O Desporto ao serviço do desenvolvimento e da paz

| 4 Abr 2022

Nelson Mandela em Joanesburgo, Gauteng, a 13 de maio de 2008. Foto © South Africa The Good News

Nelson Mandela em Joanesburgo, Gauteng, a 13 de maio de 2008. Foto © South Africa The Good News

 

Tocados pela guerra da Ucrânia, vivemos numa época de incertezas e de apelo à paz. Já percebemos que mesmo estando longe, esta guerra toca-nos e condiciona as nossas vidas. Sentimos, e percebemos, que só valorizamos um bem, ou um valor, quando estamos privados de o “saborearmos”. Em abril de 2022 esse valor chama-se paz! E é com o maior sentido que no dia 6 de abril se assinala o Dia Internacional do Desporto ao Serviço do Desenvolvimento e da Paz. Esta data foi escolhida pelas Nações Unidas, sinalizando o dia de início dos jogos olímpicos da era moderna, em Atenas, no ano de 1896, no sentido de valorizar o desporto como promotor da paz.

Mas o desporto pode promover o desenvolvimento e a paz?

Ao longo dos tempos, o desporto deu uma resposta positiva a esta pergunta. Na sua essência, o desporto exercita um conjunto de valores que quando bem orientados levam ao desenvolvimento da pessoa. No desporto, e pelo desporto, a pessoa desenvolve um conjunto de competências únicas quer na prática desportiva, quer no transfer para a vida quotidiana, e que leva à sua realização e desenvolvimento: o saber lidar com a derrota e a vitória; o autocontrole; o relacionar-se e trabalhar em equipa; ou a responsabilização. Mas o desporto é também uma atividade humana que anula as diferenças e pode anular os conflitos, a história revela-nos diversos casos.

Na Antiguidade grega, a “trégua olímpica” trazia consigo um período de paz, interrompendo a guerra entre as cidades que iriam participar nos jogos olímpicos. Outro belo exemplo ficou conhecido como a “trégua de Natal” e teve lugar, durante a Grande Guerra 1914-1918, no Natal de 1914, quando os soldados britânicos e alemães, em lados opostos das trincheiras, decidiram celebrar aquele dia de Natal com o um jogo de futebol. Nos anos noventa, o desporto provou que pode derrubar barreiras humanas provocadas pelo racismo ou intolerância. Foi no verão de 1995, no Campeonato do Mundo de Rugby realizado na África do Sul que Nelson Mandela, ciente do poder de segregação racial – apartheid – existente no seu país, “utilizou” um outro grande poder que é o desporto, neste caso o rugby, para promover a união daquele povo. Tendo afirmado: “O desporto tem o poder de mudar o mundo. Ele tem o poder de unir os povos de uma forma que poucas outras coisas conseguem. O desporto pode criar esperança onde antes havia apenas desespero.” Esta façanha deu lugar a um grande filme chamado Invictus. Mas esta virtude do desporto não fica por aqui. Em 2018, celebraram-se os Jogos Olímpicos de Inverno em PyeongChang na Coreia do Sul, estando as duas Coreias de relações cortadas, existindo uma tensão constante e falta de diálogo, nada melhor que o desporto para abrir canais de diálogo e de união entre os dois países. A Coreia do Norte decidiu participar nesses jogos com uma delegação encabeçada pela irmã de Kim Jong-Un e o mais interessante é ter sido criada uma única equipa feminina de hóquei em gelo com atletas das duas Coreias. Este desanuviamento levou a que se realizasse, nesse mesmo ano, o primeiro encontro entre os dois líderes das duas Coreias.

Também nesse ano e já com a guerra instalada na Ucrânia, na zona do Donbass, deu-se um episódio em que o desporto promoveu a união entre adversários, envolvendo o treinador português Paulo Fonseca, que na altura orientava o Shakhtar Donetsk. A equipa de Paulo Fonseca disputava a Liga dos Campeões contra o Lyon de França mas por causa da guerra não podia utilizar o seu estádio. Eis que, para surpresa de muitos, o clube rival do Donetsk, o Dínamo de Kiev, ofereceu o seu estádio para se realizar esse jogo. Este gesto levou Paulo Fonseca a elogiar o seu rival ao afirmar: “A Ucrânia demonstra que o futebol é um espaço de paz… Não posso deixar de ficar extremamente sensibilizado e de dizer que, na Ucrânia, estamos a dar um exemplo de paz ao mundo.”

Todos estes acontecimentos revelam o porquê de se celebrar o desporto como promotor do desenvolvimento e da paz. Os valores e a sua linguagem são universais e, por isso mesmo, facilitadores na criação de pontes tendo em vista a paz!

Nesta quarta-feira, dia 6, às 18h assinalando o Dia Mundial, a área de Ciências das Religiões da Universidade Lusófona promove em Lisboa (Sala S.0.11) um debate sobre “O desporto e o diálogo inter-religioso na promoção da paz”, com a participação de José Lima (coordenador nacional do PNED), José Maria Brito (padre jesuíta), Nuno Delgado (judoca), João Pedro Robalo (pastor evangélico), Joaquim Moreira (Igreja dos Santos dos Últimos Dias), David Ruah e Filipe Luís Casanova (professores).

José Lima é coordenador do Plano Nacional de Ética no Desporto

 

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal

Intervenção de Borges de Pinho na CEP

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal novidade

Há quem continue a pensar que sinodalidade é mais uma “palavra de moda”, que perderá a sua relevância com o tempo. Esquece-se, porventura, que já há décadas falamos repetidamente de comunhão, corresponsabilidade e participação. Sobretudo, ignoram-se os princípios fundacionais e fundantes da Igreja e os critérios que daí decorrem para o ser cristão e a vida eclesial.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

De 1 a 31 de Julho

Helpo promove oficina de voluntariado internacional

  Encerram nesta sexta-feira, 24 de Junho, as inscrições para a Oficina de Voluntariado Internacional da Helpo, que decorre entre 1 e 3 de Julho. A iniciativa é aberta a quem se pretenda candidatar ao Programa de Voluntariado da Organização Não Governamental para...

António Vaz Pinto (1942-2022): o padre dinamizador

Jesuíta morreu aos 80 anos

António Vaz Pinto (1942-2022): o padre dinamizador

Por onde passou lançava projectos, dinamizava equipas, deixava-as a seguir para partir para outras aventuras, sempre com a mesma atitude. Poucos dias antes de completar 80 anos, no passado dia 2 de Junho, dizia na que seria a última entrevista que, se morresse daí a dias, morreria “de papo cheio”. Assim foi: o padre jesuíta António Vaz Pinto, nascido em 1942 em Arouca, 11º de 12 irmãos, morreu nesta sexta-feira, 1 de Julho, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde estava internado desde o dia 8, na sequência de um tumor pulmonar que foi diagnosticado nessa altura.

Abusos sexuais: “Senti que não acreditavam em mim”

Testemunho de uma mulher vítima

Abusos sexuais: “Senti que não acreditavam em mim”

Na conferência de imprensa da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, que decorreu quinta-feira, 30 de junho, em Lisboa, foram lidos três testemunhos de vítimas de abusos, cujo anonimato foi mantido. Num dos casos, uma mulher de 50 anos fala do trauma que os abusos sofridos lhe deixaram e de como decidiu contar a sua história a um bispo, sentindo ainda assim que a sua versão não era plenamente aceite como verdadeira.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This