Há na Bíblia dois episódios sobre o carácter de Deus que envolvem um milagre linguístico. Separados por mais de dois milénios, revelam algo de extraordinariamente coerente sobre o Deus de que as Escrituras falam.
Babel: a confusão como ato de misericórdia
A narrativa da Torre de Babel é quase sempre lida como um castigo. Mas o texto bíblico convida a uma leitura mais atenta. O projeto de Babel não era apenas arquitetónico – era político, totalitário. Ninrode (Génesis 10:8-10) liderava um projeto de unificação coerciva: uma só língua, uma só liderança, um só destino imposto a todos.
Deus não confundiu as línguas por mero capricho. Deus libertou os povos de um jugo de poder.
A dispersão foi um ato de misericórdia disfarçado de caos. Ao multiplicar as línguas, o Criador tornou impossível a concentração do poder nas mãos de um único homem – devolveu aos povos a liberdade de serem diferentes.
Pentecostes: a reunião como ato de graça
Em Jerusalém, no ano 33 EC, durante o Shavuot – festa que reunia judeus de todo o mundo conhecido –, algo espantoso acontece: “E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.” (Atos 2:4). A multidão ficou perplexa porque cada um ouvia na sua própria língua.
Se em Babel as línguas foram multiplicadas para separar, aqui são multiplicadas para incluir. Não uma unidade imposta pela força – mas uma unidade livremente oferecida.
O mesmo Deus, o mesmo carácter
Em ambos os episódios, o milagre linguístico é o instrumento escolhido por Deus para quebrar um domínio opressor. Mas com sentidos opostos: em Babel, a intervenção é desconstrutiva – desfaz uma unidade artificial para preservar a liberdade. No Pentecostes, é construtiva – serve-se da diversidade existente para edificar uma comunidade voluntária.
Dois movimentos aparentemente opostos. Um único carácter divino que, em cada época, age de forma apropriada ao problema que a humanidade enfrenta.
A teologia do milagre linguístico
Babel ensina que Deus não é indiferente ao poder quando este se torna opressivo. O Pentecostes ensina que Deus não abandona a humanidade à fragmentação. No início, Deus separa para libertar. No fim, une para salvar.
Um mundo dividido à espera de uma língua comum

Lucas van Valckenborch, Torre de Babel: “Babel está de volta – nas redes sociais, nos parlamentos e praças do mundo inteiro.” Pintura no Museu do Louvre (Paris).
Vivemos num tempo em que a humanidade nunca esteve tão conectada e tão fragmentada. Babel está de volta – não em Sinear, mas nas redes sociais, nos parlamentos e nas praças do mundo inteiro.
O diagnóstico: a fragmentação é sempre consequência de estruturas de poder que subjugam. A promessa: o mesmo Deus que libertou os povos de Babel não se retirou da história.
Babel dividiu para libertar do tirano. O Pentecostes uniu para anunciar o Rei. E o Reino de Deus – aquele em que estarão presentes gentes “de todas as nações e tribos, e povos, e línguas” (Apocalipse 7:9) – virá realizar o que nenhum projeto humano alguma vez conseguiu: reunir a humanidade sem subjugar nenhuma das suas partes.
Num mundo cada vez mais partido, essa continua a ser a esperança mais radical que existe.
António Madaleno é autor de Apóstata! Porque Abandonei as Testemunhas de Jeová e O Universo das Seitas Destrutivas (Penguin Random House Portugal).
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