós temos o direito de falar sobre esta questão”, afirma, em jeito de apresentação. Foster tem esperança de que a Igreja Católica venha a ser mais aberta, inclusiva e acolhedora. Já trocou correspondência com o Papa Francisco, diz, e isso tem levado a mudanças positivas nas mensagens do Papa. “Contudo, o ambiente político no Vaticano não está completamente de acordo com a mensagem” de Francisco, afirma.

Sobre o modo como a homossexualidade é vista na Bíblia, Foster diz que esses textos “foram escritos num tempo em que eram necessários ou usados.” Mas argumenta que, com o passar do tempo, muito do que foi escrito na Bíblia foi “mal interpretado e adulterado”, de forma a refletir uma agenda, como aconteceu no Uganda: quando os primeiros colonos ingleses chegaram ao território, ficaram perturbados com as pessoas que tinham relações sexuais com homens e mulheres. Foi nesse contexto que os colonos elaboraram as primeiras leis anti-sodomia.

O resultado dessas medidas, afirma, tornaram o país numa sociedade “esquizofrénica”, que não consegue aceitar a existência de homossexuais. “Hoje em dia, grupos evangelistas chegam do Reino Unido e promovem a matança de pessoas homossexuais, só para cumprir a sua agenda. Não sei ao ponto a que isto pode chegar, mas sei que a mudança é possível desde que haja um mudança de mentalidades.”

Rick Foster afirma que não tem nenhuma organização por detrás e prefere trabalhar por conta própria. Depois de ter tido contactos com várias organizações internacionais de direitos humanos, sente que ainda está muito por fazer, pois por vezes, nessas mesmas instituições ainda há preconceitos homofóbicos.

 

O telefonema do Papa a James Alison

James Alison. Foto © Religion Digital

 

O ativista norte-americano falou ao 7MARGENS poucos dias antes de ter sido conhecido o teor do telefonema que, há dois anos, o Papa Francisco fez ao padre católico e homossexual James Alison, a quem a Congregação para o Clero tinha obrigado à laicização forçada. O próprio contou detalhadamente como, a 2 de julho de 2017, recebeu uma chamada por volta das 15h em Roma (menos uma em Lisboa). O Papa identificou-se e disse-lhe: “Quero que caminhes com plena liberdade interior, continuando no espírito de Jesus. E dou-te o poder das chaves, entendes? Dou-te o poder das chaves.” Francisco prontificou-se depois a procurar o seu dossiê, como conta Alison no Religion Digital.

Também na segunda-feira passada, como o 7MARGENS contou, o Papa recebeu o padre James Martin, que acompanha a causa LGBT e que é autor do livro  Building a Bridge (Construindo uma ponte) sobre como pode a Igreja Católica aproximar-se das pessoas homossexuais. Na audiência, o Papa animou Martin a continuar o seu trabalho junto desses grupos.

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Colóquio internacional Teotopias – Sophia, “Trazida ao espanto da luz” @ Univ. Católica Portuguesa - Polo do Porto
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Fundacional para a percepção e expressão do mistério, a linguagem poética é lugar de uma articulação paradoxal, nada acrescentando à representação descritiva do mundo [Ricoeur]. Encontrando-se o positivismo teológico em crise, paradigma que sempre cedeu demasiado à obsessão pela verdade, tem-se vindo a notar um crescente interesse pelo estudo teológico de produções literárias como lugares de redenção da linguagem referencial, própria do discurso tradicional da teologia. Na sua performatividade quase litúrgica, a linguagem poética aproxima o objecto do discurso teológico do seu eixo verdadeiramente referencial: “a transluminosa treva do Silêncio” [Pseudo-Dionísio Areopagita].

Cátedra Poesia e Transcendência | Sophia de Mello Breyner [UCP Porto], em parceria com a Faculdade de Teologia e o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, organiza um congresso no âmbito das hermenêuticas do religioso no espaço literário, com especial incidência sobre a sua dimensão poética.
O colóquio terá lugar na Universidade Católica Portuguesa | Porto, nos dias 8 e 9 de novembro de 2019, e dará particular atenção aos seguintes eixos temáticos: linguagem poética e linguagem teológica: continuidades e descontinuidades; linguagem poética e linguagem mística: inter[con]textualidades; linguagem poética e sagrado: aproximações estético-fenomenológicas.

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