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O difícil não vem de Deus

| 29/10/2021

Terço

“De terço na mão somos inevitavelmente conduzidos à unidade, aquela que se ganha dando a mão ao último homem, para que não se perca nem esteja sozinho na sua humanidade desvalida.” Foto © James Coleman / Unsplash

 

Bem sabe o Criador do que somos feitos, criaturas tão repetitivas no erro e tão errantes nos passos que é certo que não se nos pode pedir senão o básico.

Mas ainda que não fosse pela nossa inépcia, é evidente que Deus tem preferência pela simplicidade como se não quisesse contar com o nosso brilhantismo para transmitir a Sua luz.

Neste mês de outubro que marca, para os cristãos católicos, a última das aparições aos pastorinhos de Fátima, voltamos a deter-nos nesse “padrão” de Deus, que facilmente esquecemos: os instrumentos de Deus são sempre tremendamente desajustados em relação aos resultados.

Em plena I Grande Guerra, ficaram aquelas três pequeníssimas almas de 10, 9 e 7 anos, incumbidas de convencer o mundo de que a paz se alcançaria com o terço na mão. Não só a paz pessoal, mas a paz do mundo inteiro: 12 minutos de uma oração singela, o que basta para tocar o coração de Deus. Tocá-Lo, consolá-Lo e mudar muitos corações.

Com a simplicidade de tal pedido, Deus (aqui por intermédio de Maria) mostra-nos uma vez mais que não quer deixar ninguém de fora do desígnio de salvação. Não há quem não possa usar o terço como seu nem deixar de ter acesso por igual às imensas graças prometidas.

Nesta simplicíssima oração, a humanidade junta-se à volta da mesma mesa, a mesa de Maria, que é obviamente a do Filho, “onde não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher, porque todos somos um” (Gálatas 3, 28).

De terço na mão somos inevitavelmente conduzidos à unidade, aquela que se ganha dando a mão ao último homem, para que não se perca nem esteja sozinho na sua humanidade desvalida. Rezando essa singelíssima oração, a humanidade pode juntar-se num coro de pobres, os que não têm mais recursos e confiam totalmente no poder dessa pobreza.

Fazemos ouvidos moucos porque, no nosso elevado critério, queremos destacar-nos, ser mais, fazer mais, fazer melhor. E vamos acrescentando coisas, que mais nos pesam do que nos libertam e que, por isso, é bem possível que não sejam de Deus.

À medida que o tempo avança e nos tornamos “peritos” em religiosidade, corremos o risco de agir como as crianças que calçam os sapatos dos adultos ou sobem a umas andas, na tentativa de ganhar centímetros à força, quando na verdade o que nos acontece é que com isso apenas ganhamos altura para cair.

Temos a mania das grandezas e desconfiamos da simplicidade, como se Deus não pudesse habitar o pequeno. Mas Deus não só habita o pequeno como somente habita o pequeno. O grande, mais cedo ou mais tarde, expulsa Deus da sua vida e do seu coração.

Recuando ao Antigo Testamento, entre muitos exemplos, detemo-nos no do sírio Naamã (II Livro dos Reis, 5), que era uma pessoa importante e estava a morrer de lepra, queixando-se por o profeta Eliseu o ter mandado banhar-se no rio Jordão para se curar, uma vez que considerava o Jordão um rio irrelevante. Naamã esteve em risco de morrer, preferindo não abandonar o seu elevado critério, o seu preconceito, a submeter-se a uma ordem simplicíssima.

Somos os mesmos de sempre, e a diacronia da história revela-nos os mesmos corações ávidos de imensa coisa, menos de simplicidade. Fugimos disso como se o anonimato nos engolisse numa treva qualquer, quando aí, nesse lugar recôndito e sossegado onde cumprimos a nossa existência, podemos lançar o maior dos alicerces para a eternidade.

É sempre tempo para descer, que é subir na lógica de Deus. Aprendamos a pousar o nosso espírito na simplicidade dos nossos dias onde, unidos ao último dos homens e repassando as contas do rosário, encontraremos paz para as nossas almas e deixaremos um rasto de paz muito para além de nós.

 

Dina Matos Ferreira é consultora e docente universitária.

 

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